Iº Fórum do Patrimí´nio Histórico de Torres: Preservar o passado pensando no futuro (PARTE 1)

13 de março de 2014

Na noite da quinta-feira passada, no Centro Municipal de Cultura, ocorreu o 1 º Fórum do Patrimí´nio Histórico de Torres, evento que reuniu painelistas discorrendo sobre a importância da preservação do patrimí´nio para a história do municí­pio. E o jornal A FOLHA estava lá para fazer a cobertura.

 

 

Prefeita Ní­lvia, juntamente com os 5 palestrantes do Fórum

 

Por Guile Rocha

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Muitos interesses existem dentro de uma cidade – interesses econí´micos, polí­ticos e culturais – mas estes devem se complementar e não se contrapor. Tendo esta premissa como base, iniciou-se o Fórum do Patrimí´nio Histórico, que foi aberto pela prefeita Ní­lvia Pereira. í‰ uma honra ser prefeita de uma cidade que para e debate sua história. A Construção da identidade do municí­pio passa por pensar o que nós temos que fazer, de fato, para preservar nosso patrimí´nio cultural, disse a prefeita, defendendo que não podemos deixar que termine o pouco que resta da cultura histórica fisicamente apresentada em Torres. Temos que evitar isso, para que não tenhamos uma realidade onde os livros sejam a única forma de conseguir lembrar da nossa história. Temos que refletir sobre as casas antigas na rua Júlio de Castilhos, que não seja demolido mais nenhum tijolo delas. Esta força tem que vir da sociedade, que tem que conhecer sua história, dialogar com o desejo de conhecer as raí­zes. Se eu amo eu preservo.

Quando pensamos no crescimento da nossa cidade de Torres, é importante pensar no desenvolvimento turí­stico aliado a preservação do seu patrimí´nio “ seja este de valor histórico, econí´mico, cultural ou ambiental. Relacionado ao anseio de preservar o patrimí´nio, a Ní­lvia também falou do atual prédio da prefeitura de Torres, que ira tornar-se num museu após a mudança da prefeitura ao prédio do antigo hotel Beira-Mar “ nova sede da administração pública. Estamos buscando um recurso de 300 mil reais para fazer a organização do museu histórico de nossa cidade. Um memorial de nossa Torres, que nos orgulhe, que faça lembrar nosso passado, nossa cultura e raiz.

 

COMPHAC e a Revisão de diretrizes ultrapassadas

 

 O I º Fórum do Patrimí´nio Histórico de Torres, com caráter de audiência pública, teve participação de um público bem diversificado, com pessoas interessadas na preservação do patrimí´nio, estudantes e ativistas culturais. O primeiro palestrante da noite foi o presidente do COMPHAC – Conselho Municipal do Patrimí´nio Histórico Artí­stico e Cultural de Torres – Cristiano Evaristo Alves. Cristiano também trabalha no ramo imobiliário, e reforçou a importância da cooperação entre os interesses econí´micos e a preservação. Com medo de perder seu patrimí´nio financeiro, algumas pessoas na cidade demoliram as pressas casas históricas do municí­pio, mas quem perde com isso é o proprietário. Casas históricas podem ser alocadas para tornarem-se museus, por exemplo. Muitos dos grandes museus do mundo estão instalados em espaços privados, disse o presidente da COMPHAC, sugerindo que haja uma verba compensatória referentes a 1000 reais por m ² demolido de obra com valor histórico e cultural.

O palestrante continuou destacando proposta de isenção de IPTU e ITBI (Imposto Sobre a Transmissão de Bens Imóveis) aos proprietários de prédios que sejam considerados patrimí´nio cultural na cidade- como as casas na rua Júlio de Castilhos – bem como para estabelecimentos comerciais que tiverem acervo literário a partir de 200 exemplares e periódicos atuais para consulta pública. Estruturar a preservação do patrimí´nio histórico e cultural sem cometer injustiças com ninguém, para que as pessoas sejam ouvidas e todos os lados envolvidos saiam ganhando: essa é nossa meta, disse Cristiano. Também foi pedida a discussão de estratégias para a compra da casa numero um de Torres – ao lado da nossa Igreja São Domingos – onde pernoitaram os imperadores Dom Pedro I e II.

Dentre outros tópicos, o presidente da COMPHAC lembrou da necessidade de fazer alteraçíµes no artigo 29 do nosso defasado Plano Diretor “ que desde 1995 não é revisado “ aonde as áreas especiais turí­sticas estão especificadas juntamente com as áreas históricas. A alteração evitaria problemas jurí­dicos e jurisprudenciais. Entre outras ideias apresentadas pela COMPHAC, a vontade de conceder incentivo fiscal para edificaçíµes que tenham algum bem artí­stico ou cultural exposto ao público, e a mudança de nomes de vias públicas “ como a Av.   Castelo Branco e a Av. do Riacho “ por outros nomes de significância local.

Foram elencadas por Cristiano outras construçíµes que são consideradas de valor histórico pela cidade, muito embora nem sempre nos demos conta de sua presença: são os exemplos do abrigo Popeye, bar centenário e singular que deve voltar a ser patrimí´nio da prefeitura em breve “ e localiza-se encravado em afloramento basáltico na Praia Grande – e a antiga guarita de salva-vidas, no calçadão também da Praia Grande. Os quiosques da beira-mar também seriam considerados patrimí´nio cultural do municí­pio, desde que contem com gastronomia local e agenda cultural, além de acessória técnica e capacitação.

Finalizando, o presidente da COMPHAC fez um apelo pela valorização e incentivo í s obras arquitetí´nica que tenham valor estético em nossa cidade, bem como pela legislação de medidas que evitem a poluição visual. Temos que cuidar de nossa cidade, discutir o excesso de publicidade em vias públicas e realizar a manutenção de nossas moradias “ pois toda propriedade particular tem um valor cultural e coletivo também, conclui Cristiano Evaristo Alves.

 

Casario do século XIX, na rua Julio de Castilhos: preservação do patrimí´nio em pauta

 

Dos Sambaquis a Ruy Ruben Ruschel

 

Para Rafael Frizzo, mestrando em história e acadêmico em antropologia, Torres tem pioneirismo na questão da arqueologia. Embasado em pesquisas realizadas por Ruy Ruben Ruschel “ historiador e neto do ilustre morador torrense José Picoral – o segundo palestrante da noite entrou na questão dos sí­tios de patrimí´nio imaterial do Litoral Norte, falando principalmente dos sambaquis “ depósitos de conchas pré-históricos onde eram sepultados os antigos povos indí­genas, e onde também encontram-se artefatos neolí­ticos.Muitos destes sambaquis foram destruí­dos pela ação humana intensiva e construção civil, e os poucos que ainda existem estão sendo catalogados e devem ser preservados. Rafael citou a Praia da Cal como um exemplo de patrimí´nio imaterial que perdemos: lá, as conchas que formavam o sambaqui eram queimadas em fornos para a extração da cal, utilizada para fazer argamassa e o rejunte de construçíµes. Haviam ainda sambaquis na Guarita “ destruí­do com a construção do parque –   e até na área onde hoje é o camelódromo. Segundo Ruschel, haviam cerca de 20 sí­tios arqueológicos do Mampituba ao Itapeva, enquanto hoje apenas um destes “ na Praia da Itapeva “ se mantém preservado .

O historiador verificou também que em Torres existiu o 1 º Museu Arqueológico do Brasil, a Casa de Balbino Luiz de Freitas, que por iniciativa própria coletava e colecionava artefatos indí­genas nos arredores de Torres, peças fundamentais para pesquisas que contam a história dos habitantes do municí­pio na época da sua formação. Rafael trouxe outros dados interessantes baseados nos estudos de Ruschel, que foi o primeiro a dizer que tem há quarta torre na cidade, localizada ao sul do parque da Itapeva e ainda desconhecida para muitos.

 

 

Foto do então jovem Rui Ruben Ruschel no sambaqui do Mampituba, em 1947  


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