VELHICE: Ninguém nos ensina a envelhecer

"A verdade é mais simples — e mais antiga do que qualquer expressão bem-intencionada: todos estamos apenas cumprindo o ciclo. Nascer, crescer, envelhecer e partir"

14 de abril de 2026

Nunca vi ninguém ensinar a envelhecer.

E não falo dessas recomendações que aparecem aos montes — caminhe trinta minutos por dia, coma menos sal, durma melhor. Isso tudo ajuda, claro. Mas não é disso que estou falando.

Estou falando do pacote completo.

Aquele que chega sem manual.

Quem já começou a envelhecer — como eu — entende. Primeiro vêm os sinais discretos. Depois, eles se instalam. Quando a gente percebe, já deram endereço fixo.

É o desgaste dos metais.

Ninguém gosta muito de falar nisso. Não rende conversa leve, nem fotografia bonita. Mas está ali.

As dores aparecem. E, com elas, outras pequenas despedidas: a visão que já não alcança como antes, a audição que pede repetição, os cabelos que rareiam. A máquina, aos poucos, começa a cobrar o tempo de uso.

“Melhor idade” foi o título que deram para tentar glamourizar a maior idade — ou, quem sabe, a pior idade.

Mas a verdade é mais simples — e mais antiga do que qualquer expressão bem-intencionada: todos estamos apenas cumprindo o ciclo. Nascer, crescer, envelhecer e partir.

Sem exceção.

Costumam dividir a vida em fases — infância, adolescência, vida adulta, velhice. Tentativas de organizar o que, no fundo, não para nunca de acontecer.

E em cada uma delas, cada um tenta fazer o melhor possível com o que tem naquele momento.

Bem, eu e muita gente — mais precisamente dezenas de milhões de brasileiros com mais de 50 anos — estamos rumando para a velhice, embora já estejamos sentindo os primeiros sinais dela.

E seremos ainda mais.

O país envelhece. O mundo envelhece. A vida se estende — e, com ela, o desafio de aprender a habitá-la por mais tempo.

Mas aí surge uma pergunta incômoda: se vivemos mais… por que sabemos tão pouco sobre como envelhecer?

Ensinaram-nos a estudar, trabalhar, produzir, competir. Ensinaram-nos quase tudo.

Menos isso.

Menos lidar com as perdas pequenas, com as limitações que chegam devagar, com o espelho que muda sem pedir licença.

Talvez ainda dê tempo de aprender.

Ou, pelo menos, de não fingir que não sabemos.

Porque, no fim das contas, envelhecer não é um acidente. É destino comum.

E, quem sabe, também possa ser construção.

Foi assim que Elza Soares resumiu no alto dos seus 91 anos:

“Eu não tenho idade, eu tenho tempo.”

Talvez seja por aí.

Talvez envelhecer não seja sobre contar os anos — mas sobre aprender, finalmente, o que fazer com o tempo.

 




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