Dia Mundial da ígua: um bilhão de pessoas ainda não tem água potável

25 de março de 2012

 

Por Guilherme Rocha*

 

 

Na semana do Dia Internacional da ígua, representantes das naçíµes mundiais debatem os problemas mais radicais envolvendo a água: os bilhíµes que ainda tem sede na ífrica e ísia, as disputas que o futuro reserva pela conquista de rios e lagos, os excessos hí­dricos da agropecuária e a falta de saneamento básico adequado para mais de um terço do planeta.

   

 

Os direitos da água

 

 No dia 22 de março de 1992, a ONU divulgou um importante documento: a Declaração Universal dos Direitos da ígua   . Este texto apresenta uma série de medidas, sugestíµes e informaçíµes que servem para despertar a consciência ecológica da população e dos governantes para a questão da água. Ficava institucionalizado o Dia Mundial da ígua

97% da água do planeta são água do mar, imprópria para ser bebida ou aproveitada em processos industriais; 1,75% é gelo; 1,24% está em rios subterrâneos, escondidos no interior do planeta. Para o consumo de mais de seis bilhíµes de pessoas está disponí­vel apenas 0,007% do total de água da Terra.Some-se a isto o despejo de lixo e esgoto sanitário nos rios, ou ainda as indústrias que jogam água quente nos rios – o que é fatal para os peixes.

A pouca água que existe fica ainda mais comprometida. Isto exige a construção de estaçíµes de tratamento de esgoto e dessalinização, por exemplo. E exige conscientização para que se evite o desperdí­cio e a poluição, principalmente nas grandes cidades. O Dia Mundial da ígua tem como objetivo principal criar um momento de reflexão, análise, conscientização e elaboração de medidas práticas para resolver tal problema.

 

 

Previsíµes preocupantes

 

Como resultado das mudanças climáticas, estima-se que, em breve, parte do mundo experimentará a crescente escassez de água para agricultura, um fení´meno que afetará os meios de sobrevivência de comunidades rurais e a segurança alimentar de áreas urbanas. í‰ o que aponta o relatório Mudança Climática, ígua e Segurança Alimentar, da Organização das Naçíµes Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), publicado em junho do ano passado.

O impacto afetaria desde rios e aquí­feros no Mediterrâneo até os semiáridos das Américas, Austrália e sul da ífrica, regiíµes que já demonstram estresse hí­drico. Na ísia, áreas irrigadas que dependem do degelo e montanhas glaciais também serão afetadas. Deltas de rios em zonas densamente povoadas também estariam em risco, por conta de uma combinação entre redução no fluxo de água, aumento da salinidade e elevação dos ní­veis do mar.

As chuvas aumentarão nos trópicos, mas diminuirão em semiáridos. Regiíµes onde a água já é escassa devem ficar ainda mais secas e quentes. O aumento das temperaturas ampliará o perí­odo de cultivo nas zonas temperadas mais ao norte e o reduzirá em quase todo o mundo. A perda de umidade também reduzirá a produtividade no campo.

A FAO recomenda governos a implementação de sistemas eficazes para gerenciar fontes, transferências e o uso da água, especialmente nos paí­ses em desenvolvimento. Produtores rurais podem alterar ciclos de plantio para otimizar a irrigação. A pesquisa aponta, ainda, que sistemas agro-florestais ajudam a reduzir temperaturas e evaporação, além de ampliarem a retenção da água e a conservação do solo.

 

 

Batalhas pela água

 

A escassez de água no futuro poderá também aumentar os riscos de conflitos no mundo, de acordo com especialistas que participaram do Fórum Mundial da ígua, semana passadana França. Apesar da quantidade de água disponí­vel ser constante, a demanda crescente (em razão do aumento da população e da produção agrí­cola) fará com que bilhíµes de pessoas fiquem sem água.

A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econí´mico) diz que a demanda mundial por água aumentará 55% até 2050. A previsão é, que nesse ano, 2,3 bilhíµes de pessoas não terão acesso í  água se medidas não forem tomadas.

"O aumento da demanda torna a situação mais complicada. As dificuldades hoje são mais visí­veis e há mais conflitos regionais", afirma o consultor do secretário-geral da Onu, Gérard Payen. Ele diz que os conflitos normalmente ocorrem dentro de um mesmo paí­s, já que a população tem necessidades diferentes em relação í  utilização da água (para a agricultura ou o consumo, por exemplo) e isso gera disputas.

 

 

Rios e lagos secando: milhíµes no mundo tem sede ou carecem de água potável

 

              Problema brasileiro

 

Problemas também são recorrentes entre paí­ses com rios transfronteiriços, que compartilham recursos hí­dricos, como ocorre entre o Egito e o Sudão ou ainda entre a Turquia e a Sí­ria e o Iraque. O próprio Brasil está em conflito atualmente com a Bolí­via, em razão do projeto de construção de usinas hidrelétricas no rio Madeira,que é contestado pelo governo boliviano (que alega impactos ambientais). Tanto no caso de disputas locais, que ocorrem em um mesmo paí­s, ou internacionais, a única forma de solucionar os problemas "é a vontade polí­tica", segundo o consultor da ONU.

O presidente da Agência Nacional de íguas (ANA) Vicente Andreu, que também participou do fórum em Marselha, acredita que hoje existe maior preocupação por parte dos governos em buscar soluçíµes para as disputas. "O problema dos rios transfronteiriços é discutido regularmente nos fóruns internacionais. Aposto na capacidade dos governos de antecipar os potenciais conflitos."

Durante o fórum, que termina neste sábado, o Brasil defendeu uma governança global para a água, bem como a criação de um conselho de desenvolvimento sustentável onde a água seria um dos temas tratados de maneira especí­fica. "A água está sempre vinculada a algum outro setor, como meteorologia, agricultura ou energia. Achamos que ela tem de ter uma casa própria para discutir suas questíµes", diz Andreu.

                      O Brasil tem 11,6% de toda a água doce do planeta. Ainda assim, em pesquisa feita pela Agência Nacional de íguas (ANA), mostra-se que a demanda de água nas regiíµes metropolitanas é maior que a produção atual dos recursos.

 

 

Alguns números

 

Os números divulgados por ocasião do fórum mundial em Marselha são alarmantes. Segundo estudos de diferentes organizaçíµes, 800 milhíµes de pessoas no mundo não têm acesso í  água potável e 2,5 bilhíµes não têm saneamento básico. Houve, no entanto alguns progressos: o objetivo de que 88% da população mundial tenha acesso í  água potável em 2015, segundo a chamada meta do milênio, já foi alcançado e mesmo superado em 2010, atingindo 89% dos habitantes do planeta.

Mas Gérard Payen alerta que o avanço nos números globais ocultam uma situação ainda preocupante. "Entre 3 bilhíµes e 4 bilhíµes de pessoas não têm acesso í  água de maneira perene, e elas utilizam todos os dias uma água de qualidade duvidosa. í‰ mais da metade da população mundial", afirma. Payen diz que pelo menos 1 bilhão de pessoas que têm acesso í  água encanada só dispíµem do serviço algumas horas por dia e que a água não é potável devido ao mau estado das redes de distribuição. Segundo o conselheiro, 11% da população mundial ainda compartilha água com animais em leitos de rios.

De acordo com a OMS, sete pessoas morrem por minuto no mundo por ingerir água insalubre e mais de 1 bilhão de pessoas ainda defecam ao ar livre. Delegaçíµes de 130 paí­ses se comprometeram a acelerar a aplicação do direito universal í  água potável e ao saneamento básico, reconhecido pela ONU em 2010. No fórum internacional da água realizado na Turquia em 2009, esse direito universal ainda era contestado por alguns paí­ses.

 

 

*Com informaçíµes de BBC Brasil, IBGE, Carta Capital e Dia Internacional  


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