iPod, fones de ouvido e as novas relações sociais

12 de dezembro de 2011

Por Guilherme Rocha*

     

O conceito do estéreo pessoal está no mercado há três décadas. Mas o iPod – o tocador de mp3 mais vendido do mundo – expandiu os limites da tecnologia original de forma antes inimaginável. Hoje em dia, quem não conhece os pequenos, portáteis e estilosos mp3 playes, que carregam centenas de música para onde quer que você queira?     Faz mais de dez anos desde que o iPod foi criado e popularizou a cultura do fone de ouvido. Devemos celebrá-lo? Ou será que o tocador de mp3 está nos tornando anti-sociais?

       

Quem usa transporte público (pelo menos em Porto Alegre) certamente reconhece a cena: í´nibus cheios de pessoas com fios saindo dos ouvidos. Para muitos é o jeito de escapar do barulhento caos urbano, uma forma de relaxar enquanto a guerra sonora do mundo exterior continua.   Corredores, ciclistas, até nadadores treinam com fones de ouvido. A música pode tornar o ambiente de trabalho menos maçante, dizem eles. E realmente, cada vez mais torna-se inegável a relação da música com o estado de espí­rito das pessoas. í‰ como

 

Por outro lado, as relaçíµes sociais entre as pessoas estão se tornando mais frias em ambientes públicos, os MP3 players individualizam mais as já atomizadas pessoas do mundo pós-moderno capitalista.

     

iPod: Um sucesso inspirador

   

Desde que a Apple lançou seu primeiro iPod, em outubro de 2001, com Steve Jobs propagando a possibilidade de ter  "mil músicas no seu bolso", a companhia já vendeu mais de 320 milhíµes destes aparelhos. Cerca de 70 % dos mp3 players vendidos no mundo são iPods (A maior marte das vendas nos EUA, é claro, o paraí­so da gastança). Inegavelmente um case de sucesso, baseado na simpatia, simplicidade e eficiência que o aparelho transmite. Por volta de 2007, mais da metade de todos os moradores de cidades usavam um tocador de mp3, de acordo com o escritor inglês Michael Bull, estudioso do impacto cultural dessa tecnologia sobre as sociedades urbanas.

 

O iPod chacoalhou a indústria da música e facilitou o caminho para que as pessoas pudessem carregar no bolso a trilha sonora predileta para qualquer momento do dia. Hoje, o aparelho deixou de estar associado apenas í  cultura jovem, expandiu seu mercado entre todas as geraçíµes. Pesquisas britânicas indicam que, quando as pessoas passam a usar um tocador de mp3, ouvem música durante o dobro do tempo que ouviam antes. Tarefas corriqueiras, estressantes ou maçantes do nosso dia-a-dia passaram a ter uma trilha sonora.

 

O player de música, certamente enriqueceu a vida de muitas pessoas, permitindo que escapem das afliçíµes diárias e acumulem uma maior bagagem musical.í‰ um grande alí­vio para as pessoas que estão a caminho do trabalho,da faculdade, esperando um í´nibus. Não existe nada como o MP3 player para levantar o astral, ouvindo as cançíµes preferias, criando uma trilha sonora para cada ambiente e momento. As afliçíµes diárias simplesmente são esquecidas enquanto estamos com o fones nos ouvidos." Pensa a estudante de direito Aline da Rosa Dias, 23 anos, de Porto Alegre.

     

Música portátil e fones de ouvido: criação brasileira

   

Nascido na Alemanha mas naturalizado brasileiro,  Andreas Pavel foi quem inventou, na década de 1970, o aparelho precursor do iPod de hoje. Foi em São Paulo, em 1972 que ele inventou o seu dispositivo, o stereobelt, primeiro reprodutor de áudio portátil e estéreo de fita cassete. Ele é tido como o pai espiritual do Walkman, e precursor da cultura do fone de ouvido.

 

Seu objetivo era libertar a música gravada dos toca-discos domésticos.Mas quando ele experimentou pela primeira vez seu protótipo,   uma combinação mágica de fonte de som e fone de ouvido" , ele sentiu algo transcendental."Foi como um sonho. í‰ o prazer da música combinado í  visão do seu ambiente. Você está colocando uma trilha sonora na sua vida e ela fica como um filme", disse Pavel ao site BBC.

 

De acordo com o inventor, naquele tempo muitos riram dele por querer andar por aí­ ouvindo música em fones de ouvido. E a Sony lhe disse que o protótipo era muito caro, nunca encontraria um mercado. Em 1979, no entanto, os espertinhos da Sony lançaram o Walkman, baseado na idéia do brasileiro inventor dos fones de ouvido. Em 2003, após 23 anos de negociaçíµes, os advogados da Sony chegaram a um acordo com Pavel. Fora do tribunal.

       Individualismo plugado  Quase onipresente (pelo menos entre aqueles jovens que tem condição de comprar um player de música), a cultura do fone de ouvido é muitas vezes associada a uma geração de jovens mimados, egoí­stas e desprovidos de valores cí­vicos (embora não se possa questionar toda a revolução cultural ocasionada pela presença dos players de mp3).   A grande preocupação em relação ao iPod é de que ele esteja tornando as pessoas anti-sociais. Não apenas por causa do som que vaza dos fones de ouvido, mas também pela barreira que o aparelho ergue entre seu usuário e as outras pessoas.Muitos jovens de hoje cresceram tão plugados aos fones de ouvido que já não sabem se relacionar bem com o ambiente que os cerca. "Eu não pararia uma pessoa usando aqueles fones de ouvido para perguntar que í´nibus pegar em uma parada. Para esta pessoa, o mp3 player é como se estar carregando uma placa que diz: ˜Não me incomode, estou no meu próprio mundo™. A presença de pessoas perto de você na rua não é mais reconhecida como uma forma de conví­vio social nos tempos de hoje. E trabalhando na biblioteca, vejo que esse sentimento de individualidade se espalha por outros momentos da vida também, e as pessoas conversam cada vez menos., indica o bibliotecário da UFRGS Fernando Jadori, 38 anos.As entrevistas de Michael Bull com usuários de iPods confirmam essa percepção. A maioria disse para escritor que se aborrece quando as pessoas os interrompem enquanto ouvem música. Muitos tem razíµes pessoais para se aborrecer í€s vezes me estresso mesmo, com gente que não respeita o momento de introspecção dos outros. Mas quase sempre sou bem educada. O que as pessoas não podem esperar que fiquemos de bom humor enquanto o mundo tem tantos problemas, tanta corrupção tanto barulho, indica a estudante de publicidade e propaganda da UFRGS, Letí­cia Benetti.    O impacto da tecnologia sobre a audição  Quando testados pelo INMETRO, descobriu-se que o volume da maioria dos aparelhos tocadores de MP3 alcança 100 decibéis, dez decibéis acima do ruí­do produzido por uma britadeira. Alguns alcançam 120 decibéis. Milhares de pessoas vão precisar de aparelhos de surdez quando chegarem aos 40 e 50 anos em vez dos 60 e 70, indica o especialista na cultura dos fones de ouvido, Michael BullParte do problema é que as pessoas ouvem música no transporte público, onde já existe muito ruí­do ambiente. A dica é usar fones que cobrem os ouvidos, pois bloquearão o ruí­do ambiente, o que significa que você não precisará ouvir a música tão alto.    Um sinal do consumismo individualizante  

Ainda assim, é certo que os mp3 players se encaixam nos nossos desejos modernos. Pode ser solitário e estressante viajar em espaços públicos, e a música trazem um calor í  experiência. O problema é que, enquanto o indiví­duo se sente aconchegado, a esfera pública fica mais fria e menos acolhedora.

 Mas não se pode culpar apenas os players de música pelo anti-socialismo pós-moderno. Aliás, levando para o lado polí­tico da coisa, fomos ensinados na escola (e na vida) sobre o antagonismo entre socialismo e capitalismo, e podemos levar essa percepção também no sentido etimológico. Nas relaçíµes entre as pessoas, o capitalismo selvagem dos nosso dias fechou os indiví­duos em suas próprias bolhas, adoradores de si mesmo e daquilo que podem comprar. O resto das pessoas que se exploda, desde que não mexam no meu umbigo, é um pensamento clássico.Este é um retrato do mundo em que vivemos, e certamente não foi o iPod que provocou esse estado de coisas, apenas reflete uma tendência.      *Com informaçíµes de BBC Brasil, Istoé e Wikipedia  


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