As queixas referentes í saúde do escolar mobilizam psicólogos da saúde mental em todo país, ao comprovarem através de uma pesquisa, que 50% das queixas apresentadas nas Unidades Básicas de Saúde são relativas a dificuldades de aprendizagem e 21% referentes a problemas de comportamento na sala ou fora dela. Essa constatação agrava no momento em que se analisa a faixa etária onde estariam localizados os problemas, isto é: pelo menos um terço das crianças pesquisadas possui entre 6 e 7 anos de idade e são frequentadoras de escolas públicas estaduais e municipais. Outro dado contundente é que aproximadamente metade das crianças encaminhadas não teve nenhuma reprovação escolar.
Esses dados, embora circunscritos a uma pesquisa exploratória, trazem í tona uma questão bastante séria, há muito vivida no cotidiano do profissional de saúde e educação. Ou seja, basicamente a criança que é atendida por psicólogos é portadora de uma queixa escolar (e não familiar). Diante desta realidade, perguntamos: Qual seria a expectativa da escola em relação í sua clientela? A escola teria um modelo ideal de aluno ao qual essas crianças não se enquadram, e portanto seriam todas portadoras de problemas de saúde, basicamente de saúde mental?
Em nossa prática, aceitando o pedido de atendimento dessas crianças- problema , tentando dar conta dessa demanda da forma como ela nos chega, como casos individuais, não estaríamos sendo coniventes com a ideia de que a criança e/ou a família seriam os únicos responsáveis pelo fracasso escolar da criança? Desta forma não estaríamos legitimando a condição de exclusão social a que esta criança é submetida logo no início de sua vida escolar?
A forma em que a queixa escolar se apresenta, na maioria das vezes parte do ponto de vista do aluno, referindo-se í sua história pessoal. Por outro lado, a outra forma de buscar faria nos entender como proveniente do âmbito escolar, entendida enquanto instituição.Do ponto de vista do aluno, localiza-se no mesmo possíveis causas psíquicas que estariam interferindo em sua aprendizagem ou em seu mau comportamento em sala de aula. Assim, o encaminhamento de uma criança com problema de aprendizagem e/ou comportamento para um psicólogo pressupíµe, na maioria das vezes, um problema emocional.
Esta suposição feita pela escola a respeito do aluno tem como primeira consequência o atendimento pelo profissional de saúde, que muitas vezes não consegue compreender o motivo pelo qual pais e criança aí se encontram. Considerando e questionando a realidade da qualidade da escola pública oferecida í criança e seus pais, nos leva a repensar a inserção do psicólogo na questão dos problemas apresentados pela escola. Esse repensar passa de uma visão unilateral (a criança “ problema) para uma compreensão e olhar multifatorial, como, por exemplo, a de considerar o que se passa na escola em seu interior e funcionamento, bem como outros aspectos, como psicopedagógicos, institucionais.


