Nunca vi ninguém ensinar a envelhecer.
E não falo dessas recomendações que aparecem aos montes — caminhe trinta minutos por dia, coma menos sal, durma melhor. Isso tudo ajuda, claro. Mas não é disso que estou falando.
Estou falando do pacote completo.
Aquele que chega sem manual.
Quem já começou a envelhecer — como eu — entende. Primeiro vêm os sinais discretos. Depois, eles se instalam. Quando a gente percebe, já deram endereço fixo.
É o desgaste dos metais.
Ninguém gosta muito de falar nisso. Não rende conversa leve, nem fotografia bonita. Mas está ali.
As dores aparecem. E, com elas, outras pequenas despedidas: a visão que já não alcança como antes, a audição que pede repetição, os cabelos que rareiam. A máquina, aos poucos, começa a cobrar o tempo de uso.
“Melhor idade” foi o título que deram para tentar glamourizar a maior idade — ou, quem sabe, a pior idade.
Mas a verdade é mais simples — e mais antiga do que qualquer expressão bem-intencionada: todos estamos apenas cumprindo o ciclo. Nascer, crescer, envelhecer e partir.
Sem exceção.
Costumam dividir a vida em fases — infância, adolescência, vida adulta, velhice. Tentativas de organizar o que, no fundo, não para nunca de acontecer.
E em cada uma delas, cada um tenta fazer o melhor possível com o que tem naquele momento.
Bem, eu e muita gente — mais precisamente dezenas de milhões de brasileiros com mais de 50 anos — estamos rumando para a velhice, embora já estejamos sentindo os primeiros sinais dela.
E seremos ainda mais.
O país envelhece. O mundo envelhece. A vida se estende — e, com ela, o desafio de aprender a habitá-la por mais tempo.
Mas aí surge uma pergunta incômoda: se vivemos mais… por que sabemos tão pouco sobre como envelhecer?
Ensinaram-nos a estudar, trabalhar, produzir, competir. Ensinaram-nos quase tudo.
Menos isso.
Menos lidar com as perdas pequenas, com as limitações que chegam devagar, com o espelho que muda sem pedir licença.
Talvez ainda dê tempo de aprender.
Ou, pelo menos, de não fingir que não sabemos.
Porque, no fim das contas, envelhecer não é um acidente. É destino comum.
E, quem sabe, também possa ser construção.
Foi assim que Elza Soares resumiu no alto dos seus 91 anos:
“Eu não tenho idade, eu tenho tempo.”
Talvez seja por aí.
Talvez envelhecer não seja sobre contar os anos — mas sobre aprender, finalmente, o que fazer com o tempo.
