Maria Helena Tomé Gonçalves
Tenho passado as duas últimas semanas mergulhada em meio a fichas médicas porque estou reorganizando um arquivo para informatização do consultório. Um arquivo médico de quarenta anos de profissão. Parte das fichas já pertencem ao arquivo passivo, mas a grande maioria ainda permanece no arquivo ativo e precisam ser analisadas de acordo com alguns critérios previamente estabelecidos para selecionar os clientes cujos históricos serão inseridos no sistema. í‰ um trabalho minucioso de análise, requer sigilo e é moroso de realizar, por mais concentração que se tenha e por mais cuidado na obediência aos critérios. Essa análise exige cuidado, persistência, concentração e uma certa frieza. Permanecerão no arquivo ativo fichas de clientes que consultaram de 2008 para cá, porém se o cliente é muito antigo, mesmo que tenha sumido nesses anos selecionados, a sua ficha deve permanecer, especialmente fichas de gestantes.
Seguir a risca os critérios é difícil de obedecer. Quantas histórias dolorosas registradas com a letra garranchada do médico. Quantas histórias de vidas novas, de nascimentos, de chegadas, de alegrias contadas através das consultas ao longo dos nove meses de cada gestação acompanhada pelo doutor. Quantos registros de partos normais e de cesarianas. Quantos registros de abortamentos, de perdas de fetos, de dores e lágrimas. Cada cadastro contém uma parte da vida das mãezinhas e de seus bebês esperados com tanto amor e com tanto cuidado. Há também as histórias das gestaçíµes difíceis, das impossibilidades, da busca de bebês para adoção. Há as histórias das filhas que nasceram pelas mãos do doutor e que agora também são mães. Há também as histórias das netas que nasceram pelas mãos do doutor e que agora também são mães. Passam as histórias de três geraçíµes pelas fichas desse arquivo médico de quarenta anos.
Além do arquivo das clientes gestantes, há todo o fichário dos demais clientes da clínica. De homens, de mulheres e de crianças. Embora o doutor não seja pediatra, volta e meia encontro uma ficha infantil. Embora o doutor não seja geriatra, muitas são as fichas de adultos da terceira e da quarta idades, em geral pessoas que frequentam o consultório há muitos anos, o que lhes deu tempo de envelhecerem junto com suas histórias. í‰ difícil passar para o passivo essas histórias vivas narradas no papel, registradas em sintomas, curadas com a receita de medicamentos, mas acima de tudo, ouvidas com atenção, acolhidas com carinho, envolvidas em sorrisos solidários, solucionadas pela empatia criada entre o médico e o seu paciente.
í€s vezes, a pastinha é gorda de fichas, todas repletas de datas e de registros de consultas. Muitas amarelecidas pelo tempo, com o clips enferrujado, de diversos modelos, pois ao longo dos anos a impressão gráfica foi mudando. Mas a letra do doutor está sempre ali, firme, ligeira, muitas vezes ininteligível, mas está ali com a alma e o coração do homem dedicado í ciência da sua profissão, dedicado í s histórias dolorosas dos seus pacientes.
Agora a modernidade bate í porta. í‰ preciso atualizar o sistema de registros. Usar a tecnologia e informatizar o consultório para torná-lo mais ágil. Mas para o doutor não é fácil fazê-lo. Volta e meia ele espia da porta com olho comprido e fica meio constrangido ao ver as caixas com as milhares de fichas que passarão a repousar no alto do armário e não mais serão manuseadas. Aos poucos todos os dados irão sendo armazenados no computador e as fichas amareladas serão retiradas do arquivo. Mas, as histórias que contam, os sorrisos e as dores dos pacientes que registram, muitos tornados verdadeiros amigos, certamente, permanecerão para sempre na memória daquele homem de vestes brancas e coração amoroso.


