O dia era de um outono memorável, aliás, para mim a mais bela estação aqui no Sul. Tempo merecedor de verdadeiras homilias, poemas e até romances: Paixão de Outono? Lembro, a propósito, de uma dessas pérolas que só não ficam perdidas porque lavradas em gráficas.
Foi um exemplar que, aliás, que me foi presenteado pelo filho do autor, Antônio Lopes. Fazíamos um programa na INTERNET num daqueles invernos de Torres, quando não se vê vivalma nas ruas depois que o sol se põe: “Farol Literário”. Ele falava com ternura no pai, PAULO CORREA LOPES, um poeta porto-alegrense dos idos de 1940 e que mereceu de Mário Quintana boa apreciação pela fé que depositava nos seus versos, quando leu esta crônica:
“O outono chegou com suas primeiras folhas mortas. E Já, se não me falha a memória, já comparou a vida do homem a uma folha. E comparou muito bem. Principalmente a vida do homem sem Deus. Quando a criatura encontra o Criado já não há vento, por mais forte que sopre, que possa arrancar a folha humana da árvore divina.
O outono chegou com suas primeiras folhas mortas. E o outono nos fala da poesia das almas que atingiram a plenitude. Estação bela e, ao mesmo tempo, terrível. Há como que um aceno de despedida em todo o ser que atingiu o outono. Olhos cansados se voltas muitas vezes para o passado. O homem velho acorde e, numa última tentativa, procura arras a alma para épocas perigosas.
O outono chegou com suas primeiras folhas mortas.
Penso naquela noite fria, penso que estamos vivendo os últimos dias do último verão, e sou surpreendido com um vídeo enviado por um amigo no celular. As imagens, a situação, o drama suscitado me obrigam a escrever.
Um observador, lembrando provavelmente o primeiro aniversário da morte da mãe resolve visitar seu túmulo. Eram seis em ponto da tarde e o sol cansado da viagem diurna já se recostava no horizonte. Fala com o porteiro, que lhe garante estará aberto até o anoitecer. Apressa-se. Junto com ele, umas flores frescas que deixaria à mãe como tributo de seu amor ainda pulsante. Vai rápido, tateando à cata do local quase esquecido. Na passagem estreita, percebe um menino de aparência terna e triste, uns oito anos, vestido com simplicidade, chinelinho de dedo, sentado numa das lápides. Ao seu lado, umas folhas de papel avulso, rabiscadas. Era tarde, estava apressado, mas aquela imagem de um menino com olhar vago, àquela hora, sozinho ali, chamou-lhe a atenção. Parou:
– Que está você fazendo aqui a essa hora? O cemitério já vai fechar.
O menino levantou os olhos e disse com delicadeza:
– Vim mostrar minhas provas pra minha mãe.
– Sua mãe morreu? Faz muito tempo? Está enterrada aí?
– Sim, respondeu o menino. Está aqui. Morreu faz pouco tempo. Eu vim mostrar minhas provas pra ela. Tirei boas notas…
O momento congelou-se, o homem, enternecido, se esqueceu por um instante da mãe, ficou aturdido com aquele jovem , ainda inconsolável com ausência da mãe, e que vai vê-la no cemitério. Levar-lhe o reconhecimento que lhe seguiu os bons conselhos. Tudo com muito carinho. Sem pressa, fica ali, sem dar-se conta da própria hora. Só a ligação espiritual com a mãe ausente.
– E o teu pai, indaga? O menino nada responde. Está longe do mundo. Envolto nas névoas da saudade, do amor que fica.
– Moras por aqui? Insiste o homem.
– Sim, disse o menino.
– Não tens medo de ficar sozinho à noite, o cemitério vai fechar.
– Não, responde. Minha mãe está aqui comigo…
– Vamos lá, te levo em casa.
– Tá bem, balbuciou a criança. E deixou-se levar
Era outono. Atravessando o cemitério, já se viam folhas mortas por onde iam…
