Deus nos livre que rodeiem a lagoa com uma avenida asfaltada, destinada a altas velocidades. Quando muito, só ruas tranqí¼ilas com pavimento adequado í natureza e alamedas para pedestres. Afastem dela os espigíµes. Salvam-na da poluição, dos esgotos, dos óleos e dos petróleos. Dêem-lhe vida: peixes, aves, biguás, capivaras como outrora
Hoje a Lagoa do Violão está incorporada ao espaço urbano não da forma como esperava Ruschel, apesar de algumas intervençíµes grotescas como o Ginásio da Lagoa (hoje felizmente removido). O passeio em volta dela, a iluminação, o início de uma despoluição (retirada do excesso de aguapés), a metade da rua que a circula com pavimento adequado (a outra parte é asfaltada), a construção de uma ponte funcional (embora com pouco cuidado arquitetí´nico), enfim, tivemos modificaçíµes boas e ruins.
Quase ao pé do monte estende-se, paralelamente ao mar, um lago de águas tranqí¼ilas e cercadas de altas ciperáceas; do outro lado, crescem matas em terreno plano. í€ direita vêem-se ainda areais puros e, por fim o horizonte, limitado pela grande cordilheira, cujo cimo forma um imenso planalto.
O fato é que após ser desprezada por muitos anos, a lagoa foi lembrada e começou a fazer parte da Torres Moderna e não apenas da Torres Antiga. Esta descrição acima foi extraída do livro de Saint-Hilaire que vislumbrou a Guarda de Torres em sua passagem no dia 4 de junho do ano de 1820. A lagoa estava descrita como integrante ativa da Torres Antiga.
Há mais ou menos 40 anos ao redor da lagoa só existia banhado, mosquito (ainda tem muito), um ou outro jacaré do papo amarelo remanescente e algumas árvores. Era a década de 70 e a cidade crescia em direção ao mar e ao rio Mampituba. Este recanto da cidade estava quase intacto, a mão do homem ainda não tinha modificado a sua aparência bucólica. Pelo que se sabe a Lagoa do Violão, antes apenas conhecida como Lagoa das Torres ou Lagoa da Vila, sofreu alteraçíµes no seu aspecto original quando por volta de 1940 foram secados os banhados próximos í Guarita pelo Serviço Nacional da Malária. Mais tarde recebeu novos contornos, desta vez pelo serviço de saneamento (D.N.O.S.). Esta última intervenção deu a ela este formato que lembra um violão.
Há também uma linda lenda que conta o motivo deste formato. Diz a lenda que um loiro marinheiro português naufragou na costa torrense e se salvou boiando com auxílio de seu violão. Ocarapoti (Flor Campestre), índia filha do cacique o resgatou e levou para fazer parte da tribo dos carijós. Ocarapoti se apaixonou pelo português violeiro, chamado pela tribo de Puiara (Dono do som), e passou a viver com ele. Mas a tribo tinha seus costumes, e o violeiro deveria ser sacrificado e comido em uma cerimí´nia, pois todos acreditavam que com isso absorveriam na alma os seus atributos musicais. Após a cerimí´nia Ocarapoti, ao chorar a morte de seu amado Puiara, derramou tantas lágrimas que encheu uma depressão que formou a lagoa. Lembrada pelos torrenses, Ocarapoti, hoje repousa em forma de uma estátua na margem sudeste da lagoa, na praça dos escoteiros. Um pouco mal cuidada, assim como a praça (ou as praças da cidade), mas em pé.
Esta lenda é apenas uma de tantas outras que temos na cidade e que poderiam ser mais bem exploradas turisticamente. A lenda do homúnculo da guarita, a lenda do sequilho, a lenda do tesouro da guarita, a lenda das furnas do diamante, a lenda da fada da guarita, entre outras que poderiam render alguns atrativos a mais para a cidade, oferecendo mais opçíµes de passeios e permanência dos turistas. Assim como a Lagoa possui esta estátua, que aguça a curiosidade dos turistas e moradores, outros lugares poderiam, com base nas lendas, serem melhor estruturados e até preparados para abrigar novos monumentos em prol da cultura e do turismo.
Nas noites calmosas, permitam que os sapos pranteiem Ocarapoti e seu amado Puiara. Devolvam-na í natureza, quanto melhor possível. Não para nós, mas para todas as geraçíµes.
í‰ também o meu desejo.
Roni Dalpiaz


