A reeleição de Cristina Kirchner e as incertezas na Argentina

1 de novembro de 2011

 

Por Guilherme Rocha*        

 

Nove anos seguidos de altas taxas de crescimento econí´mico (2003-2011), a criação de 3,5 milhíµes de postos de trabalho (com carteira assinada) e a queda nos í­ndices de pobreza, estão entre as principais razíµes que explicam a reeleição da presidente Cristina Kirchner para mais quatro anos de mandato. Baseado no mesmo caráter populista de inclusão social  que foi sucesso no Brasil com Lula, ela obteve uma vitória folgada ainda no primeiro turno, com mais de 53% dos votos. O opositor que chegou mais próximo foi Hermes Binner, governador da proví­ncia de Santa Fé, que obteve 17%. Aos 58 anos, Cristina Fernandes Kirchner, é a primeira mulher reeleita presidente na América Latina.

   

Da crise ao crescimento social

   

Paí­s de cerca de quarenta milhíµes de habitantes, a Argentina viveu uma crise polí­tica e econí´mica inédita em 2001-2002. O então presidente Nestor Kirchner, marido da presidente, assumiu em 2003 coincidindo, segundo opositores, com o aumento das exportaçíµes, principalmente, de soja í  China, gerando maiores recursos para o caixa do paí­s.

 

A popularidade de Cristina disparou nas pesquisas logo após a morte do marido. Porém, medidas de forte impacto social também influenciaram na vitória. As principais iniciativas do governo foram dirigidas í  redução da pobreza e ao aumento do consumo, como a introdução de um beneficio de 270 pesos por cada filho entregue í s famí­lias de baixa renda,  a partir da presença na escola e da vacinação da criança -, o acesso ao crédito para trabalhadores sem carteira assinada e a distribuição de aposentadorias para o setor informal que não contribuiu com a previdência social. Esta medida foi implementada a partir da polêmica estatização dos fundos de pensão e de aposentadoria, em 2008.

   

Opositores questionam

   

Os opositores de Cristina Kirchner afirmam que os eleitores deram prioridade a questíµes como o aumento do poder de consumo na Argentina, esquecendo-se dos questionamentos sobre corrupção e falta de respeito í s instituiçíµes. De acordo com projeçíµes locais, a partir de dados oficiais, a venda de automóveis subiu 47%, neste primeiro mandato da presidente (2007-2011). A venda de eletrodomésticos, entre outros bens de consumo, também disparou neste perí­odo. Mas são todos itens de consumo de curto prazo. A Argentina, historicamente, teve dificuldades de gerar créditos para a casa própria. E agora mais ainda" afirmou o ex-presidente do Banco Central, o deputado opositor Alfonso Prat-Gay (CC).

           

Criação exagerada de empregos públicos

   

O Instituto de Estudos da Realidade da América Latina (Ieral), da Fundação Mediterrânea, anunciou que na última meia década o Estado argentino criou 23,6% dos novos postos de trabalho. Essa proporção é bem superior ao crescimento da construção civil (4,7%) e da indústria (9,6%).

 

O crescimento coincide com os últimos anos de kirchnerismo(2003-2011), quando a proporção de argentinos com trabalho formal empregados pelo Estado chegou a 18,6%. Segundo o relatório do Ieral, entre 1994 e 2011, a população cresceu 19%, enquanto o funcionalismo público aumentou 350%. O número de empregos na atividade privada cresceu somente 71% no mesmo perí­odo.

   

Inflação alta e camuflada

   

A inflação é outro tema que preocupa os nossos hermanos. Estima-se que, em média, o salário real de um argentino seja de US$ 1,2 mil (cerca de R$ 2,1 mil) enquanto há quatro anos este salário era de US$ 698 (cerca de R$ 1,2 mil).   O Fundo Monetário Internacional foi bastante crí­tico a forma com a qual o governo de Cristina Kirchner mensura os í­ndicies de inflação. Há discrepâncias entre os números divulgados pelo governo e institutos privados.

 

O governo indica que a inflação seja de 10% anual, mas os especialistas econí´micos contradizem essa informação, e estimam, a partir dos dados oficiais das proví­ncias, que a inflação esteja em torno dos 25% por ano. No iní­cio do ano, uma garrafa de refrigerante, de 1,5 litro, custava 3,50 pesos (cerca de R$ 1,50). Na semana passada, no mesmo supermercado, custava 8,50 pesos (mais de R$ 3,50). O mesmo aumento excessivo ocorreu com uma série de outros produtos.

   

Controvérsias com a imprensa

 

A imprensa ainda acusa a gestão de Cristina Kirchner de tentar intimidar opositores e direcionar a publicidade oficial do governo para veí­culos de comunicação aliados, em detrimento dos demais. Cristina reage í s crí­ticas acusando a mí­dia de "golpista", e evita entrevistas coletivas a jornalistas.

 

   *com informaçíµes de BBC Brasil, Estadão e G1    

     


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