Maria Helena Tomé Gonçalves
Retornando de Caxias do Sul senti uma vontade imensa de rever paisagens dantes vistas por esse meu espírito aventureiro. Desci a Br 116 por Galópolis, contornei por Nova Petrópolis, depois Gramado, Canela e São Chico. Meus olhos iam perscrutando todos os cantinhos de cada parte do caminho, todos os perfis, toda as arquiteturas, toda a vitalidade de cada recanto de verde vivo, frondosas árvores, parreirais, as folhas mortas e amareladas caídas no chão desse final de inverno, todas as nuances de cores mil espalhadas pela paleta do Pintor Maior do Universo. Pintor, Escultor, Arquiteto, Artista Mor dessa coisa maravilhosa chamada Planeta Terra. E ia agradecendo por tudo, pela beleza de tudo que me estava sendo oportunizado apreciar.
Galópolis é uma vila italiana de Caxias do Sul que dá gosto visitar. Nova Petrópolis uma cidade mais alemã que italiana, de ruas muito limpas e floridas e de uma arquitetura digna de observação por todo aprendiz de arquiteto. Em seguida vem Gramado, a Pérola, o Brinco, a Jóia, tudo o que de bom se pode dizer sobre uma pequena e chiquérrima cidade serrana. As ruas são floridas praticamente o ano todo, a iluminação proveniente de postes de ferro com luminárias europeizadas conferem í s ruas um ar elegante e requintado, as lojas, os bares, os restaurantes, os hotéis, tudo é de bom gosto e classe, mas sem perder aquele ar romântico de cidadezinha do interior. Em seguida a irmã menor, Canela, que em nada perde para as anteriores e logo depois São Francisco de Paula onde há uma livraria de deixar doido de alegria qualquer vivente, mais ainda quem tem essa alma inquieta e criativa de artista. Livraria no modo de dizer, porque ela além de livros tem galeria de arte, museu, ateliê, lojinha de recuerdos, cafeteria e casa de chá e tem a sua dona e criadora, uma criatura doce e semprepresente que dá gosto conhecer. Mas em todas as cidadezinhas uma coisa em comum: a limpeza, a ordem, o cuidado, a apresentação, a sinalização turística, o zelo por tudo por parte de todos. Parecem casas de bonecas de vitrina de loja de Natal, onde tudo está no seu lugar, embora haja uma vida pulsante em tudo.
Voltei cansada e inquieta, mais inquieta que cansada. Rodei por algumas ruas dessa nossa tão amada Torres e chorei. Chorei de tristeza com o descaso, com o descuido, com a desorganização, com o desgoverno. As ruas alagadas e sujas, o lixo rolando e voando ao vento, os cachorros em bando correndo de um lado para o outro, adiante uma árvore caída secando parte sobre a rua parte sobre a calçada, a cidade toda um canteiro de obras paradas, obras desorganizadas e descontinuadas, o belo coreto da Praça XV semi demolido e a gurizada em festa sobre seus skates jogando-se sobre as laterais, pulando sobre os bancos, vândalos inconscientes e inconsequentes do patrimí´nio público tão duramente conquistado, ruas abertas e esburacadas pelas obras iniciadas e não concluídas, ruas simplesmente esburacadas pela força das águas das chuvas de todos os invernos e que não tem escoamento, veias abertas pelos sulcos das lágrimas que teimam em rolar em minhas faces. Um sentimento nojento dentro de mim. Segundo o Aurélio… inveja. Naquele instante, descobri que sou invejosa, muito invejosa do povo daquelas cidades que visitei, muito invejosa especialmente do povo de Gramado, por terem em sua cidade aquilo que desejo ardentemente ter na nossa Torres.


