Filmes Dublados: Democratização ou crise do conhecimento?

20 de agosto de 2011

 

   

Por Guilherme Rocha  

                     

                                  Em 2008 uma pesquisa organizada pelo Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro, responsável pelo mais completo banco de dados do setor no paí­s, revelou que 56% do público prefere os filmes dublados, contra 37% que gostam mais dos legendados e 7% que ficaram no "tanto faz". Antes restritas ao público infantil, as cópias sem legendas agora são voltadas também para adolescentes e adultos. Nos cinemas (que sentimos falta aqui em Torres) proliferam-se as cópias dubladas, atraem cada vez mais pessoas e rendem grande receita de bilheteria. Na televisão aberta todos os filmes são dublados, e muitos canais da televisão fechada já seguem a mesma tendência. Mas o que simboliza essa mudança de comportamento que vem colocando os filmes legendados em segundo plano no Brasil?

   

                A tendência dos filmes dublados

   

                      Os estudantes Júlio Carvalho e Ueslei de Sousa, ambos com 14 anos e estudantes do colégio Alcino Pedro Rodrigues, explicam sua preferência pelos filmes dublados. "Fica mais fácil de ver e dá pra acompanhar melhor as imagens, não tem que estar lendo o tempo inteiro" indica Ueslei. Já Júlio cita: "Não tenho paciência para ler as legendas, a maioria das vezes que via filmes assim não conseguia entender direito". Eles dizem também que seus filmes preferidos são os de ação, como "Velozes e Furiosos" e "Transformers", e afirmam que o filme se torna mais interessante se contém grande número de efeitos especiais, explosíµes e lutas.  

                      Esta mudança no comportamento do público pode ser reparada nitidamente nos cinemas brasileiros, pelo exemplo da franquia X-Men. O primeiro longa começou sendo exibido sem nenhuma cópia dublada; Em "X-Men 3", de 2006, foram 96 cópias dubladas contra 399 legendadas. No filme mais recente, "X-Man: Primeira Classe as versíµes em português são maioria (255) em comparação com as com legendadas (230).   Antes o filme dublado se direcionava as salas de cinema de caráter mais popular, mas atualmente passou a ser visto também em regiíµes consideradas nobres. O mesmo se percebe nas televisíµes dos brasileiros, onde o DVD facilitou as coisas pela possibilidade de seleção do idioma e legendas.  

                      "Os filmes dublados ficam mais fáceis de serem compreendidos, pode-se prestar mais atenção nas cenas de ação, nos efeitos especiais. Eu ainda prefiro assistir os filmes dublados e com legendas, pois então junto í s facilidades das dublagens com o texto original", indica Sancler Brocca de Sousa, proprietário da locadora Videomania. Ele ainda contesta o hábito de se baixar filmes pela internet, o que reduziu o movimento na locadora. "Com as conexíµes velozes de banda larga, as pessoas criaram o hábito de fazer download dos filmes. Porém muitas vezes as qualidades de áudio e imagem destes filmes baixados na internet são inferiores, í s vezes até mesmo gravadas em salas de cinema com câmeras amadoras", conclui.

   

                Diferentes pontos de vista

   

                      De acordo com o estudante de jornalismo Bruno Bauer, a proliferação dos filmes dublados reflete uma dificuldade dos espectadores em acompanhar as legendas. "Penso que hoje em dia tem gente com preguiça de ler as legendas dos filmes, pessoas que muitas vezes não estão mais preparadas para uma interpretação dos textos passando rapidamente pela tela", para o estudante, os filmes legendados são também uma forma de aprendizado, a partir do contato com a lí­ngua de origem das produçíµes. "Mesmo que seja indiretamente, enquanto acompanhamos os filmes legendados também associamos palavras do português com o inglês, o que é um incentivo ao aprendizado de um novo idioma. Mas, como mostra a pesquisa, os espectadores parecem não dar muita bola para isso, preferem os filmes dublados que são mais fáceis de compreender ao invés de um possí­vel acúmulo de novos conhecimentos, contesta Bauer.  

                      Já o professor de Ciências Sociais da UFRGS e ex-secretário de Cultura, José Luiz Marques, tem uma opinião diferente sobre o assunto. "Particularmente prefiro assistir cópias legendadas, mas acho que os filmes dublados permitem uma democratização das artes cinematográficas no Brasil. Seja dublado ou legendado, o importante é que as pessoas, de todas as classes culturais e sociais, assistam filmes, constituam uma cultura de cinema forte em nosso paí­s. Se só houvesse a opção de assistir aos filmes legendados, muitas pessoas iriam se desinteressar. Penso também que deve haver uma valorização maior dos filmes brasileiros, que não só tem grande qualidade, mas representam os costumes e a cultura de nosso paí­s", sinaliza Marques.  

                      Conversei também com Valentijn van der Velden, 23 anos, um amigo holandês que conheci na Nova Zelândia. Ele explica que na Holanda, um dos paí­ses com IDH mais elevado na Europa, se acostumou desde muito cedo com os filmes legendados. "Nossa televisão aberta exige os filmes sempre legendados, e por isso temos desde a infância o contato com outras lí­nguas, principalmente o inglês, já que Hollywood comanda grande parte do mercado cinematrogáfico. Nossas escolas ensinam um inglês de qualidade a partir das séries iniciais, deste modo na Holanda a maior parte da população é no mí­nimo bilí­ngue, o que facilita o contato com turistas de outras nacionalidades", analisa Valentijn.

 

 

 

       

Sancler Brocca de Souza: Filmes dublados são mais fáceis de se compreender

 

     

                Concluindo…

   

                      A popularidade dos filmes dublados vem crescendo cada vez mais. í‰ bem verdade que, em tempos onde é cada vez mais difí­cil atrair a atenção dos expectadores, mais dispersos e dependentes da tecnologia, os filmes dublados fazem sucesso pela facilidade, já que não é necessário ler as legendas. E exatamente por essa simplicidade que as cópias dubladas podem representar uma democratização do cinema, atraindo um público de classes populares que antes não era cativo dos filmes. Ainda assim, também se analisa um quadro preocupante, onde muitos espectadores têm certa preguiça mental de ler, de acompanhar as legendas ou, infelizmente, são incapazes de compreender os textos das legendas. Nosso paí­s vem se gabando pela pretensa estabilidade econí´mica, por muitas pessoas de classes sociais mais baixas estarem melhorando sua condição de vida e deixando a pobreza. Mas, ao que tudo indica, essa melhoria social não se reflete em um enriquecimento cultural.

                        Por mais que a qualidade das dublagens brasileiras seja uma das melhores do mundo, os filmes estrangeiros legendados ajudam a pessoa a aprender um novo idioma (e até uma nova cultura), estimulam a leitura e o áudio é melhor. Por essas razíµes sou defensor do filme legendados, dos filmes brasileiros, franceses, russos, italianos, espanhóis, argentinos. Sou a favor do filme arte, aquele que não só é um entretenimento, mas uma elevação das capacidades cognitivas. E sonho que todos, não só pessoas ditas "instruí­das", consigam entender estes filmes, que todas as escolas brasileiras possam preparar nossas crianças para tal contexto. Pela valorização da educação e do conhecimento!


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