Engraxates

19 de setembro de 2011

   

Maria Helena Tomé Gonçalves

 

 

            Num tempo tão carente de trabalho para adolescentes e adultos, ao engraxar pela milésima vez um dos sapatos da casa, lembrei de uma figura que marcou nossa infância e nossa juventude de muitas formas: os engraxates.

Naquele tempo os homens tinham por obrigação freqí¼entar as cadeiras ou as caixas dos engraxates seguidamente. Antes do advento dos hoje usadí­ssimos tênis em qualquer ocasião, era de bom tom que os sapatos masculinos andassem sempre limpos e brilhosos, razão pela qual ser engraxate não só era uma profissão como também captava um bom dinheirinho para as parcas receitas da economia doméstica dos lares de então.  

Na pequena cidadezinha onde crescemos as ruas não eram calçadas, com exceção das ruas mais centrais, os sapatos facilmente ficavam sujos de lama e poeira e os engraxates tinham trabalho permanentemente. A grande aspiração de uma boa leva de gurizotes era possuir uma caixa de engraxate e conquistar um ponto fixo, aspiração não só dos meninos, mas de muitos pais e mães que precisavam engordar a renda para possibilitar a sobrevivência das suas famí­lias. A meninada trabalhava, realmente, por necessidade. E não havia nada de errado nisso.  

Quando ia a Porto Alegre com meu pai, adorava passar com ele na Praça Parobé para uma engraxadinha.   Ali havia muitas cadeiras de engraxates que, por força da freqí¼ência, acabavam tendo clientela fixa e preferencial. Papai gostava de engraxar seus sapatos com um negrão (nada de pejorativo nem discriminativo na palavra) grande e forte, de lábios tão carnudos e rosados como eram brancos seus dentes de sorriso escancarado. Logo que chegávamos se eu estava junto, ele tratava de arrumar um caixotinho para eu sentar e eu ficava ali muito quieta admirando a habilidade e a velocidade com que aquele menino quase homem grande exercia seu ofí­cio.  

E ele, o engraxate, ia cantando sua atividade: primeiro um paninho pra tirar a poeira. Uma graxinha preta ou marrom conforme a cor do sapato e, então, o divertidí­ssimo polimento. Era aí­ que ele se esmerava de fato. Ao som de um ritmo frenético de samba que ele fazia com a boca e batendo um pé no chão, movimentava a flanela que estalava faceira. E o brilho era o máximo. No final, aquele sorrisão de boca cheia e o seu   “ Muito Obrigado, patrãozinho!   me deixavam encantada.

 Onde estarão os engraxates? Foram extintos pelos tênis e novas formas de calçar os pés? Ou nunca existiram em Torres por causa da areia e do mar? Fazem falta os engraxates e o dinheirinho que levavam para suas casas…  


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