De volta as raí­zes: Um dos maiores shapers do mundo vivendo em Torres

6 de março de 2012

 

Por Guilherme Rocha

 

 

Há 27 anos, Jorge Vicente fez as malas, pegou um avião e foi de Porto Alegre com destino ao Hawaii. No paraí­so do surf, tornou-se um dos maiores shapers do planeta, produzindo pranchas mágicas para í­cones do surf e campeíµes mundiais. Jorge Vicente ganhou o respeito da comunidade do surf, projetou foguetes mágicos que droparam as maiores ondas do planeta e alçou o Rio Grande do Sul ao topo na produção de pranchas. E depois de décadas, o shaper que conquistou o mundo volta para casa, e trabalha ao lado do filho dando continuidade a sua arte.

 

 

Jorge Vicente (direita) ao lado do filho, Gabriel Vicente

 

A prancha: da pesca pré-histórica aos shapes profissionais

 

A restrita bibliografia sobre o surf aponta o seu surgimento nas Ilhas Polinésias, três mil anos atrás, através dos povos nativos, em virtude de sua própria cultura de subsistência: a pesca. Constantemente tinham que se atirar ao mar com seus barcos feitos artesanalmente para pescar, e quando voltavam, deslizavam sobre as ondas para chegar mais rápido í  terra firme.

De lá para cá, o surf evoluiu muito. Bob Simons criou a primeira prancha de fibra em 1949. Em meados de 1950, as pranchas passaram a ser comercializadas e na década de 60 o surf tornou-se competitivo e profissionalizante. Em meio í  seriedade e interação com o mar que o se disseminava com o surf, as ilhas do Hawaii ganhavam destaque como paraí­so do esporte, tanto pela qualidade das ondas como pelo conhecimento agregado de surfistas e profissionais locais.

E se hoje existem tantos e tão geniais surfistas, desenhando o mar e as ondas com primazia, velocidade, força e coragem, muito se deve pela qualidade das pranchas pilotadas por estes aventureiros. Os shapers do Hawaii ganharam notoriedade internacional, e entre tantos casca-grossas projetando boards, podemos dizer com orgulho que uma das maiores feras no assunto é um gaúcho, que conquistou pelo seu trabalho de qualidade o respeito dos melhores surfistas do mundo.

 

 

Jorge Vicente: Shaper dos campeíµes

 

Jorge Vicente chegou ao Hawaii 27 anos atrás, sem grana nem trabalho, mas com muita coragem. Queria surfar, mas não um tinha board para isso. Foi por meio de um amigo que aprendeu como shapear uma prancha, arrumou um trabalho e, de quebra, descobriu que tinha muito talento para a coisa. Nunca mais parou. Já produzi mais de nove mil pranchas, a maioria feita í  mão. E esse é um numero honesto, não é propaganda enganosa, afirma Jorge.

Com seu tato natural para produzir os melhores boards para cada ocasião, surfista e tipo de onda, Jorge Vicente construiu uma carreira brilhante no Hawaii, e com muito foco e dedicação tornou-se num dos nomes mais requisitados na fabricação de foguetes mágicos aos grandes í­cones do surf mundial, que se tornaram antes amigos de Jorge Vicente do que clientes. Fiz pranchas que o Derek Ho e o Sunny Garcia usaram nas conquistas dos mundiais, e também para o Danilo Couto, que foi campeão do XXL Billabong no último ano, surfando a maior onda do mundo, em Jaws (Hawaii). Também fiz gunzeiras para outros casca-grossas como Pancho Sullivan, Sylvio Mancusi, Fabio Gouveia e Rodrigo Rezende. O grande Mark Foo dropou muitas gigantes com meus boards. í‰ um grande orgulho para mim e também uma grande responsabilidade, pois a prancha tem que ser mágica, perfeita para que os campeíµes dropem as morras mais gigantes com estabilidade, na boa, analisa o shaper.

 

 

Respeito no Hawaii e famí­lia

 

Enquanto vivia no playground do surf mundial, Jorge Baixo (como é conhecido pelos amigos da velha guarda) conquistou um espaço destacado numa das comunidades mais fechadas do planeta, onde é notória a repulsa dos surfistas locais (dentro e fora d™água) aos milhares de gringos que superpovoam as ondas havaianas.   Conquistei um nome no Hawaii, o que é quase impossí­vel para alguém chegando de fora. O localismo lá é grande, mas mesmo assim me fiz meu nome por lá. No Hawaii aprendi a viver, dominei minha profissão e me tornei um homem sem medo dos desafios

Nas ilhas havaianas Jorge Vicente construiu uma famí­lia: casou-se, foi padrasto e tutor no surf do big rider Pancho Sullivan, e teve dois filhos, que já mostram a coragem e ousadia do pai nas gigantes morras do Hawaii Meus filhos Brendon (18) e Austin (16) são surfistas de ondas grandes, e já se destacam no cenário do surf por lá. São verdadeiros aliens, em transe no desafio de pegar as maiores ondas. í‰ uma adrenalina ver as crias pegando as morras, mas nesse esporte não dá para ter medo, tem que estar focado nos objetivos e dropar o que vier indica Baixo.

Mas depois de décadas colocando pranchas mágicas nos pés dos maiores surfistas mundiais no Hawaii, Jorge Vicente decidiu que era tempo de voltar para casa, e retornou com mala e cuia para as terras gaúchas, e agora vive aqui em Torres. Estava com saudades da famí­lia, dos amigos. Já havia muitos anos que planejava esta viagem, e agora que estou aqui, espero ficar por no mí­nimo dois anos. Vou continuar produzindo, é claro, ao lado do meu filho Gabriel Vicente, que já é um dos melhores do Brasil no ramo e um grande orgulho para mim indicou o pai coruja.

 

 

A Water Glass é uma das maiores fabricantes de pranchas do paí­s

 

Talento de pai para filho

 

Shaper desde 2000, Gabriel Vicente tem no sangue a arte de shapear, e já construiu um nome de respeito no mercado brasileiro de pranchas. Tenho uma cobrança elevada comigo mesmo, trabalho com foco e dedicação, pois sei que carrego o nome de peso que meu pai consagrou. Sei que tenho de me puxar muito para chegar num ní­vel top mundial. E como diz o ditado, filho de peixe peixinho é: Gabriel Vicente instalou no Passo de Torres a Water Glass uma das mais qualificadas fabricantes de pranchas do paí­s, que conta com o design diferenciado do shaper como fórmula do sucesso A fábrica pode produzir uma grande quantidade de pranchas, e somos especializados principalmente na fabricação de longboards. Em ní­vel de shapes grandes, somos referências no paí­s, uma das únicas empresas realmente capacitadas para a atividade, ressalta Gabriel.

Gabriel Vicente segue os passos do pai também como engenheiro dos campeíµes do surf. O campeão latino-americano de Longboard, Martin Perez, e o campeão brasileiro de Stand-up Paddle, Luis Saraiva, pilotam os foguetes de Gabriel, que nos explica quais são os principais materiais utilizados na fabricação das suas pranchas. Usamos nos boards blocos de poliuretano de alta densidade, longarina (que dá estrutura e rigidez para a prancha) a base de uma madeira leve e flexí­vel. Após a formulação do design da prancha, é aplicada a resina, que serve para dar aderência í  fibra de vidro. O processo continua com a laminação do board em Epoxi, aliado com uma pigmentação especial, que dá um toque de exclusividade para a prancha.

Na fábrica de Gabriel Vicente, a demanda por pranchas é grandes, o que exigiu que o shaper se qualificasse. Atualmente, além de contar com uma equipe competente trabalhando ao seu lado, o Gabriel possui uma máquina CNC, que possibilita o corte e a replicação automática das pranchas. í‰ claro que o trabalho feito a mão tem um toque mágico, único, mas a máquina possibilita que dupliquemos os nossos melhores boards . Projeta-se o desenho dos shapes no software Auto CAD, com as medidas especí­ficas, caracterí­sticas e layout pré-definidos. Finalizada esta primeira etapa, o bloco bruto de poliuretano é colocado na máquina de controle numérico computadorizado (CNC), que faz automaticamente o corte das pranchas.

 

Tradição, experiência e o futuro

 

Ainda que o processo industrial tenha chegado também ao mercado das pranchas, Gabriel Vicente mantém a tradição como o pai, e continua valorizando a unicidade dos boards feitos a mão. Ainda que compreenda a mudança dos tempos, Jorge Vicente continua adepto do processo manual na fabricação de suas pranchas mágicas. Quase sempre fiz minhas pranchas na mão e teve uma época que era até contra as máquinas. Ainda continuo achando que um shape feito í  mão tem muito mais valor, tem um toque único, é feito pensando nas caracterí­sticas do surfista. Mas com a máquina é possí­vel reproduzir aqueles shapes mais mágicos que já fiz, o que é show de bola

O experiente shaper já fez com suas mãos hábeis milhares de pranchas, se especializando principalmente nas pranchas designadas para domar os maiores mares do planeta. Mas indica que o grande segredo continua sendo a simplicidade. Cada shape tem caracterí­sticas, tamanhos e designs diferentes, é claro, mas as mudanças são poucas, preservo a receita daquilo que está dando certo. Nas gunzeiras (pranchas para ondas grandes)o board tem que ter maior volume, para dropar as morras mais gigantes. Pode se trabalhar com uma rabeta Round Pin, para ter maior estabilidade nas ondas grandes, o V-botton com a longarina alta segura o board nos maiores mares do Hawaii, ao mesmo tempo que mantém a prancha solta.

De volta as terras sul – brasileiras, Jorge Baixo pretende, além seguir produzindo seus foguetes mágicos, passar adiante seu talento como shaper, ensinando sua arte para outros interessados.   Ser shaper é um prazer para mim, pois o surf é um estilo de vida lindo, voltado para a natureza e paz de espí­rito, em todos os sentidos. í‰ um grande esporte também, que nos ensina a respeitar os outros, saudar o mar pela sabedoria que ele nos transmite, e amar a vida acima de qualquer coisa. Fico feliz por ajudar a dar continuidade í s histórias do surf, e espero passar adiante ainda mais da profissão que aprendi, finaliza Jorge Vicente.

 

E Quem quiser encomendar uma das pranchas mágicas de Jorge Vicente, pode encontrar o contato do Jorge em sua página no Facebook, ou também através do site de seu filho, Gabriel Vicente (http://gvicente.com.br).

 


Publicado em:







Veja Também





Links Patrocinados