EDITORIAL – CONCESSí•ES PÚBLICAS: uma pasteurização de interesses politiqueiros e dinheiristas

10 de fevereiro de 2014

 

A greve dos rodoviários de Porto Alegre demonstra de forma didática a mazela que a sociedade sofre por conta das chamadas concessíµes públicas, uma delas as linhas de í´nibus, operadas por empresas privadas, mas sob mando de regras públicas. O modelo prova que quem paga a conta são os cidadãos que necessitam ou optam (modernamente) em andar de transporte coletivo. Pagam a conta por terem sempre, invariavelmente, tarifas maiores do que deveriam ser; e pagam a conta por usufruí­rem de forma obrigatória da baixa qualidade no transporte, tendo de pegar í´nibus viajando de pé, tendo de esperar o transporte tomando chuva,  e tendo de conviver muitas vezes com motoristas desmotivados, que fazem das viagens verdadeiros testes de resistência humana í  experiência em esportes radicais.

Toda esta anomalia surge por conta do modelo de concessão pública para empresas privadas serem fonte de conluios entre polí­ticos mal feitores de todos os interesses e empresários que acabam comprando o modelo viciado para atingir interesses dinheiristas ou tão somente para sobreviver na competição, pois estão estabelecidos, investiram milhíµes de reais em frotas de coletivos e não podem de uma hora para a outra saí­rem do jogo, infelizmente de cartas marcadas.  Os polí­ticos mal intencionados contam com a colaboração dos donos de empresas de transporte coletivo para suas campanhas eleitorais, polí­ticos que por sua vez e em troca prometem benesses contratuais para os entes privados, e aí­ a receita está pronta: a compra ou negociação tem seus ingredientes na mesa, basta preparar o bolo.

E tem outro chupim na questão. Legisladores fazem campanhas abertas eleitoreiras sugerindo abatimentos ou isenção de pagamento de bilhetes em transporte público para o que chamam ultimamente de movimentos sociais. Isentam idosos de pagamento, isentam estudantes de pagamento integral, isentam policiais de pagamento de passagem, isentam cadeirantes das tarifas, dentre outros. São todas as atitudes teoricamente nobres… Afinal de contas, é justo que os aposentados possam usufruir o final de suas vidas isentos de pagamentos de passagens, pois a aposentadoria na maioria dos casos é baixa em nosso sistema previdenciário (exceto os marajás do serviço público “ que também têm o benefí­cio “ outra mazela dentro de uma mazela). Estudantes pagarem meia tarifa também é justo, afinal são na maioria jovens que são sustentados por pais de renda familiar baixa (exceto os playboys que usufruem do mesmo benefí­cio tendo um carro importado na garagem e contas bancárias gordas de mesadas dos pais).   E assim se dá a todos os beneficiários. Mas os polí­ticos que fazem e aprovam estas leis de isenção no Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores municipais não dizem donde virão os recursos para estes benefí­cios aprovados em lei. E aí­ surge a tal de planilha de custos. Ela serve para que empresários justifiquem aumentos de tarifas (que não são livres “ são votadas e aprovadas por lei). E estas tais de planilhas acabam se transformando em álibis que escondem o conluio principal: São listas de dados que acabam sendo a origem da pasteurização de uma combinação politiqueira, onde interesses de polí­ticos entram na conta, e onde em muitos casos interesses capitalistas de empresários mal intencionados acabam também entrando na receita. E a tarifa alta e a má qualidade nada mais são do que esta pasta, o resultado de  combinaçíµes politiqueiras submersas em números financeiros.

A receita saudável para a eliminação deste câncer incrustado no organismo social é a privatização e a liberação total do mercado. Com ela, terí­amos num lado empresas que trocariam seu serviço (qualidade, e preço) por uma tarifa, como fazem supermercados ao venderem comida para nós; e de outro lado, consumidores que escolheriam qual coletivo usariam para suprir suas necessidades de transporte, como escolhem a marca dos alimentos que compram no supermercado. As classes sociais desfavorecidas elencadas pelos polí­ticos em suas leis teriam isenção ou descontos dados ( e pagos) pelo poder público. E em cada caso (cidade) as prefeituras (apoiadas por Estados e União) optariam por duas saí­das: Ou teriam uma empresa pública com frotas de Coletivos,  com as tarifas que acharem justas para a população; ou dariam bilhetagem paga por elas (prefeituras) para que os usuários usufruí­ssem das benesses financeiras previstas em lei nas frotas privadas e livres. Aí­, idosos, estudantes e outros beneficiários se cadastrariam e receberiam os benefí­cios, sem nenhum envolvimento com os empresários de í´nibus, que teriam a liberdade de trabalharem colocando preços e prestando serviços com a mesma regra  de via de duas mãos que qualquer cidadão vai ao mercado comprar um litro de leite.

A mazela das concessíµes não está restrita somente ao transporte: ela está presente em direitos a exploração de canais de TV, de estaçíµes de rádio, de carros Taxi, dentre outros. E o problema acaba sendo demonstrado também nestes outros setores. Não é a toa que a mí­dia eletrí´nica esteja hoje concentrada na mão de grandes grupos econí´micos; não é por acaso que as rádios também estejam na mão de pessoas ligadas í  polí­ticos influentes; e não é por acaso que atualmente a frota de taxi seja um negócio que concentra poucos donos com muitos carros: a maioria dos motoristas são contratados dos empresários das concessíµes, que em muitos casos os contratam sem nenhum critério trabalhista.

Liberdade total de mercado sempre é a saí­da. Concessíµes á segmentos desiguais? Que sejam dadas pelo poder público e não por conluios que apresentam resultados de uma pasteurização de interesses muitas vezes escuros.

 


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