Maria Helena Tomé Gonçalves
Manhã cedinho na ida para o trabalho na fábrica de sorvetes, dobro a esquina para a nossa rua no bairro e me surpreendo com a faixa. Uma faixa modesta, dependurada num lugar bem visível dizendo: Bem vindos í Rua dos Buracos! Vergonha!™. De imediato pensei: Que bom, há mais gente pensando como eu!. Durante o dia, por várias vezes passei por ali e sempre me regozijei com a revolta de outros moradores diante da esburacada rua. Minha satisfação durou apenas dois dias e a faixinha… sumiu! Ninguém sabe, ninguém viu! E a faixa? Sumiu! Fiquei me perguntando se as pessoas da Administração Municipal a quem a faixa, certamente, se dirigia em protesto, tiveram tempo de ler a mensagem. Ou foi alguém da própria Administração que, desconhecendo ou ignorando nosso direito í livre expressão do pensamento, como aquele Super Secretário de Super Poderes que impediu nosso protesto com o Luto na Praça XV, achou-se também no direito, ou no dever da proteção ao chefe, de retirar a faixa e esconder sob a areia o singelo grito de revolta.
Amar aquilo que é nosso como dito na semana passada, também implica reclamar daquilo que cabe ao Poder Público fazer, com o dinheiro arrecadado dos nossos bolsos, para preservar nosso bem estar. E que não faz. As ruas do Bairro IGRA Norte estão um verdadeiro caos. Aliás, a grande maioria das ruas de Torres, estão também um verdadeiro caos. Há anos esperamos pela instalação da canalização de esgotos no bairro e há anos vivemos mergulhados na buraqueira. São tantos os buracos de todas as ruas que está se tornando impossível transitar. E não adianta reclamar. Entra governo, sai governo e o descaso continua o mesmo.
Além disso, há todo um seguimento do bairro cujo acesso se faz tão somente por uma única rua estreita que passa ao lado da fábrica de sorvetes. Esse bolsão de residências está localizado entre a beira do rio e o valão, não tendo a oeste da rua nenhuma comunicação com as demais e a leste várias ruas que acabam sem comunicação com a avenida que segue junto ao valão até o rio. Há mais de vinte anos temos pedido aos diversos prefeitos em exercício a abertura de uma rua que liberte aquele trecho do bairro do risco de não ter como sair dali caso o rio e o valão encham repentinamente. Tem sido inútil. Com o governo atual nem tentamos falar. Há meses a Associação de Moradores do Bairro tem tentado junto ao Ministério Público manter aberta uma pequena servidão que serve aos pedestres para encurtar caminho (que o proprietário resolveu fechar). E para sair correndo em caso de catástrofe. Mas isso também está sendo difícil conseguir. No Brasil, o direito de uns í propriedade, sobrepíµe-se ao direito í vida, í dignidade e ao ir e vir de outros previsto na Constituição Federal. Vale lembrar o triste e deplorável caso do bairro Pinheirinhos em São Paulo, onde mais de 1.500 famílias foram banidas e tiveram seus casebres arrasados pela Polícia a mando do Poder Judiciário a fim de preservar-se o direito í propriedade obtido por bancos e credores de uma massa falida, e desrespeitou-se o sagrado direito do homem comum, direito í dignidade de morar, de ir e vir, de ser um cidadão brasileiro. Estamos muito mal de homens e mulheres em exercício nos Três Poderes da República. As leis são feitas, muitas vezes bem mal feitas pelo Legislativo, não são devidamente respeitadas nem executadas pelo Executivo, menos ainda pelo nosso, muitas vezes, equivocado Judiciário e dá no que dá. A Constituição Federal é desrespeitada por leizinhas menores que defendem apenas alguns e o direito maior do ser humano menos privilegiado que se dane.
Voltando ao nosso Bairro IGRA Norte, qual a solução para a buraqueira das ruas, para a demora na instalação da rede de esgoto, para a falta de ruas de saída do Bairro? Há catástrofes previamente anunciadas, basta reconhecer os sinais. Depois não adianta chorar pelo leite derramado e por vidas ceifadas pela imprevisibilidade. E haja pneu de carro, haja paciência, haja força de vontade!


