Ilha dos Lobos: da proteção ambiental as competições de surf

29 de janeiro de 2013

 

Foto da onda na Ilha dos Lobos, que foi considerada a maior onda do Brasil

 

A ilha dos lobos está localizada a 1,8 km da costa, em frente a Praia Grande. í‰ a única ilha marí­tima do Rio Grande do Sul e tem esse nome em razão dos lobos marinhos que lá habitam, chegando principalmente entre os meses de junho a novembro, quando muitos destes animais – vindos da Patagí´nia e Uruguay –   procuram nossas águas mais quentes para o acasalamento. Ao aportarem no aglomerado de pedras, cujo perí­metro é pouco maior que um campo de futebol, estão protegidos por lei ambiental.

                      Durante os meses mais frios, a ilha chega a receber mais de 150 piní­pides (lobos e leíµes marinhos) que fogem do frio congelante das águas do extremo sul do nosso continente.   A ilha também é ponto de passagem para golfinhos, baleias, botos aves e tartarugas marinhas. A água em volta das pedras apresenta baixa temperatura, mesmo no verão, quando dificilmente passa dos 20 graus centí­grados.

 

                      Proteção ambiental

 

                      Um relatório da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural) de 1982, fala de verdadeiros massacres de lobos e leíµes-marinhos em volta da Ilha dos Lobos. Encontravam-se filhotes solitários na costa, órfãos cujos pais haviam sido assassinados. Nesta época, segundo antigos moradores de Torres, as pessoas também caminhavam entre as pedras da ilha com liberdade, de onde arrancavam os mariscos que lá se fixavam.

                      Outra atividade – hoje criminosa – era executada contra as baleias. Nos anos 70 e 80, a população de baleias francas encontrava-se em risco de extinção em decorrência da pesca predatória destes animais.  

                      Por razíµes como esta, a Ilha dos Lobos virou reserva ecológica, através de um decreto assinado pelo presidente João Batista Figueiredo, em 23 de fevereiro de 1983. E no dia 04 de julho de 2005, um novo decreto presidencial recategorizou a reserva ecológica em refúgio de vida silvestre. "Com essa reclassificação, a área de proteção passou a englobar um perí­metro de 142 hectares no entorno da Ilha dos Lobos. Quando o local era uma reserva ecológica, a área de proteção era menor, de 500 metros (para qualquer direção) em relação a ilha", indica Ney Cantarutti Jr, o chefe do REVIS da Ilha dos Lobos, vinculado ao instituto Chico Mendes e responsável pela proteção ambiental do local.

                      Segundo Nei, o fortalecimento das medidas de proteção ambiental voltadas para a Ilha dos Lobos ajudaram que a pesca ilegal nos arredores diminuí­sse significativamente em relação ao passado. " Em décadas passadas houveram matanças de piní­pedes e principalmente de baleias franca. Hoje já se formou uma consciência – mesmo que compulsoriamente – para alguns pescadores".

                      A Ilha dos Lobos também tem servido como referência de pesquisas e estudos ambientais vinculados com instituiçíµes de ensino. "Uma relação transparente com a sociedade é importante para que o nosso trabalho seja bem exercido. Temos realizados parcerias com universidades, que fazem pesquisas relacionadas a migração das baleias, aos lobos e leíµes marinhos e também as algas que crescem em torno da Ilha dos Lobos".

 

                      Surf na ilha e Zeca Scheffer

 

                      Além das espécies marinhas, outro peculiar segredo está escondido na Ilha dos Lobos: sua onda. Em 2003, um grupo de renomados surfistas de tow-in – como Rodrigo Resende, Eraldo Gueiros e Carlos Burle – constataram o poder e a majestade da onda na ilha. O assombro com a poderosa"morra" da Ilha dos Lobos foi registrado em fotos e ví­deos, e acabou virando reportagem no Fantástico, que reconheceu a onda como sendo a maior do Brasil.

                      Enquanto surfistas de fora repartiam os louros pelo surf na maior onda do Brasil, foi relegado ao segundo plano aquele que é considerado o grande desbravador da Ilha dos Lobos: o surfista local Zeca Scheffer. Considerado um cidadão ilustre na comunidade, Zeca presidiu a AST (Associação dos Surfistas de Torres) por quase 10 anos e desbravou o surf de ondas grandes na Ilha dos Lobos e também na Laje da Jagua. Além disso, ele salvou muitas vidas no mar e chegou a receber homenagens do Corpo de Bombeiros pelos resgates que efetuou.

                      Porém, um grave acidente de carro fez com que Zeca Scheffer se despedisse deste mundo mais cedo. E se em vida Zeca não conseguiu o todo reconhecimento esperado, seu trágico falecimento fez com que a memória de seus feitos fosse preservada. Homenagens foram feitas em seu nome, e a maior delas talvez tenha sido o campeonato MCD in Memorian Zeca Sheffer, que ocorreu exatamente na Ilha dos Lobos, cuja onda ele ajudou a desbravar.

                      O simples prazer de surfar a Ilha dos Lobos na remada e homenagear um í­cone do surf gaúcho uniu surfistas locais e convidados durante o MCD in Memorian Zeca Scheffer, em 2010. Entre alguns dos participantes estiveram Rodrigo Pedra Dornelles, Daison Pereira, Stephan Figueiredo, Marco Giorgi, Marcelo Trekinho, Alemão de Maresias e Paulo Moura.  Além das emburacadas ondas de dois metros, o evento demonstrou que o esporte também pode ser uma ferramenta de consciência ambiental.  

                      Zeca sempre teve a idéia de conciliar surf e consciência ecológica, mostrando que o esporte pode ser um aliado da preservação da Ilha dos Lobos, razão pela qua não houve premiação em dinheiro aos atletas, mas uma contrapartida ambiental.

 

                      Eventos no futuro?

 

                      O chefe do REVIS da Ilha dos Lobos, Ney Cantarutti Jr, em sua manifestação quando do encerramento do Zeca Scheffer in Memorian, mencionou que – no decreto de recategorização da unidade – foram previstas atividades esportivas e de recreação, o que caracteriza o interesse do ICMBio em manter um bom relacionamento com a sociedade torrense que tem no surf seu esporte exponencial.

                      E recentemente, Ney explicou ao Jornal A FOLHA que, apesar da polêmica gerada pelo assunto ao longo dos anos, um evento de surf – que seja antecedido por estudos, e tenha respaldo nos vários segmentos do ICMBio e no Ministério Público – pode ocorrer na Ilha dos Lobos. " Temos concedido eventualmente autorizaçíµes para o surf na Ilha, mas desde que as restriçíµes definidas pelo ICMBio sejam respeitadas. Atletas profissionais locais – como Daison Pereira e Rodrigo Dornelles – nos procuram para poderem surfar lá. Mas é importante lembrar que estes são atletas profissionais: é importante que as pessoas entendam os riscos fí­sicos envolvidos no surf na Ilha dos Lobos antes de pensarem em se aventurar por lá", analisa Ney.

                      O jornal A FOLHA conversou também com o vice-presidente da Associação de Surfistas de Torres (AST), Renan Borba. Ele afirmou que a AST ajudaria a viabilizar um novo evento de surf na Ilha dos Lobos, mas que para isso deveriam haver bons patrocí­nios. "Fazer um novo campeonato na Ilha dos Lobos seria uma boa ideia para destacar a força do surf na Ilha dos Lobos. Porém, um evento deste custaria no mí­nimo R$ 100 mil, pois precisarí­amos de barcos e suporte. E é claro que as leis ambientais também precisam ser respeitadas".


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