Não sou daqui, mas me criei aqui. Moro em Torres desde os cinco anos de idade e, desde então, ouço uma expressão bem curiosa. A expressão é: “di já hoje”. Sim, assim mesmo — “di”, e não “de”, como seria o correto. Muitos abreviavam ainda mais, transformando-a em um “jáhoji”.
No nosso “gauchês”, “de já hoje” é uma forma de dizer “o dia de hoje” ou, simplesmente, hoje. Como em todo o estado, a expressão tem o mesmo significado; o que a torna singular é o modo de falar daqui.
Convivi com muitos desses termos e palavras usadas só por estas bandas. Além da já citada “di já hoje”, existem várias outras. Não sei se vou me lembrar de todas, mas algumas ficaram bem marcadas na memória: nego(a)/neguinho(a), “intornar”, paranhos, “pois então”, coruja, ladina, “periga”, “devalde”.
Meu pai trabalhou por mais de 30 anos em uma revenda de bebidas. Nesse ramo, era preciso mão de obra com muita força física — algo nem sempre fácil de encontrar na cidade. O jeito era recorrer ao interior do município, onde estavam os trabalhadores rurais, acostumados ao serviço pesado. Eles aproveitavam a entressafra e vinham para a cidade em busca de trabalho, principalmente na temporada de verão.
E foi através desses trabalhadores que tive contato com muitos desses termos. Hoje, nós, torrenses, usamos palavras oriundas de diversos lugares, principalmente do vizinho estado de Santa Catarina que, pela proximidade, acabaram se misturando e se adaptando ao nosso jeito de falar.
Não sou especialista no assunto — sou apenas curioso. E, como tal, vou me aventurar por essas palavras e expressões que conheci ao longo dos meus 60 anos. A ideia é simples: apresentar a palavra, seu significado e o meu ponto de vista (nada científico).
“Intornar” — ou melhor, entornar. O significado literal é virar, emborcar, derramar. Mas também é usado no sentido figurado: quando algo complica. “Intornou o tempo paras as bandas do mar.”
Paranho, ou paranhos. São aqueles acúmulos de sujeira e poeira que lembram teias de aranha. “O canto da parede está cheio de paranhos.” As limpezas lá de casa sempre começavam com verdadeiras batalhas contra essas teias — as paranhas!
Pois então. Uma expressão que eu nem sabia que usava tanto até um colega de faculdade chamar atenção. Ele perguntou por que os torrenses começavam tantas respostas com “pois então”. Pois então… eu não sabia responder.
Coruja. “Vamos comer uma coruja?” Quem ouve e é de fora estranha, mas, em Torres, não tem nada a ver com a ave. Coruja é uma rosca de polvilho grande, leve, bem comum nas padarias da região.
Ladina. Para muitos, é apenas o feminino de ladino. Para nós, torrenses, é outra coisa: uma rosca de polvilho azedo, frita em óleo bem quente.
Periga. Vem de “perigo”, mas aqui ganha outro sentido: algo que está prestes a acontecer. Dá até para brincar: “O perigo periga.”
Devalde. O correto é “debalde”, que significa inutilmente, em vão. Mas, por aqui, já ouvi muito sendo usado para quem não está fazendo nada: “devalde à toa”.
Estas são algumas palavras e expressões do “torrensês”, se é que podemos chamar assim. Há muitas outras — e, com o tempo, certamente me lembrarei de mais. Quem sabe, reunindo novas palavras, não nasça outra coluna.
Mas, mais do que isso, talvez seja uma forma de guardar um pedaço daquilo que somos — porque, no fim das contas, uma cidade também se constrói pelas palavras que escolhe para existir. E algumas delas, se não forem ditas, simplesmente deixam de viver.
