Craques da Copa NO DIVí

30 de junho de 2014

ídolos dentro de campo, Cristiano Ronaldo e Luisito Suárez têm perfis antagí´nicos fora dele.

 

Por Márcio Telles*

________________

 

Cristiano Ronaldo:  mais humilde do que pensam?

 

FOTO: Cristiano Ronaldo com o penteado em homenagem í  menino espanhol enfermo  (Reuters/Mauro Horita)

 

                      Na noite do último domingo, Cristiano Ronaldo entrou em campo para o jogo de vida-ou-morte de sua seleção contra os Estados Unidos, exibindo marcas assimétricas em seu penteado. O estilo zig-zag era uma homenagem a Erik Ortiz Cruz, menino espanhol que passou por uma complicada cirurgia para retirada de um tumor no cérebro, cirurgia paga pelo atual número 1 do mundo. O sonho de qualquer relaçíµes públicas só foi divulgado porque a famí­lia do garoto quis – Cristiano não procurou nenhum holofote.

                      Na final da Liga dos Campeíµes, em maio, o português – que jogou machucado – correu em direção í  arquibancada ao final do jogo e atirou-se nos braços de seu irmão Hugo Alveiro. Como seu falecido pai, Hugo é alcoólatra. Os dois fizeram um trato: caso Cristiano ganhasse a Liga dos Campeíµes, Hugo pararia de beber para sempre. Depois do histórico 4×1 de seu time sobre o rival, Cristiano Ronaldo cobrou seu irmão: "Eu cumpri minha parte, agora é a sua vez", disse. De novo, a história só vazou por causa dos ensandecidos jornalistas europeus que correram atrás do "amigo" que Cristiano abraçara no Estádio da Luz.

                      A mesma tendinite no joelho esquerdo que fez Cristiano jogar abaixo do esperado na reta final da Liga dos Campeíµes travou o seu jogo na Copa do Mundo. E sendo Portugal Cristiano Ronaldo mais dez, não admira que os gajos tenham bailado logo na primeira fase. O médico da seleção portuguesa chegou a alertar o craque: se continuasse a entrar em campo, poderia abreviar sua carreira. Cristiano jogou os três jogos, condizente com sua filosofia. "Futebol é entretenimento", disse certa vez. "Sou um showman, alguém que se preocupa em divertir quem paga um ingresso". Cristiano Ronaldo não jogou para ele; jogou para o torcedor que desembolsou uma pequena fortuna para assisti-lo em Salvador, em Manaus e em Brasí­lia.

                      Apesar de tudo, o craque português é tido, sobretudo por aqueles que não o acompanham, como individualista. O retrato que se faz de Cristiano Ronaldo é do narcisista que gosta de contemplar-se no telão do estádio, do craque que espera a bola no pé e do fominha que prefere perder a bola em jogada individual í  passá-la para o companheiro em melhor posição. De fato, o português pode ser acusado de cometer esses pecados, comum a todos boleiros. Por que quando cometidos por Cristiano chamam nossa atenção?

                      Talvez o nosso (estou me incluindo) problema com o craque português seja a inveja, o temor ou a desconfiança que temos com aqueles que têm tudo e sabem que têm. Rico, bonito e bem sucedido, o que parecem vantagens são as maiores desvantagens de Cristiano Ronaldo. Com seu bronzeado e seus multimilionários contratos de garoto-propaganda, ele parece estar acima de nós, reles mortais. O mecanismo de identificação com o í­dolo falha por causa disso. Mesmo quando Cristiano desce do pedestal para abraçar o irmão, soa como movimento ensaiado.

 

 

Luisito Suárez: cachorro louco

 

 

FOTO: Uma das muitas brincadeiras com Luí­s Suárez após a mordida (metro.uk)

 

                      No outro extremo do espectro do í­dolo está Luisito Suárez, craque em campo e tosco fora dele. Melhor jogador celeste da Copa e autor de dois belos gols contra a Inglaterra, Suárez perdeu mais de 30 jogos nos últimos quatro anos por problemas disciplinares, número que deve aumentar ainda mais. Mordedor contumaz, o uruguaio enfiou seus dentes no ombro do zagueiro italiano Chiellini, no jogo de terça contra a Itália, da mesma forma que mordiscou Bakkal enquanto atuava na Holanda, em 2010, e Ivanovic no Campeonato Inglês do ano passado. Acrescente-se a isso uma punição por racismo após agredir com chutes o francês Patrice Evra porque "ele era negro" (e negar-se a pedir desculpas). Nada, porém, parece manchar o prestí­gio do principal responsável pela classificação uruguaia í  semifinal na Copa da ífrica, quando enfiou a mão na bola dentro da área no último minuto da prorrogação. Tanto que, se seu clube atual “ o muito inglês Liverpool “ já está cansado com suas faltas disciplinares, o espanhol Barcelona acena com mais de 200 milhíµes de euros para levá-lo ao Camp Nou e assim formar o trio-maravilha com Neymar e Messi.  Para o torcedor que admira a garra uruguaia (entendida como um misto de futebol sofrí­vel, divididas violentas e jogos ganhos no abafa), Suárez é um herói. Será mesmo? O centroavante que é capaz de fazer gol de tudo que é jeito é também irascí­vel e preconceituoso, e constantemente justifica os meios pelos fins. Comportamentos que seriam reprovados em qualquer outro, mas que se tornam mí­ticos no camisa 9 uruguaio. Tanto que um comercial da TV do paí­s vizinho brinca com a competitividade exacerbada de Suárez colocando-o dentro de um escritório de seguros “ e aí­ sobram pontapés nos colegas, teclados atirados no chão e rasteiras no corredor.

Jamais se saberá, porém, se Suárez joga pelo time “ se sua expulsão contra Gana em 2010 foi um ato de autossacrifí­cio “ ou se joga para si “ se suas mordidas e insultos racistas são formas de levar vantagem sobre os adversários, desequilibrando-os para que o deixem mais í  vontade dentro área. De qualquer forma, sua "garra" parece mais um "jeitinho", que constantemente coloca a questão: vale tudo para vencer? Suárez e o técnico Felipão, que engessava atletas na véspera de partidas importantes para despistar o treinador adversário, dirá que sim. Pelo bem do futebol, eu tenho minhas dúvidas.

 

 

ANEDOTA DA COPA: ‘Ronaldinho Sacudo’

 

Ser craque em campo e motivo de idolatria não é tarefa fácil quando as expectativas não são cumpridas. Diz certa lenda que nos preparativos para a Copa da Alemanha, em 2006, a prefeitura de Chapecó (SC) encomendou a uma escultora de fama local a estátua de Ronaldinho Gaúcho, craque da seleção na época, obra emblemática por seu volume exacerbado de certas partes, que lhe rendeu o simpático apelido de "Ronaldinho Sacudo". O afago no ego do craque brasileiro não surtiu efeito. Quando a seleção foi eliminada para a França – no famoso jogo do meião de Roberto Carlos – o povo chapecoense saiu ensandecido í s ruas querendo justiça.

E qual outro sí­mbolo da pasmaceira brasileira que a estátua do í­dolo do momento que praticamente não entrou em campo? Eis que os chapecoenses amarraram a estátua de mais de sete metros, segundo o folclore fazendo o nó ao redor da origem do apelido da mesma, e arrastaram-na pelo centro da cidade. Expiaram suas frustraçíµes tacando fogo no Ronaldinho Sacudo. Não há relatos de que outras estátuas foram erguidas para as Copas seguintes em Chapecó.

*jornalista, pesquisador e Mestre em Comunicação pela UFRGS


Publicado em:







Veja Também





Links Patrocinados