Por Guilherme Rocha*
Um estudo divulgado recentemente sobre o comportamento e hábito das mulheres em países desenvolvidos e em desenvolvimento revelou que a índia abriga a maior quantidade de mulheres estressadas no mundo. As brasileiras aparecem em quarto lugar. A pesquisa destacou que a mulher dos países em desenvolvimento vem assumindo papéis mais importantes no mercado de trabalho sem, no entanto, deixar de lado as obrigaçíµes familiares. E isso contribui para os altos níveis de stress.
Elaborada pela consultoria Nielsen, o estudo entrevistou 6500 mulheres de 21 países emergentes e desenvolvidos, entre os meses de fevereiro e abril deste ano. No Brasil, foram ouvidas 318 mulheres. Intitulado Estudo das Mulheres do Futuro, o levantamento apontou que 87% das indianas se sentem estressadas, sendo que dessas, 82% reclamaram que não têm tempo para relaxar. No Brasil, cerca de 70% das mulheres se consideram estressadas na maior parte do dia. No outro extremo da classificação ficaram as suecas e as malaias, ambas com 44% das mulheres afirmando estarem estressadas boas partes do tempo.
Ana Lúcia Fettoli tem uma rotina parecida com a de muitas jovens mulheres brasileiras contemporâneas. Com 24 anos, natural de Santo í‚ngelo, ela batalha para cursar universidade de Direito ao mesmo tempo em que estagia num escritório de advocacia e aluga apartamento em Porto Alegre. "Não dá para mentir, tem vezes que me sinto muito estressada mesmo. Sinto que não tenho tempo para nada, passo quase todo dia ou estudando ou no trabalho, e no final das contas sempre se leva algum trabalho extra para casa, ou tenho que estudar para alguma prova". Ana Lúcia reclama da falta de tempo para o lazer, os afazeres de sua jornada dupla ocupam tanto do seu dia que ela se acostumou em dormir menos horas do que deveria. "Tem dias que durmo só 4 horas até resolver tudo o que tenho para fazer, mas já virou rotina, me adequei a isso. E eu acho que, no final das contas, tudo isso vale a pena, pois quando eu me formar já estarei preparada para o mercado de trabalho e para a vida, além de poder dar uma satisfação para os meus pais que hoje me ajudam muito", finalizou a estudante.
Emprego e família
Entre as hipóteses que buscam explicar os motivos do stress está uma teoria levantada pelo jornal The Economic Times, da índia, indicando que a cultura e a sociedade confusa de países subdesenvolvidos acaba propiciando o stress na mulher. Segundo a publicação, na índia as mulheres estariam estressadas porque além de serem pressionadas a ter um emprego moderno, elas teriam ainda de se conformar com os padríµes culturais tradicionalistas do país. As empresas e locais de trabalho no país se desenvolveram, mas a sociedade permaneceu estática, o que não ajuda í evolução do papel da mulher contemporânea e colabora para o aumento do estresse a ser suportado por elas. E para muitas brasileiras, o dilema não é diferente.
Rosângela dos Santos trabalha como caixa no Nacional Iguatemi, em Porto Alegre. Aos 48 anos, ela é divorciada e vive com três filhos em uma casa alugada de dois dormitórios "Tenho também duas meninas mais velhas, que já têm suas próprias vidas. Elas já saíram de casa, estão casadas e com filhos", indica a caixa. Ela não se considera uma mulher estressada, mas admite que leva uma vida difícil: pega dois í´nibus até chegar ao trabalho, o filho mais novo tem problemas de saúde, e o dinheiro no final do mês sempre é curto para as contas cada vez maiores. "Hoje em dia é um inferno pagar aluguel numa cidade grande, ainda mais com um salário de caixa. Mas a gente faz o que pode para continuar levando a vida, e graças a Deus que tenho saúde, não me deixo abater". Rosângela me relata a história de sua irmã, que há 10 anos saiu de Porto Alegre para viver em Glorinha, cidade menor, e lá conseguiu abrir uma loja de vestuário e hoje tem uma situação financeira mais confortável. "Na verdade o grande problema é sempre o dinheiro. Eu gostaria de sair de Porto Alegre, fugir dessa correria, mas tenho criança pequena em casa, daí fica complicado", finaliza a caixa.
A pesquisa indica também que, em 17 dos 21 países analisados, as mulheres confiam na TV para obter informaçíµes sobre produtos e marcas mais do que qualquer outro meio. Três quartos das mulheres de países emergentes dizem que computadores e telefones celulares mudaram suas vidas para melhor. Entre as entrevistadas de países desenvolvidos esta proporção cai para pouco mais da metade. Além disso, as mulheres estão mais ligadas nas redes sociais, se envolvendo 28% a mais que os homens.
Segundo o estudo, as mulheres de países em desenvolvimento usam o que sobra de seu dinheiro em roupas, saúde e produtos de beleza, alimentos e na educação dos filhos. Já as mulheres de países desenvolvidos dedicam esse dinheiro para viagens, economias e para o pagamento de dívidas. De acordo com Susan Whiting, vice-presidente da Nielsen, as mulheres vêm aumentando seu poder aquisitivo, e com isso, ganham mais controle e influência sobre as decisíµes domésticas. "Em todo o mundo as mulheres estão chegando a altos níveis educacionais, entrando no mercado de trabalho e contribuindo cada vez mais com o orçamento doméstico. Como resultado, as mulheres de hoje e de amanhã são os principais consumidores em potencial".
*Com informaçíµes de BBC Brasil, CNN, Terra e Veja


