Adotar uma criança é uma decisão muito importante, que quando bem orientada e planejada, traz alegria para pais que não podem ter seus próprios filhos biológicos e para a criança que precisa de uma família. Passada a fase que antecede a adoção, fase em que o casal lida com suas dúvidas, incertezas, mitos e preconceitos, vem a adoção propriamente dita em que a criança é recebida pela família e pelos amigos com satisfação. Mas, logo o casal se depara com uma difícil questão: quando a criança deverá saber que é adotiva? Penso que o quanto antes, mesmo que aparentemente a criança não compreenda o significado das palavras.
Ainda sendo um bebê, deve-se falar: "í‰ muito bom para nós termos você, agora somos uma família. A mamãe não podia ter "filhos na barriga" e então pudemos ter a alegria de adotar você como nosso filhinho". í‰ importante falar as palavras "adoção", "adotado", "adotivo" porque a criança logo irá escutar e entenderá o seu significado. A criança mais tarde, como todas as crianças, perguntará de onde ela veio, e os pais responderão que ela nasceu de um pai e de uma mãe, que não puderam cuidar dela esses são os "pais de nascimento". E que eles, os pais adotivos, felizmente foram os escolhidos e são, portanto, os "pais de criação". Os pais devem sempre ser os primeiros a falar com os filhos sobre a adoção. Se os pais puderem elaborar adequadamente essa questão poderão abordar o tema de forma tranqí¼ila desde o momento em que a criança chega í família. Ouvi certa vez uma mãe adotiva dizer que, "se fosse possível", o ideal seria que sua filha nunca soubesse sobre a adoção, porque, segundo ela, sentia que essa informação traria í filha um buraco emocional nesse que ela nunca conseguiria superar. Se o resultado do conhecimento da própria origem é um buraco, eu penso que desconhecê-la é viver num abismo onde a percepção que o sujeito tem não coincide com a história que lhe é contada. A experiência mostra que essa verdade de alguma forma já é sabida pela criança e ela pede essa confirmação o tempo todo através de atitudes, comportamentos ou até mesmo através dos sintomas. Os pais que mantém esse segredo familiar não percebem que existe uma lacuna na história dessa criança que eles não têm acesso e que í s vezes são detalhes: a falta de uma foto da mãe grávida, de uma lembrança da família sobre o seu nascimento enfim situaçíµes que foram vividas fora do contexto familiar atual e por mais que intencionalmente sejam mascaradas, sempre a criança percebe.
Quando os pais, numa situação limite, procuram orientação porque a criança apresenta dificuldades de aprendizagem, comportamentos agressivos ou inadequados, muitas vezes relutam em dizer ao terapeuta de que se trata de um filho adotivo e quando o fazem querem a garantia de que o segredo seja mantido. Recebi certa vez uma mãe que trazia uma história de dificuldades em se relacionar com a filha, essa não sabia que era adotiva e nem poderia saber. A filha, entre outras coisas, era muito agressiva com a mãe, como se de alguma forma pedisse para a mãe explicar o que havia de errado com a sua vida. O discurso da mãe era que o plano havia sido perfeito, que não havia falhas e a filha nunca saberia a verdade só que as atitudes da filha denunciavam o contrário. A mãe com medo de perdê-la, perdia aos poucos o seu respeito e a sua confiança. Os pais vivem o fantasma de serem rejeitados e abandonados caso a verdade sobre a adoção seja revelada, e o que se percebe é que, após o tempo necessário da acomodação das emoçíµes, os laços entre eles se fazem por um arranjo muito mais forte de amizade, amor e confiança.


