Artigo Roni Dalpiaz_A LENDA DA LAGOA

4 de junho de 2012

 

Deus nos livre que rodeiem a lagoa com uma avenida asfaltada, destinada a altas velocidades. Quando muito, só ruas tranqí¼ilas com pavimento adequado í  natureza e alamedas para pedestres. Afastem dela os espigíµes. Salvam-na da poluição, dos esgotos, dos óleos e dos petróleos. Dêem-lhe vida: peixes, aves, biguás, capivaras como outrora

Hoje a Lagoa do Violão está incorporada ao espaço urbano não da forma como esperava Ruschel, apesar de algumas intervençíµes grotescas como o Ginásio da Lagoa (hoje felizmente removido). O passeio em volta dela, a iluminação, o iní­cio de uma despoluição (retirada do excesso de aguapés), a metade da rua que a circula com pavimento adequado (a outra parte é asfaltada), a construção de uma ponte funcional (embora com pouco cuidado arquitetí´nico), enfim, tivemos modificaçíµes boas e ruins.

Quase ao pé do monte estende-se, paralelamente ao mar, um lago de águas tranqí¼ilas e cercadas de altas ciperáceas; do outro lado, crescem matas em terreno plano. í€ direita vêem-se ainda areais puros e, por fim o horizonte, limitado pela grande cordilheira, cujo cimo forma um imenso planalto.

O fato é que após ser desprezada por muitos anos, a lagoa foi lembrada e começou a fazer parte da Torres Moderna e não apenas da Torres Antiga. Esta descrição acima foi extraí­da do livro de Saint-Hilaire que vislumbrou a Guarda de Torres em sua passagem no dia 4 de junho do ano de 1820. A lagoa estava descrita como integrante ativa da Torres Antiga.

Há mais ou menos 40 anos ao redor da lagoa só existia banhado, mosquito (ainda tem muito), um ou outro jacaré do papo amarelo remanescente e algumas árvores. Era a década de 70 e a cidade crescia em direção ao mar e ao rio Mampituba. Este recanto da cidade estava quase intacto, a mão do homem ainda não tinha modificado a sua aparência bucólica. Pelo que se sabe a Lagoa do Violão, antes apenas conhecida como Lagoa das Torres ou Lagoa da Vila, sofreu alteraçíµes no seu aspecto original quando por volta de 1940 foram secados os banhados próximos í  Guarita pelo Serviço Nacional da Malária. Mais tarde recebeu novos contornos, desta vez pelo serviço de saneamento (D.N.O.S.). Esta última intervenção deu a ela este formato que lembra um violão.

Há também uma linda lenda que conta o motivo deste formato. Diz a lenda que um loiro marinheiro português naufragou na costa torrense e se salvou boiando com auxí­lio de seu violão. Ocarapoti (Flor Campestre), í­ndia filha do cacique o resgatou e levou para fazer parte da tribo dos carijós. Ocarapoti se apaixonou pelo português violeiro, chamado pela tribo de Puiara (Dono do som), e passou a viver com ele. Mas a tribo tinha seus costumes, e o violeiro deveria ser sacrificado e comido em uma cerimí´nia, pois todos acreditavam que com isso absorveriam na alma os seus atributos musicais. Após a cerimí´nia Ocarapoti, ao chorar a morte de seu amado Puiara, derramou tantas lágrimas que encheu uma depressão que formou a lagoa. Lembrada pelos torrenses, Ocarapoti, hoje repousa em forma de uma estátua na margem sudeste da lagoa, na praça dos escoteiros. Um pouco mal cuidada, assim como a praça (ou as praças da cidade), mas em pé.

Esta lenda é apenas uma de tantas outras que temos na cidade e que poderiam ser mais bem exploradas turisticamente. A lenda do homúnculo da guarita, a lenda do sequilho, a lenda do tesouro da guarita, a lenda das furnas do diamante, a lenda da fada da guarita, entre outras que poderiam render alguns atrativos a mais para a cidade, oferecendo mais opçíµes de passeios e permanência dos turistas. Assim como a Lagoa possui esta estátua, que aguça a curiosidade dos turistas e moradores, outros lugares poderiam, com base nas lendas, serem melhor estruturados e até preparados para abrigar novos monumentos em prol da cultura e do turismo.

Nas noites calmosas, permitam que os sapos pranteiem Ocarapoti e seu amado Puiara. Devolvam-na í  natureza, quanto melhor possí­vel. Não para nós, mas para todas as geraçíµes.

í‰ também o meu desejo.

Roni Dalpiaz

Site: www.ronidalpiaz.com.br                             e-mail: ronidalpiaz@gmail.com

Referências

RUSCHEL, Ruy Ruben. Torres tem história. Porto Alegre: EST, 2004.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Coleção O Brasil visto por estrangeiros. Brasí­lia: Editora do Senado, 2002.

 

 


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