DIÁRIO DE MOCHILA – Buscando equilíbrio em Jericoacoara

Buenas! Na última semana, continuei relatando sobre minha fase de Intensidade por Jericoacoara. Nessa edição, entro em meu terceiro e último momento, o de “Equilíbrio”. Boa leitura!

Pipe com ‘nova leva’ de hóspedes israelenses
15 de julho de 2023

Pisando no freio

 

A demanda completamente descontrolada e inesperada dos israelenses, no hostel em que eu gerenciava em Jeri, iniciou uma grande sequência de problemas técnicos na casa e, consequentemente, problemas técnicos em mim. Eu tenho um senso de responsabilidade gigantesco com tudo que me envolvo. Logo, qualquer mero problema já mexia comigo, quem dirá grandes e sequenciados. Aliado a isso, ter que administrar diariamente meus voluntários, cerca de 30 hóspedes israelenses fazendo bagunça em todos os cantos do hostel, gerenciar a ocupação e disponibilidade, recebimento de pagamentos, e por aí vai. E detalhe: já fazia dois meses que eu havia chegado em Jeri e, nesses 60 dias, sem nenhum dia de folga (por minha opção, diga-se de passagem).

O resultado disso foi uma onda de estresse que muito me lembrou meus momentos de maior demanda quando tinha minha empresa em Porto Alegre. E o que me fez colocar o pé no freio. Não havia feito o movimento de vida que fiz para voltar a ser escravo de mim mesmo e ser tomado por uma energia de estresse. Então, após falar com os donos do hostel, organizei uma saída de alguns dias não só do hostel, como também de Jeri. Eles conseguiram com um amigo uma casa para eu ficar na Praia do Preá, bem próximo de onde eu estava. Mas longe o suficiente para eu sair da operação por completo e conseguir de fato espairecer.

O período foi o melhor impossível, num quesito de caos que a minha falta no hostel poderia causar. Era a semana anterior ao carnaval, e os israelenses, metódicos como são, passam esse feriado no Rio, Salvador ou Floripa. Jeri não está no mapa de opções. Ou seja, a paz retornaria ao hostel por uns dias, então foi mais tranquilo, até para minha consciência, me ausentar nesse período. Foram 5 dias de muita, muita paz. Apenas eu e a simpática e charmosa casinha da Praia do Preá. Cozinhava, comia, dormia, passeava na praia, lia e meditava. E coloquei a cabeça no lugar. Consegui voltar um pouco no tempo e entender os motivos desse colapso psicológico que eu havia passado e entendi o que seria necessário ajustar na operação em meu retorno. Foi uma parada mais do que necessária.

 

Organizando a casa

 

Voltei outra pessoa. Com a mesma leveza que eu cultivei nos meus últimos anos e que internalizei muito forte nesses dias de descanso que, apenas em situações muito emergenciais de minha vida, eu abriria mão. Cheguei no início do feriado de carnaval o que, até para minha surpresa, é um período de baixa temporada em Jeri. Já havíamos entrado na época de chuvas, o que afasta e muito os turistas por lá. Foi ótimo, pois consegui ter tranquilidade para falar com os donos e pontuar o que eu achava necessário para a continuidade de meu trabalho. Coisas mais operacionais que não faz muito sentido eu entrar nos méritos por aqui. Mas tudo que pontuei eles concordaram. Lógico, não eram bobos nem nada. Não queriam me perder. Aproveitei os dias mais tranquilos também para passear mais por Jeri, tentar viver mais a vila. Um grande amigo meu do sul e sua companheira, um pouco por minha causa, decidiram passar o carnaval por Jeri. Foi bom ver um rosto amigo por lá. Foram dias que vivi Jeri com uma tranquilidade que talvez eu nem conhecesse. Esse novo cenário me deu muito mais tranquilidade para a próxima onda de israelenses que eu sabia que viria. Meus chefes, com a experiência de terem a 7 anos hostel em Jeri, me diziam: “Felipe, de agora em diante Jeri vira um deserto. O hostel vai ficar vazio até junho, quando as chuvas param e os turistas voltam”. Mas eu sabia que eles estavam errados. Apesar de a invasão israelenses ter acabado no feriado do Carnaval, eu sabia que eles voltariam. Os donos deram risada. Disseram que eu estava errado mas que adorariam que eu estivesse certo. Eu apenas disse para esperarem. Meu feeling não errava para essas coisas. A conexão que criei com eles foi muito forte e o nome do hostel ficou muito poderoso entre viajantes israelenses. E no fundo, era o que eu mais queria. Voltar a receber aquela energia caótica de novo.

 

A segunda onda

FOTO – Pipe com israelense e voluntário em uma festa no hostel

 

 E eis que acertei. Já nos últimos dias da semana de carnaval, meu celular começou a explodir de mensagens novamente. Israelenses. E numa intensidade ainda maior do que antes. Em questão de uns 2 dias, as 30 camas do hostel já estavam reservadas com lotação total pelos 10 dias seguintes. Mas antes disso, um grande marasmo. Não só no hostel mas em Jeri também. Aqueles dias pós carnaval foram quando menos vi seres humanos transitando na vila, desde minha chegada. Era até estranho ver aquilo. Lembro bem que em um desses dias, o hostel estava com apenas 2 hóspedes mas, para o dia seguinte, mais de 20 israelenses chegariam e lotariam as camas. Tudo em um mesmo dia. Um verdadeiro tsunami. Já com a todo o controle dessas reservas em mãos, avisei os donos do que aconteceria no dia seguinte. Eles continuavam sem acreditar. Daquela vez fui em quem deu risada. Só disse para eles aparecerem pelo hostel na noite do dia seguinte e conferirem in loco. E assim fizeram. Num cenário onde Jericoacoara estava praticamente vazia, o hostel que eu gerenciava voltou a ficar lotado. E essa onda realmente veio com mais força. A ponto de, na falta de camas livres, eu criar uma fila de espera em nosso outro hostel. O israelense ao chegar em Jeri, se hospedava nesse segundo, esperando liberar espaço no principal. Foi uma loucura. Mas dessa vez, uma loucura ordenada. Eu já havia resolvido os gargalos necessários para que aquele nível de estresse não viesse à tona novamente. E consegui isso muito bem. Admito que essa nova onda, pós carnaval, era de israelenses da melhor espécie possível. Todos muito comportados e amáveis. Foi fácil de administrar. E ajudou também para eu entrar nessa minha última fase em Jericoacoara, de “Equilíbrio”. Uma fase em que pude aproveitar o melhor de tudo que Jeri havia me dado, sem perder o sono nem cabelos.

 

Equilíbrio

 

Minhas semanas seguintes ao final do carnaval foram, por um lado, minhas melhores semanas desde minha chegada em Jeri. Falo por um lado porque não posso falar por completo. Afinal de contas, o início de um ciclo lindo como esse que eu estava vivendo, sempre será o início. Tudo deslumbra mais e fica mais colorido. Esse deslumbre todo já não era o mesmo, porém, foi minha fase de maior maturidade na posição que eu estava em Jericoacoara. Aprendi muitos atalhos da operação, estava (disparado) com a melhor equipe de voluntários desde minha chegada, com a relação muito bem alinhada com os donos e com o melhor grupo (pelo menos no aspecto “nível de bagunça”) de hóspedes de Israel que eu já havia recebido. Essa nova onda era de puro amor e educação. Às vezes nem pareciam israelenses. Claro que sempre tinham as exceções, mas via de regra, foi um grupo que pouco me incomodou. Pelo contrário, acredito até que foram os que mais profundamente consegui interagir. Meu nível de inglês e conhecimento sobre o que eles gostavam também já estava avançado, o que ajudou muito nisso. E também voltei a criar algum tipo de vida fora do hostel. Desde minha chegada a Jeri, quase a totalidade de minha rotina ficava em função do hostel. A vibração da vila não batia com a minha. Excessos, dinheirismo, drogas, sexo e rock and roll. Definitivamente não era o que eu buscava. Mas a natureza de Jeri nunca deixou de ser deslumbrante. E foi nela que mais me aprofundei nessa fase. Fazia mais seguidamente trilhas pelo mágico Morro do Serrote nos coloridos finais de tarde. Na maioria das vezes, como de costume, sozinho. Mas passei também a convidar os hóspedes para irem junto comigo. Eles amavam. Era algo que não estava na lista israelense de “o que fazer em Jericoacoara”. E eu aproveitava para poder compartilhar esses momentos em meio a natureza com alguém. Algo que há anos eu já havia me acostumado a fazer sempre em minha própria companhia. Formas diferentes de curtir o mesmo momento.

E todo esse cenário me trouxe uma paz muito grande. Equilíbrio. O hostel passou a andar quase que de uma forma automática, mesmo ele estando sempre lotado ou muito perto disso. Eu trabalhava muito menos do que nas fases anteriores. Lia mais, tocava meu violão, conversava mais, tanto com os hóspedes como com os voluntários (que no final das contas, eram os meus amigos por lá), aproveitava mais a praia e, principalmente, dormia muito melhor. Conseguia praticamente todo dia me dar ao luxo de antes das 21h já estar na cama, o que me fazia muito bem. E me gerava uma boa noite de sono para ter um dia seguinte em plena forma. Consegui recuperar aquela mesma felicidade e poder de presença que eu havia alcançado desde minha chegada a Jeri. Mas todo ciclo tem seu fim, e o meu estava chegando nesse fechamento. Na próxima semana falo do último capítulo de Jericoacoara e dos motivos que me levaram a sair de lá. Até lá!


Publicado em: Sem categoria






Veja Também





Links Patrocinados