A medicalização do sofrimento humano

19 de setembro de 2012

 

Vivemos um momento em que a medicalização da vida tem uma carreira vertiginosa. Hoje pode-se tomar pí­lulas para dormir, emagrecer, manter a juventude, recuperar a memória, a atenção, melhorar o desempenho sexual e, o que é mais interessante, para atingir o bem-estar, ser mais produtivo no trabalho; em suma, para desfrutar felicidade.Curiosamente, vivemos também um momento onde a depressão   se constituem como o mais intenso e dominante sofrimento í­ntimo do ser humano.

A psiquiatria estabelece bases biológicas para os sofrimentos psí­quicos, aproximando os fení´menos mentais das doenças orgânicas, ou seja, vê-se um abandono crescente da historicidade causal e do sentido dos sintomas apresentados pelo sujeito em benefí­cio de uma noção em que eles são manifestaçíµes de desordens da bioquí­mica.

Existe um cérebro, existe um déficit de uma substância, e a suposição de correção dessa insuficiência pelo uso da droga. Enfatiza se a inibição, as alteraçíµes na atividade e produtividade do indiví­duo, menos a sua dor psí­quica..O mundo em que as drogas predominam é o mundo do esquecimento e da artificialidade dos ví­nculos. Assim, o homem pode drogar-se para esquecer as misérias da vida e pode, também, drogar-se para estabelecer ví­nculos artificialmente solidários e alegres. Existe ainda a procura da euforia, que pode ensejar momentaneamente uma maior criatividade e produtividade. Mas o homem, igualmente, pode medicar-se para escapar do sofrimento e desfrutar de uma certa felicidade.

 Não é por acaso que os antidepressivos receberam o apelido de pí­lulas da felicidade. A Psicanálise e a medicina seguem linhas de raciocí­nio absolutamente distintas; enquanto a primeira privilegia a subjetividade e vai buscar, nas palavras dos pacientes, sua história e motivaçíµes inconscientes para o sofrimento,  a psiquiatria parte em busca de uma suposta objetividade cientí­fica, nos indicadores que a biologia fornece do funcionamento cerebral, nas falhas dos neurotransmissores, a causa de uma doença. Enquanto a psiquiatria engloba os pacientes em categorias diagnósticas padronizadas e os define face í  reação a determinada droga, a psicanálise os singulariza, tomando-os em sua dimensão individual, e valoriza a história de vida daquele individuo, seu conflito existencial, sua essência. O paciente deprimido é uma pessoa que vive submergido na perda, com um eu implacável, tirânico, que gera uma culpa devastador. A auto-acusação, a auto-recriminação estão sempre presentes.

Em verdade, ele é um enlutado com a vida, atormentado por uma perda que ele nem sabe qual foi, mas que faz buraco em sua existência, marcando uma dimensão de desamparo, e a perda do sentindo e prazer pela vida.   Vemos, então, quão distintos são os enfoques da psiquiatria biológica e da psicanálise, porém ambos preocupados em minorar o sofrimento humano. A primeira pesquisa um déficit orgânico, a segunda, uma dor afetiva, psí­quica e emocional.Amparados por um potente trabalho de propaganda, onde cifras milionárias alimentam os laboratórios, as pí­lulas crescem em prestí­gio. A interrogação que se coloca é a seguinte: pode a psicanálise ignorar os avanços da neurociência e, por outro lado, a psiquiatria abandonar a subjetividade e singularidade do sujeito? Não creio. O que está ocorrendo é a expansão de um tipo de pensamento sobre a realidade do sofrimento humano, um pensamento bioquí­mico, que retira do doente a possibilidade de responsabilizar-se pelo que lhe acontece e pelo destino de seus próprios desejos, alimentando seus sintomas e alienando-se.

 


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