A PRAí‡A í‰ NOSSA (Parte 1): Uma ronda pelas praças de Torres

5 de março de 2014

 

Por Guile Rocha

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A Praça í‰ Nossa é  um programa de televisão humorí­stico brasileiro, atualmente transmitido pelo canal SBT. Criado por Manuel de Nóbrega ainda nos anos 50, reunia um cenário simples e ao mesmo tempo muito prático: um banco de uma praça, por onde iam passando vários personagens. Mas indo muito além deste popular programa de televisão, voltemos ao sentido primordial das praças, concebido desde as ígoras da antiguidade grega: a materialização de certa ideia de público, um espaço de convivência e recreação entre os cidadãos.

Aqui para Torres – no começo de fevereiro – o vereador Marcos Klassen (PMDB) pronunciou-se na Câmara Municipal em relação a situação de algumas praças do nosso municí­pio. Peço a prefeita que dê uma atenção maior as praças de Torres, que estão precisando com urgência de manutenção. Algumas estão em total abandono, podendo causar inclusive algum acidente as crianças que a utilizam, disse o vereador. O jornal A FOLHA decidiu, então, fazer uma ronda pelas principais praças de nossa cidade para conferir em que situação elas se encontravam.

 

 

Praça dos Escoteiros quase abandonada

 

 

Equipamentos da Praça dos Escoteiros precisavam ser trocados, e grama precisava ser cortada

 

Começo a ronda no final de tarde de 05 de fevereiro, na pequena Praça dos Escoteiros. Localizada em frente a Lagoa do Violão, a praça possuí­ um visual fantástico, principalmente no final de tarde, quando o sol se píµe na serra, recortando-se em várias cores para o vivente que observa a ação no local. Uma imagem bonita e que “ se o dia não for ventoso – acaba refletindo na Lagoa do Violão como um espelho.

Mas para além da beleza lúdica e natural deste espaço, os equipamentos da Praça dos Escoteiros estão em estado lastimável: um dos balanços está quebrado, e os que sobram estão tomados pela ferrugem, sendo perigosos para a criança que decidir se aventurar. A casinha de madeira, feita para os pequenos escalarem, já está meio podre, algumas madeiras faltando. Os bancos também estão quase todos quebrados, e a manutenção do gramado estava atrasada.Voltei ao local depois de duas semana e percebi que a situação de abandono continuava, sendo que a única diferença marcante era a grama ainda mais alta.

Morador de Caxias do Sul e veranista de Torres, me encontrei com Marcelo Gracioli, 41 anos, quando ele estava se aquecendo na praça dos Escoteiros para sua corrida. Seria interessante que houvessem alguns equipamentos para ginástica e alongamentos no local. Acho que tem tudo a ver com a Lagoa do Violão, que é um espaço bem utilizado para caminhadas, corridas “ e tem até caiaques para quem quiser fazer uma atividade na água.  

 

Praça da Cal: melhor do que já esteve

 

 

Romeu Silveira na Praça da Cal

 

Seguindo meu caminho, chego na Praça Nossa Senhora dos Navegantes, na Praia da Cal.   Num dos lados da praça, percebo que espanhol e português se misturam, no campo cercado de areia da praça:   jovens (provavelmente) argentinos e brasileiros estão jogando um futebol disputado, mantendo a tradicional rivalidade entre os paí­ses no esporte . No lado oposto da praça, os bancos estão dispostos ao redor de um (relativamente) bem conservado pergolado, onde pessoas tomam chimarrão ou simplesmente descansam. Estes bancos estão em bom estado, e parte da estrutura deles serve como anúncios publicitários – divulgando nomes e logos de empresas tradicionais de nossa cidade. A imagem da ˜santa™ que dá nome a praça, Nossa Senhora dos Navegantes, está inteira e bela em seu pedestal, rodeado de oferendas.

A praça é linda, tem o visual da beira da Praia da Cal, com o Morro das Furnas (ou Torre do Meio ou Morro da Guarita, você escolhe o nome) í  sua direita e o morro do Farol í  esquerda. Ela passou muitos anos em quase abandono   antes de sua reforma. Lembrei-me de anos passados, da imagem de Nossa Senhora dos Navegantes ˜decapitada™ “ ação dos vândalos mais inúteis e babacas possí­veis. Mas dissipando esta triste recordação de minha memória, fiquei feliz de ver o estado da Praça da Cal no momento.

E durante o final de tarde, muita gente estava fazendo o que se espera que faça em uma praça pública: ocupando-a. Converso com uma destas pessoas, Romeu da Silva Silveira, que é torrense de nascença e tem 58 anos. Além disso, Romeu foi sempre morador das redondezas, então é um cidadão com conhecimento de causa quando o assunto é a praça Nossa Senhora dos Navegantes. Ele lembra que, por mais que a praça esteja bonita e relativamente bem conservada, deveria estar melhor na questão da manutenção, deveriam cortar a grama que está alta. Outra demanda seria instalar uma pracinha com brinquedos para as crianças. Já a cancha de bocha quase ninguém usa, o pessoal prefere jogar sua bocha na beira da praia, fazer sua própria cancha na areia, ressalta.

Voltei na Praça da Cal umas duas semana depois, pela noite, e seu Romeu ficaria contente em saber que a grama foi cortada. Dando uma caminhada, percebi que, recentemente, algumas lixeiras em formato de balão foram espalhadas ao redor da praça: um ponto positivo. Por outro lado “ embora não se trate de um local muito escuro – noto que o espaço não possui sequer um poste de luz, e que além disso há rombos na cerca do campo de futebol. E uma chuvarada no dia anterior resultara em alguns pontos onde o gramado formava poças.

 

Praça do Curtume precisando de melhorias

 

Praça do Curtume está em mal estado de conservação, mas tem boa utilização pelos moradores

 

Lembro quando, em 2011, fiz uma matéria sobre a então recém finalizada Praça do Curtume, ao lado da Escola Quartiero (Av. Independência). O espaço era um lodaçal í  época, mas foi aterrado e tornou-se num bonito espaço público. Foram os próprios moradores do bairro que colocaram mãos í  obra para terminar o trabalho da praça “ enquanto a prefeitura cedia o material.  

Passados cerca de 2 anos e meio, voltei a praça novamente. No parquinho infantil, os balanços que haviam não estão mais lá:  há apenas o seu antigo suporte e o vazio dos brinquedos, que foram arrancados. Uma das gangorras também havia sido arrancada, e estava atirada na parte de fora do playground cercado da praça.

O campo de futebol da Praça do Curtume também está sendo utilizado: várias crianças, dois adolescentes e um adulto jogam uma partida. As goleiras não tem rede para segurar a bola do gol, e como o campo não está cercado, a bola eventualmente corre até o meio da rua “ o que pode ser um risco no caso de algum carro passar.

A praça é ótima para a comunidade, que se reúne aqui para tomar chimarrão, conversar, jogar futebol. Mas precisam reparar algumas coisas, concertar os bancos e brinquedos quebrados, achar uma solução para os dias de chuvas, que fazem o playground alagar e enchem de poças o campo de futebol.  Ao menos a grama foi recém cortada, o que e bom me contam as moradoras do bairro, Franciele e Jéssica, de respectivamente 24 e 19 anos. Volto í  praça pela noite, e percebo que a iluminação do local é boa, os postes estão acessos.

 

A Praça Getúlio Vargas após a revitalização

 

Na praça Getúlio Vargas: equipamentos precisando de pintura e cancha de bocha tomada pela grama

 

Alguns anos atrás, quando foi revitalizada a Praça Getúlio Vargas (em frente a igreja Santa Luzia), o plano paisagí­stico deste espaço público acabou tornando-se alvo de uma polêmica, em decorrência do corte de várias árvores “ em sua maioria da espécie pinus (pinheros). A justificativa da administração municipal “ na época em que João Alberto ainda era o prefeito de Torres “ estava no fato de que as árvores em excesso tornavam a praça um local inseguro, e onde pouco sol entrava. Em contrapartida, Ipês, Jacarandás, Bolão de Ouro, Palmeiras e algumas árvores frutí­feras foram plantadas.

E a pessoa que compara a Praça Getúlio Vargas de hoje com a de 3 anos atrás provavelmente notará que o plano paisagí­stico contribuiu para o embelezamento da praça, e o fato de não haver uma densa floresta de pinus aumentou a sensação de segurança. Quanto a estrutura, a praça “ que é administrada pela prefeitura –  conta com um playground ainda em bom estado, onde uma criança se divertia acompanhada dos pais. Há também um espaço para exercí­cios e alongamentos, com equipamentos de ferro “ que estão precisando de uma boa pintura. A cancha de bocha “ apesar de ser recente – está completamente abandonada, a grama toma conta do espaço. Fiquei pensando com meus botíµes que, em vista da pouca utilização desta cancha, o espaço poderia muito bem virar uma horta comunitária, onde o pessoal plantarias hortaliças e temperos “ manjericão, tomates, cebolinha, hortelã, etc. “ que seriam de usufruto dos torrenses e serviriam de incentivo para a produção de alimentos ecológicos em espaços públicos. Mas isso é só uma idéia.

No lado leste da Praça Getúlio Vargas, enquanto a luz do sol vai dando seu adeus, a missa de quarta-feira leva os fieis para a igreja. Há carros da autoescola realizando o treinamento de novos motoristas no local, e lembro da reivindicação de Iarandu Cardoso – e outros moradores do entorno –   que em junho do ano passado pediram a prefeita Ní­lvia o fim desta atividade na margem da praça. "Devido ao risco de acidentes e inconvenientes para o trânsito de automóveis e pessoas perto do hospital e da escola Jorge Lacerda, pensamos que as aulas práticas da autoescola deveriam acontecer em um outro lugar, mais tranquilo", informava Iarandu na época. Contudo, as atividades da autoescola continuam ocorrendo junto a praça Getúlio Vargas.    

 

 

Andarilhos de Torres: Os ˜inquilinos™ da praça

 

 

No começo da noite, me encontro com duas figuras sentadas num banco da praça Getúlio Vargas, com o rádio ligado em bom volume, ouvindo rock no rádio: Alex Sandro e Alessandro. Eles são andarilhos aqui de Torres, e costumam utilizar a praça para dormir. Estamos dormindo de boa na praça, não nos incomodam muito, a delegacia nos deixa em paz. De vez em quando nos pedem para sair, daí­ acampamos na praia também, ou em outra praça. Dormimos onde podemos, estamos sempre nos movendo como ciganos. Para ganhar um dinheiro catamos as latinhas, vendemos santinhos, cuidamos dos carros do pessoal que sai da igreja, diz Alex Sandro, que tem 35 anos. Ele revela que há um grupo de 7 andarilhos que utilizam a Getúlio Vargas como casa, eventualmente.

Já Alessandro é velho conhecido. Em janeiro do ano passado, realizei matéria com os moradores de rua que acampavam na mesma praça Getúlio Vargas, e lá estava ele, acompanhado da então namorada Sheila. Após serem ˜despejados™ da praça, Alessandro e Sheila continuaram vivendo pelas ruas de Torres, cada dia dormindo num lugar público diferente. No final de março de 2013, o casal teve uma briga na qual Sheila acabou esfaqueando Alessandro, que ficou gravemente ferido. Recuperado, ele acabou fazendo as pazes com namorada ˜meio homicida™, e em junho do ano passado presenciei um beijo de cinema “ na chuva e com direito a inclinadinha “ entre os dois, no calçadão da Praia Grande. Prova de que amor e ódio andam lado a lado mesmo.

 Desde então, não tinha mais tido qualquer notí­cia do casal, até que neste nosso novo encontro na praça Getúlio Vargas, Alessandro confidenciou o fim do namoro. Ela perdia o controle, não dava para continuar. Além da facada ela tentou me agredir com uma tesoura, daí­ acabei de vez. Melhor ficar solteiro mesmo. Mudando de assunto, pergunto sobre a relação de Alessandro com as drogas. Ele balança a cabeça negativamente. Não uso nenhuma droga além da pinga. Pode ser cachaça pura ou com Coca-Cola, essa não falta “ mas maconha, crack, pó, essas coisas a gente evita, finaliza Alessandro, que é nascido em Porto Alegre,   tem 33 anos e é da descendência dos í­ndios Guarani.

 

 

 

   

 


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