Vivi maior parte da minha vida no século XX, sem jamais sonhar na juventude que veria o Ano 2000. (Quando nasci a expectativa de vida de um brasileiro estava na ordem dos 60 anos). Não obstante, o celebrei e tenho assistido, preocupado, seus primeiros lustros. Já lá vão cinco…A propósito, lembro que meu avô materno, falecido em meados da década de 1950, também falava coisas assim, entre melancólico e tristonho. Lamentava o fim do Império Britânico, de cujas casimiras não abria mão em seus elegantes ternos, sempre com coletes e relógio de bolso.
Pensando no século que vivi, até deixei meus registros num livro, “Almanaque do Século XX”(Mottironi Ed, Torres, 2023), que tem como ponto de partida frases lapidares de cada ano passado:
“Nós sempre teremos Paris”, filme Casablanca, 1943
“A terra é azul”, Yuri Gagarin, em 1961
“Eu tenho um sonho”, de Martim Luther King, em 1963
“O sonho acabou”, John Lennon, 1971
Vá o feito! Já estamos com dois meses do ano de 2026. Pergunto-me, então, o que deixamos pra trás.
Passo por cima das mudanças tecnológicas, mas deixo-lhes, meus jovens, apenas uma lembrança. Sabem de onde deriva a palavra “geladeira”? De gelo, dirão. Sim, certamente. Mas, mais direitamente, de um móvel metalizado, nossa “geladeira”, que ficava num canto da copa da casa – naquela época não havia apartamentos…-, com cerca de 1m, uma só porta vigorosa, no qual, nos verões, se colocavam barras de gelo. Ali ficavam a manteiga, um e outro alimento, um remédio. Fui conhecer o que hoje denominamos geladeira na casa de minha avó, em Santa Maria, lá por 1955. A impressão que tive foi de espanto e só me ocorreu indagar a ela se ali tinha sorvete…(?)
Passemos, pois, à Política.
O século XX consagrou três grandes modelos de desenvolvimento nas nações emergentes, fato nem sempre percebido pelo fato de que a Guerra Fria, vigorante entre 1947 e 1991, deixou o rastro da disputa entre os polos Estados Unidos e União Soviética. Entre eles, porém, emergiu um conjunto de países nórdicos – Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca -, que se notabilizaram, mais que os demais países da Europa Ocidental, por uma experiência mista entre a voracidade capitalista e o Estado Providencial comunista. Foi a social-democracia, no qual se combinava a economia de mercado com amplos direitos civis, políticos e sociais da classe trabalhadora. Foi uma espécie de “fresta” entre os polos em disputa. A regra era simples: O aumento de produtividade devia ser distribuído equanimemente entre o Capital e o Trabalho. Com isso, congelava-se o conflito social e era até possível avançar no aprofundamento de conquistas democráticas. Alguns países com forte movimento operário, como Reino Unidos, aproximavam-se deste modelo, outros, como França, com forte tradição socialista, também. Mas não chegaram ao modelo nórdico.
Pois bem, esse modelo, que consubstanciava uma espécie de centro político no mundo, acabou. Várias razões contribuíram para isso, uma delas foi a forte e global financeirização da economia mundial, outra, o fenômeno das migrações que acabaram abalando a estabilidade social na Europa. Hoje, obrigados por Trump a elevar seus gastos com defesa, a opção pela “manteiga”, que simbolizava metaforicamente a procura de um modelo de bem estar social, está definitivamente soterrado. As grandes diferenças sociais, o desemprego, a crise dos mais vulneráveis tomou conta até da Suécia.
Mas e os outros dois modelos, dos ditos polos: o americano e o soviético?
O soviético veio abaixo com queda do muro de Berlim, que separava a cidade nos dois campos, em 1989, secundado pelo fim do regime soviético, em 1991. Deixemos de lado as razões desta crise. Não é objeto deste artigo. Mas impactou tão fortemente o movimento comunista internacional, que poderosos Partidos Comunistas, como o italiano e o Partidão, no Brasil, velho PCB, do Prestes, abandonaram não só os nomes, como os programas revolucionários. A “esquerda” docilizou-se, temperada pela Igreja dos Pobres.
E o modelo americano? Sonho de milhões de pessoas que atravessaram continentes e oceanos em busca do sonho do ‘american way of life’, tão disseminado pelos belos belos filmes de Hollywood?
Bem, é lamentável, mas também ruiu. Apesar de ainda deterem um forte poder militar e inequívoca capacidade de pesquisa para a corrida tecnológica, os Estados Unidos atrapalhou-se com suas próprias pernas. Perdeu a concorrência comercial para um novo player, a China, que é, hoje a maior compradora de mais de 150 países e detém em suas mãos um valor impagável da Dívida do Tesouro americano, e com isso está perdendo sua capacidade hegemônica sobre o mundo. Cidades industriais viraram fantasmas, o desemprego grassa, o conflito racial, agudizado pela crise econômica, se acentua, e mesmo os trabalhadores inseridos no mercado formal já não serão capazes de garantir aos filhos o mesmo nível de vida que conquistaram. Trump é o sintoma disso tudo. Uma espécie de grito de desespero, como o que proferiu, na sua fala de Estado à Nação, nesta semana, na qual promete com ridícula grandiloquência, entre arroubos supremacistas, nada mais, nada menos, do que mais guerra no mundo.
Enquanto isso, o planeta, com 8 bilhões de moradores, se faveliza por todos os seus poros e nada promete a não ser mais devastação ambiental e humana.
Morro de saudades do século XX. Resta-me, enfim, como lembrança, apenas uma velha calça de brim desbotado e a memória dos jovens libertários dos anos 1936 e 1968.
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