PECULIARIDADES DO NASCIMENTO DE TORRES: De costas para o mar

"Nos primórdios da cidade, os moradores não tinham plena consciência do lugar especial em que viviam. O mar, por exemplo, não era visto como um diferencial na paisagem. Curioso pensar que, ali, tão perto do mar, a cidade virou o rosto para a serra. A igreja, coração da vila, foi construída de costas para o oceano, como quem não reconhece a beleza do que tem diante dos olhos"

16 de março de 2026

O nascimento de Torres não foi diferente de tantas outras cidades. Começou pequena, tímida, como uma vila que nem sabia direito que era vila. Um núcleo de gente, casas de madeira, passos lentos e crescimento que só se percebe olhando para trás. Muitas cidades não passam disso — permanecem estagnadas por anos, décadas, talvez até séculos.

Mas Torres não nasceu à toa. Ela era caminho e era divisa. Para entrar no Rio Grande do Sul, não havia outro jeito fácil: era pela costa ou não era. Os caminhos por dentro do mato existiam, sim, mas eram feitos de barro, bicho e perigo.

Por sua posição estratégica, o Império não demorou a fincar ali uma guarda que mais tarde, tornou-se um presídio. Foi Manoel Ferreira Porto quem realmente iniciou o núcleo que viria a se transformar na vila de Torres. A partir da escolha do local para a construção da igreja, ele demarcou os rumos da futura cidade. Poderia ter sido no Morro da Itapeva, mas, por fatores econômicos e políticos, o alferes decidiu construí-la ao lado de sua própria casa — e, como era de se esperar, as pessoas passaram a erguer suas moradias ao redor dela. A cidade cresceu como crescem as coisas simples: ao redor de um altar e de uma vontade.

Nos primórdios da cidade, os moradores não tinham plena consciência do lugar especial em que viviam. O mar, por exemplo, não era visto como um diferencial na paisagem. Curioso pensar que, ali, tão perto do mar, a cidade virou o rosto para a serra. A igreja, coração da vila, foi construída de costas para o oceano, como quem não reconhece a beleza do que tem diante dos olhos. Não por desprezo — talvez por hábito. Naqueles tempos, o mar não era paisagem, era trabalho, era medo, era bicho grande escondido na água. O mar não era poético. Era prático, e por isso mesmo, invisível.

Ninguém falava em balneário. Muito menos em turismo. Torres era uma vila funcional, feita de roça e vento. O mar, esse gigante azul, só foi ser valorizado muito tempo depois, quando começou a atrair olhares de fora, gente de longe, fotógrafos, veranistas e sonhadores.

Como cidade praiana, balneária e turística, Torres passou por diversos estágios até se tornar um município com vida ao longo de todo o ano. Ainda assim, isso é pouco: a cidade ainda não dispõe da estrutura nem da densidade populacional necessárias para sustentar grandes comércios, serviços diversificados, ou uma rede de lazer e saúde ampla e bem suprida.

A beleza, essa, sempre esteve ali. Faltava apenas que os olhos a encontrassem.

E assim, entre escolhas silenciosas e rumos quase acidentais, Torres foi se fazendo — cidade que nasceu sem saber que era bela, que cresceu sem notar o mar às costas. Hoje, tenta reencontrar seu espelho azul e construir um futuro que olhe de frente para o que sempre esteve ali. Talvez seja essa a sina das cidades litorâneas: antes de se lançarem ao mundo, precisam primeiro reconhecer o próprio horizonte.

 

*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***




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