EDITORIAL – contratação de Gabriel o Pensador: Coragem ou exposição polí­tica?

29 de abril de 2012

 

Polí­tica quase sempre não é o melhor lugar de mostrar o bom gosto ou mal gosto de uma pessoa qualquer. A busca de votos quase sempre ganha na briga com o pensamento coletivo. E daí­ as pessoas e expíµem. Em alguns casos, ao invés de angariar votos, angariam votos para os opositores, tudo em nome do tal de gosto, um direito individual de qualquer ser humanos, que muda, de pessoa para pessoa, gosto este que é base de ideologias, muitas controversas, o que é também saudável, se não, o que seria da democracia se não houvesse posiçíµes opostas em jogo?

Pois o prefeito de Bento Gonçalves parece que  caiu no conto do vigário. Talvez o vigário seja alguém que faz parte de sua equipe de trabalho ou de seu partido, o PT. í‰ que ele tomou a atitude de contratar um escritor por R$ 170 mil (pacote inteiro, incluindo venda de livros e palestras) para ser patrono da Feira do Livro de Bento Gonçalves e, ainda, trabalhar na feira sendo músico, compositor, rapper, escritor e palestrante. Gabriel o Pensador, o artista multimí­dia contratado, foi profissional em colocar preço em seus serviços, afinal existe um mercado e existe uma tabela de preço do artista, normal no show Business. E quem autorizou o pagamento do pacote foi o prefeito de Bento Gonçalves.

O escritor Fabrico Carpinejar de certa forma foi quem armou um circo em torno da decisão da prefeitura da próspera cidade serrana gaúcha. Ele retirou sua participação da mesma feira, alegando que o cachê do rapper estaria astroní´mico. Fez analogias com obras públicas, construção de escolas e acusou a prefeitura daquela cidade de ter dois discursos: um o que afirmou para ele (Carpinejar) que o orçamento não permitia pagar mais que R$ 1 mil para ele e outros escritores convidados; e outro discurso, este rico, de poder pagar R$ 150 mil ao escritor multimí­dia Gabriel O Pensador. A polêmica gerou matérias na mí­dia local e nacional sobre o tema, e a intimidade de Gabriel foi invadida, expondo o artista como se ele, o Pensador, que tivesse a culpa da dissonância na atitude publica da cidade de Bento.

Não é saudável que ninguém se intrometa nos preços praticados por qualquer de seus pares na vida profissional, muito menos tornar isto público.   Ao fazer isto, Carpinejar está dando espaço para que qualquer ser humano questione os cachês que ele ganha ou irá ganhar no futuro sem pestanejar, pois de certa forma o ator e colunista de ZH tentou botar preço no serviço do outro, e outros poderão questionar a competência de Carpinejar perante seus cachês, achando que fulano ou beltrano poderia fazer o mesmo que ele faz por bem menos. Mesmo soando como um grito de alerta contra a prefeitura, o acusador abre precedente para que o Comunismo impere no reino artí­stico. Nivelar os artistas foi o recado de Carpinejar.

í‰ muito menos saudável ainda que uma prefeitura jogue com cartas marcadas no jogo de contrataçíµes, principalmente de artistas, que vivem  em muitas vezes distantes da parte financeira de seus trabalhos, geralmente gerenciada por empresários com experiência no setor. Os contratantes dos escritores da Feira do Livro de Bento Gonçalves, que participariam ou ainda vão participar na Feira do Livro de lá deste ano, deveriam deixar claro para todos que aquela municipalidade conceitua, sim, o rapper Gabriel como 150 vezes mais importante do que os outros, pelo menos para a Feira do Livro, evento em evidência.

Não dá para colocar preço no trabalho do outro. Dá, sim, e é dever das atitudes éticas e transparentes, dizer sim ou dizer não, e ponto final. No caso, a prefeitura de Bento se expí´s ao dizer sim ao rapper e seus preços questionados sem razão por todos. Talvez para aparecer mais nos holofotes da mí­dia, ou por outro motivo qualquer, o que fica é que a prefeitura de lá optou, sim, pela escolha. Agora terá de conviver com os í´nus e os Bí´nus de sua decisão.

 Sabe-se que a questão de contratação de shows se trata de uma competição dentro das comunidades. Um secretário de turismo é muitas vezes avaliado mais pelo quilate dos shows que ele leva í  cidade do que pelo número de turista que frequantam a mesma comunidade. Parece que os habitantes dos municí­pios querem receber de presente shows caros… e de graça! E aí­ o prefeito fica entre a cruz e a espada. Se não contrata é considerado fraco; se contrata é considerado injusto. Mas é isto a polí­tica. O gosto e as prioridades dos homens públicos são a melhor forma  de sabermos bem como escolheremos e elegeremos ou não nossos representantes no poder. Certamente há os que concordam com o prefeito de Bento, assim como há os que discordam. Mas gente para meter o bedelho na cumbuca alheia sem analisar sua própria cumbuca é o que mais aparece, sempre. Aí­ os erros ou os acertos se tornam mais evidentes, dependendo, é claro, do gosto de cada um, direito sagrado dos seres.    


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