Iº Fórum do Patrimí´nio Histórico de Torres: Preservar o passado,pensar no futuro (PARTE 2)

13 de março de 2014

   Pintura, (talvez de Debret), iní­cio do séc XIX:  vista a partir do Morro do Farol

 

 

 

As raí­zes da história e a supremacia Guarani

   

Conceituar a história e a formação das civilizaçíµes humanas foi a base da palestra da professora Juliane Maria Puhl Gomes. Quando começa a história? Trata-se de uma pergunta complexa, pois a história pode ser individual ou coletiva “ vivida em famí­lia, nos laços sociais. História é feita de memórias, nossas “ expressas em fotografias, lembranças – ou gerais, coletivas – de pertença do senso comum, como a história do nosso paí­s, do estado.

Puhl Gomes recapitulou sobre o povoamento pré-histórico do Brasil, trazendo dados que apontam que nossa história é mais antiga do que imaginamos – e ainda nebulosa em certos pontos. Os grupos humanos mais antigos a ocuparem Brasil não eram mongoloides “com olhos puxados tí­picos da nossa população indí­gena. Os sepultamentos datados mais antigos no Brasil são de humanos com traços negroides “ semelhantes aos aborí­genes – talvez vindos da Oceania em barquetas e canoas.

A professora suscitou o questionamento sobre os í­ndios nativos de nossa região litorânea, povos pré-históricos que eram ní´mades a princí­pio, mas que na orla marí­tima sul brasileira encontraram fartura e segurança para se estabelecerem como sedentários. Os sambaquis da Carniça, em Laguna-SC, começaram a ser ocupada há cerca de 5 mil anos, e era um deposito de conchas imenso (com até 35 metros) onde civilizaçíµes de í­ndios Guarani se estabeleceram por até mil anos ininterruptos. Encontramos nestes sí­tios arqueológicos do litoral elaboradas esculturas em pedra “ retratando animais com os quais os í­ndios se deparavam. Com as ferramentas rudimentares que contavam, um escultor profissional levava até 900 horas de trabalho para fazer uma única peça em pedra, o que indica que haviam pessoas especialistas, que faziam só isso. Essas peças e artefatos tinham utilidade funcional í s civilizaçíµes passadas: eram anzóis e pesos de pedra para a pesca, haviam canoas também.

No rol das curiosidades, Puhl Gomes falou sobre a origem do nome da Lagoa dos Patos, que estaria ligado í s tribos de í­ndios que habitavam a região – conhecidos como "patos" por causa das plumas que levavam em suas vestimentas. E até a chegada dos colonizadores europeus, não existia espaço vazio – do Rio Mampituba ao Tramandaí­ “ onde não houvessem í­ndios guarani. E depois da chegada dos colonizadores, os  í­ndios ainda cobravam pedágio para deixá-los passar pelas terras litorâneas

 

 

1890/1892: Construção parcial do Porto na Guarita. (Acervo João Barcellos)

 

 

A relação entre turismo e patrimí´nio histórico

 

 A quarta palestra da noite “ quando já se aproximava das 21h “ ficou por conta do historiador Leonardo Gedeon, que salientou que desde 1995 não havia um evento em Torres que tratasse da história local, e que segundo a Constituição Federal todos temos direito a memória (No caso deste fórum, o Jornal A FOLHA – único veí­culo de comunicação presente no evento “ faz o papel de registrar e perpetuar os importantes debates do evento nos anais da história torrense). O historiador fez uma análise do turismo em relação ao patrimí´nio histórico, e o reconhecimento da educação como aporte para a preservação e valorização da cultura local. O que é turismo? O í­mpeto por viagens é tão antigo como respirar ao ser humano, mas o turismo como conhecemos hoje toma corpo na Europa da revolução industrial, quando passa a haver maior acúmulo de capitais e a encorajar-se a venda de pacotes turí­sticos. Nesse processo, o inglês Thomas Cook toma a frente, promovendo excursíµes e criando folhetos de viagem.

Gideon conta que o turismo é uma atividade recente na realidade torrense “ realizada a pouco mais de um século na nossa região “ mas que trouxe recursos e impulsionou a urbanização. O turismo na região começou com a busca dos balneários por visitantes que buscavam tratamentos pela água do mar. Dos anos 30 aos 70, vemos Torres passar de uma simpática vila a uma cidade verticalizada. Porém, o lado desenvolvimentista do turismo também deixa um rastro de destruição na história. A maioria do nosso patrimí´nio “ arquitetí´nico, histórico e imaterial (como os sambaquis) – foi subjulgada pela especulação imobiliária, a construção de grandes prédios. Negligencia dos planos diretores, má fiscalização e pouca articulação dos pesquisadores levaram a uma perda da nossa história, ressalta o historiador, lembrando que o sambaqui da Guarita foi destruí­do para dar lugar a um estacionamento ao parque nos anos 70 “ embora houvesse uma lei (já na época) que protegia os sí­tios arqueológicos, lei esta que foi ignorada pelo anseio desenvolvimentista.

O palestrante ainda teorizou a questão do turismo relacionado a formação de uma identidade torrense, dizendo que, por ocorrer uma invasão populacional e sazonal no perí­odo de veraneio, forma-se um subjetivo sentimento de não pertencimento í  cidade. O turismo de massas é uma ameaça ao nosso patrimí´nio cultural, histórico e ambiental. O turismo inicia com as elites e se expande para as massas sem mudar o conteúdo, uma invasão de gente que tem pouca preocupação com o local para onde se desloca. Em Torres, a vocação turí­stica se atrelou com construção civil, os exageros da especulação imobiliária e o descaso dos poderes públicos, que fizeram esvair nossa memória rapidamente disse Gideon, lembrando ainda da dinamitação da Torre Sul na praia da Guarita – no final do século XIX – para construção de um porto no local (obra esta que nunca ocorreu), ato que hoje seria considerado criminoso (mas na época era aceito).

Não apenas o patrimí´nio material deve ser preservado, mas também aquele que é coletivo e imaterial “ como nossos morros e os sí­tios arqueológicos restantes. Segundo Gideon, todo patrimí´nio é de base finita – depois que se destruiu não tem como preservar; Ele fez um pedido para que se incentivem museus aqui em Torres, bem como a sinalização dos sí­tios arqueológicos Nossas verdadeiras Torres são os morros, não as torres de concreto que se erguem dia a dia.

 

Pelo resgate do arquivo histórico de Torres

   

 

Desenho de Herrmann Rudolf Wendroth: A praia da Guarita, 1852. (FOTO: Wikipédia Commons)

 

O último painelista foi o historiador torrense Jaime Batista, que falou sobre a importância da participação da sociedade no processo de sensibilização sobre o patrimí´nio. Não adianta termos conselhos de polí­tica cultural sem a participação da sociedade. Temos que passar toda a informação, sensibilizar a sociedade para que conheça nossa história e saiba por que temos que preservar. Agora temos finalmente uma secretaria de cultura em Torres, focando na cultura local com mais seriedade. Já a lei do tombamento não vai prejudicar, vai estar em harmonia com os interesses privados e públicos. E vale lembrar também que temos um tesouro dentro da Casa de Cultura, que é o arquivo histórico municipal, ressaltou Jaime, pedindo ainda algum incentivo para que haja um arquivo histórico mais acessí­vel í  população, pois temos muita coisa de nossa história que ainda está escondida.

Com destaque para algumas pinturas que teriam sido desenhadas pelo proeminente pintor francês Jean-Baptiste Debret (ou não?), quando em viagem pelo nosso municí­pio no começo do século XIX, Jaime mostrou várias imagens históricas de Torres. Continuando, o palestrante falou do alferes Manuel Ferreira Porto (considerado ˜primeiro morador™ de Torres), que pediu autorização para construção da capela São Domingos, a partir de 1816. Militar de carreira, filho de pai português e mãe fluminense, ele tinha meia légua de terra- dos Molhes a Guarita, do Mar a Estrada do Mar. Ou seja: era o dono de Torres. Por isso também foi construí­da a Capela ao lado da casa dele, contou Jaime.

Outro tópico abordado pelo historiador foi a demanda pelo porto na Praia da Guarita, ideia que foi tentada 3 vezes aqui em Torres: a primeira vez durante o perí­odo imperial de Dom Pedro II, a segunda vez nos primórdios da república e a terceira vez quando Getúlio Vargas era governador do RS (em 1928). Mas todas estas tentativas foram infrutí­feras, o que resultou na ˜criação™ de uma vocação turí­stica para a florescente cidade. Torres não queria turismo, queria ser portuária, mas como não conseguiu o turismo foi construindo seu legado. Muita gente veio morar em Torres pela promessa do porto “ vindos de cidades como Araranguá e Porto Alegre – abrindo seu comércio por aqui (pois na época, sem boas estradas ou carros, empreender uma viagem de volta até Porto Alegre poderia ser bem difí­cil). Com o fracasso da ideia, o Coronel Pacheco decidiu incentivar aluguel de casas para visitantes de outras cidades, hábito que até hoje se mantém disse Jaime

O palestrante ainda falou da influência estadunidense na nossa arquitetura pós guerra “ como vemos no prédio da SAPT, por exemplo. E aliás, a SAPT (Sociedade dos Amigos da Praia de Torres) foi um clube com participação ativa no desenvolvimento da cidade, responsável por investir nas as redes de luz elétrica e água para Torres, em meados do século passado, lembrou Jaime Batista, que finalizou convidando a população a visitar o acervo histórico de Torres, localizado na própria Casa de Cultura – que conta com mais de 4000 fotos digitalizadas, fotos estas que mantém gravadas uma importante parcela da memória torrense.

Por volta das 22h30 após o final da palestras do Fórum de Patrimí´nio Histórico, foi aberto um espaço para a participação do público. Houve várias sugestíµes por parte dos interessados espectadores, desde uma homenagem a memória de Ruy Ruben Ruschel “ que viraria nome de rua aqui em Torres “ até a questão da acessibilidade em vias e prédios públicos, incentivo a arborização da cidade e a definição de um espaço para manutenção do acervo histórico no novo prédio da prefeitura. E finalizado o fórum, ficou a sensação de que se antes havia uma mudinha pela preservação do nosso patrimí´nio cultural, essa mudinha cresceu um tanto mais após o rico debate da noite de 27 de fevereiro.

 

 

Primeiro Farol de Torres, construí­do em 1912 (acervo de Jaime Batista)  


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