OPINIÃO – Tempo de Advento…

O Advento contribui para reforçar a resistência no  bom caminho da virtude. O homem como começo e o fim de tudo. Resistamos, pois, ao fim do próprio homem, sob a ameaça do holocausto nuclear ou ambiental.

25 de novembro de 2022

Sou persistente. Todos os anos, desde 2012, trago aos leitores desta coluna em A FOLHA ,de Torres,  na expectativa de ressoar nas curvas do Mampituba, minha mensagem de BOAS FESTAS, através da lembrança do “Advento”.

Os problemas internacionais que tenho aqui  trazido, ao longo desta década, só pioraram com a crise da pandemia e com a Guerra na Ucrânia. No Brasil, depois de uma campanha eleitoral plena em  dissonâncias ideológicas no ano passado, consagrou-se a democracia como vencedora. Lá e aqui, porém,  o futuro é incerto. A segurança periclita. Vivemos momentos difíceis em nossa História.  As esperanças de um mundo melhor parecem soterradas na multiplicação sem par da miséria, resultado da extrema concentração da riqueza, na destruição do Planeta, na disseminação do vício e confrontos religiosos, étnicos e políticos e, por último, mas não menos importante, na depressão, essa ‘psico-epidemia’ irrecorrível do século XXI.

Mas o “Advento”, como o  período de quatro semanas, na tradição cristã, que antecede o Natal, se renova todos os anos reacendendo expectativas.  O que há de vir: A esperança da Boa Nova que nos ensina que o perdão é a regra da civilidade entre os homens e o Pacto,  seu imperativo social. O amor a todos os homens, sem distinções.  A grande ceia da noite de Natal não é, senão, uma metáfora  para a celebração  da concórdia entre todos nós. É a confirmação do laço afetivo  que sela  o ponto final de uma peregrinação que mobiliza  passos ao longo de milhares de quilômetros  em direção ao encontro natalino. -Para onde voltamos sempre? , indagava um famoso filósofo: Para casa.  É em casa, no amplexo familiar, que renovamos as energias para enfrentar as adversidades  que  se anunciam na fatia dos tempos. Um ritual,  mas que contribui para quebrar a corrida do cotidiano. Em casa  a dor dói menos e a alegria se alegra ainda mais. A alma exulta.

O Advento contribui para reforçar a resistência no  bom caminho da virtude. O homem como começo e o fim de tudo. Resistamos, pois, ao fim do próprio homem, sob a ameaça do holocausto nuclear ou ambiental.  Ainda há tempo, mas urge. É preciso coragem, determinação e bom senso.  Resistir,  não só por orações e abraços,  mas por ações.  Não basta ser contra o racismo, contra o extremismo, contra o parasitismo de elites pouco sensíveis aos sofrimentos do povo. Há que participar da luta contra tudo isso. Engajamento.

Aproveito, neste sentido, um post do Cientista Política gaúcho Aldo Fornazieri que nos relembra históricos discursos durante o Advento :

 

‘Todos vós estais em pecado mortal. Nele viveis e nele morrereis, devido à crueldade e tiranias que usais com estas gentes inocentes. Dizei-me, com que direito e baseados em que justiça, mantendes em tão cruel e horrível servidão os índios? Com que autoridade fizestes estas detestáveis guerras a estes povos que estavam em suas terras mansas e pacíficas e tão numerosas e os consumistes com mortes e destruições inauditas? Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhes de comer e cura-los em suas enfermidades? Os excessivos trabalhos que lhes impondes, os faz morrer, ou melhor dizendo, vós os matais para poder arrancar e adquirir ouro cada dia… Não são eles acaso homens? Não tem almas racionais? Vós não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Será que não entendeis isso? Não o podeis sentir?’

 

Este sermão foi pronunciado pelo Frei António de Montesinos, em Santo Domingo em 21 de Dezembro de 1511, no quarto domingo do Advento. Ficou na história como o primeiro pronunciamento em defesa dos Direitos Naturais e Humanos dos índios das Américas. Inspirou também o Frei Bartolomeu de Las Casas a elaborar as chamadas Leis Novas, decretadas pelo Rei Carlos I da Espanha, para tentar proteger os índios das brutalidades praticadas pelos espanhóis conquistadores na sua feroz busca por riquezas e ouro. Bartolomeu estava presente quando Montesinos pronunciou o seu sermão. Infelizmente, muitos índios continuaram e continuam sendo mortos e dizimados.

 

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