Por Paulo Timm “ Economista, professor e fundador do PDT
Especial para A FOLHA, maio de 2014
Há doze anos falecia, um dos ícones do ambientalismo no Estado e no Brasil: José Lutzemberger. Também em Torres, onde plantou a semente do Parque da Guarita “ hoje convertido em unidade de conservação permanente – e assinou o projeto paisagístico para a área de uso público do parque, que bem deveria levar seu nome. Teve aqui como suporte uma grande parceira, pouco lembrada entre nós, mas digno de nota: Hilda Zimmerman. Aos dois devemos a abnegada geração de verdes hoje presentes na Prefeitura Municipal, em diversas ONGs e em alguns Partidos Políticos. Ele vinha regularmente a Torres, escandalizando tantos quantos os que o flagravam pelado na Praia da Guarita. Pelado, aliás, não: Sem roupas. A idéia do pelado sugere algum despudor ou, na melhor das hipóteses, um primitivismo í outrance, fora de época e lugar. Nada mais estranho ao velho Lutz, um homem severo de hábitos morigerados e moral í toda prova. Já sem roupas sugere um homem que se desnudou da roupagem civilizatória estabelecida para redescobrir-se como protagonista de seu tempo. O grande e eterno problema ao longo de toda a História da Humanidade jamais foi a de absorver idéias novas, mas a de se livrar das antigas. Nascemos jovens de corpo e condenados a morrer fisicamente envelhecidos, retirando daí o drama da vida, enquanto o espírito já vem ao mundo escravizado pela cultura do seu tempo e de sua geografia, com poucas chances de se libertar. Daí ser o desvestir-se uma metáfora do novo. Também um anátema contra o estabelecido. Também uma proclamação. Assim era o Lutzemberger, um arauto da Nova Era.
Ele viu nos anos 70 o que poucos ainda viam: o esgotamento dos recursos naturais do planeta, í luz do rápido crescimento populacional ao longo de um século (XX) que assistiu o número de habitantes saltar de 1,2 bilhão para mais de 6 bilhíµes, todos ávidos pelos padríµes de consumo do pequeno número de países desenvolvidos. Plantou do outro lado do rio a miragem de um mundo alternativo. Parecia um desvairado. Mas era o sonhador dos versos de Lila Ripoll:
A planta está do outro lado
E o outro lado não existe
O erro não é dos olhos
Mas do sonho… que persiste
Sonhador e persistente, Lutz acabou reconhecido internacionalmente como agrí´nomo e ecologista. Pensava, fazia e acontecia. Sua liderança sobre o movimento no Brasil se consolidou em 1976, quando lançou o livro Manifesto Ecológico Brasileiro: O Fim do Futuro?, sua obra mais conhecida. Já havia fundado, em 1971, com outra excelsa figura, Augusto Carneiro, recentemente falecido, aos 95 anos, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural– AGAPAN -, da qual acabaria se retirando por vê-la empolgada por jovens com pouca formação técnica e grande apetite político. Em 1987 criou a Fundação Gaia, que fica em Pantano Grande. No Governo Collor, 1990-92, foi chamado para ser Ministro do Meio Ambiente vindo a ser demitido depois de denunciar a corrupção no IBAMA. Seu estilo franco, extremamente polêmico e honesto não se compatibilizava com a função pública… E até sua morte, em 2012, abriu e percorreu inúmeras trilhas na defesa ambiental e do naturalismo.
Hoje o ambientalismo ainda incomoda muita gente, sobretudo os apressados, quando não simplesmente gananciosos, que querem impulsionar seus projetos de desenvolvimento a qualquer preço. Eles esquecem de contabilizar o custo ambiental dessa urgência que leva de roldão não só a paisagem rural e urbanística, mas os valiosos recursos que lhe correspondem. Felizmente, no entanto, o mundo acordou na Conferência Mundial sobre Meio Ambiente do Rio de Janeiro ,em 1992, e incorporou novos cânones aos processo de desenvolvimento, agora, dito sustentável: Ele deve ser economicamente eficiente, socialmente justo e ecologicamente reciclável. A reciclagem, aliás, é a marca do século XXI e que faz da biotecnologia seu grande artífice, assim como a engenharia o foi no século anterior.
Lutzemberger vislumbrou tudo isso muito cedo. E morreu sem ver o anúncio da Nova Era que tanto proclamava. Mas nenhum de nós, hoje vivos, a veremos. Talvez a humanidade ainda tenha que passar por muitas provaçíµes até que, finalmente, se convença da necessidade de racionalizar sua presença na Terra, compatibilizando seus anseios de consumo com a consciência da limitação dos recursos naturais. James Lovelock, outro ambientalista, igualmente sonhador, é otimista quanto í possibilidade de que isso ainda venha a ocorrer. Mas é pessimista quanto ao custo para chegarmos lá: Ele calcula que até o fim deste século cerca de 90% da população do planeta terá perecido. Ave Lutz! Que a paz e os suspiros da esperança estejam contigo…!


