Mas que frio, hein?

11 de julho de 2011

 

Por Guilherme Rocha  

 

                      Falar sobre o frio geralmente é um dos principais tópicos pelas rodas de conversa por todo sul durante o inverno. Provavelmente por ser um assunto de fácil abordagem, onde cada um tem opinião formada, uma história para contar, experiências para trocar.   Não cabe uma réplica ao frio. Os chavíµes do tipo "E esse frio, hein?" ou "Tá um gelo, né?" são tão banais que muitas vezes viram referência para definir aquelas pessoas que não tem melhores assuntos para falar.   Mas, com os termí´metros marcando as baixí­ssimas temperaturas que temos visto, cachoeiras congelando na serra de Santa Catarina, expectativas de registro do maior frio dos últimos 10 anos, fica mesmo impossí­vel fugir deste assunto.

                      A massa de ar frio que se mantém na região Sul do paí­s levou mais de 30 cidades a registrarem temperaturas abaixo de zero nas madrugadas dos últimos dias. Os menores í­ndices foram registrados em Urubici, na Serra Catarinense, onde a mí­nima registrada chegou a -6,2 ºC. Em algumas cidades como Cambará do Sul, São Joaquim e Bom Jesus, a sensação térmica com o vento intenso passou dos 20 °C negativos. Apesar das baixas temperaturas, somente por um dia, em Gramado houve registro de neve no sul do paí­s, mas as geadas acabaram se tornando uma constante. Em Torres, o termí´metro na Barão da Rio Branco chegou a marcar -1 °C, situação nada usual por aqui.

 

 

                      E a onda de temperaturas negativas deve se manter pelo sul, pelo menos até o começo da semana que vêm. Mas o frio, ao seu gelado modo, torna mesmo as pessoas mais próximas. Pode ser com uma roda de chimarrão entre amigos, na frente da lareira alimentando o fogo, numa mesa comendo um sopão quente, ou num filme com aquela pessoa amada, enroscado em cobertores para se aquecer. Porém, como todo í´nus tem seu bí´nus, o tempo gelado traz também uma série de problemas, sobretudo para pessoas sem acesso a necessidades básicas como moradia, alimentação e saúde de qualidade. Hospitais ficam lotados, doenças se espalhando como água, a preguiça tomando conta do corpo. Tomar banho vira um grande desafio se o chuveiro não é bem quente, e levantar da cama cedo é uma tortura para muitos.

 

                        O bom (e o não tão bom) do frio

 

 

                          Para a aposentada de Torres Simone Rosa da Silva, 63 anos, o inverno gelado é uma boa oportunidade para uma roda de chimarrão ou pinhão, além de um tempo de repouso. "Ficamos mais aninhados durante o inverno, fazemos menos esforço fí­sico para não cansar demais. Também é uma estação onde temos que tomar mais cuidado com a saúde, por que são grandes os riscos de uma doença, principalmente quando somos pessoas   mais velhas" . Já para Rafaela Mallmann, de 37 anos, o lado ruim do frio é ter que acordar cedo e se obrigar a abandonar os cobertores. "Temos que usar muita roupa no inverno, que é algo que não gosto. Mas penso que, ao mesmo tempo, as pessoas se vestem de forma mais elegante quando está mais gelado, e ainda podemos curtir uma boa lareira com um vinho para se aconchegar", destaca.  

                      Para alguns setores do comércio aqui em Torres, os dias gelados têm sido quentes em relação í s vendas. Na loja Manlec, artigos como aquecedores a óleo, ar-condicionado, estufas e fogíµes a lenha vem incentivando os friorentos para as compras. "O frio tem sido bom para as vendas destes produtos, que chegam a ser 20% maiores em função ao ano passado", indica Lucioni Raupp, consultor da Manlec. Luciano diz que prefere os dias de verão ao inverno, indicando que a melhor parte do inverno é mesmo dormir, aproveitar as cobertas por mais tempo.    

                         E o cobertor é, por sinal, um dos produtos com maior saí­da na Casa São Paulo durante o inverno rigoroso. "Trata-se de um bom momento para a venda daqueles produtos com valor agregado, como edredons, casacos, vestuário para o frio no geral. Tivemos um crescimento significativo nas vendas neste ano, apesar da suposta crise que ronda o comércio brasileiro", destaca o gerente da Casa São Paulo, Gilmar Azevedo. Uma curiosidade interessante, de acordo com o gerente, é a vendagem muito grande das ceroulas, o famoso cuecão, que vem derrotando a fama de cafona incentivado pelo frio glacial dos últimos dias. Geraldo diz gostar do tempo gelado, que torna os ambientes mais aconchegantes. "No inverno a gente fica mais próximos das pessoas que gosta, é só achar uma boa forma de se aquecer, como uma lareira acompanhada de um vinho tinto", finaliza.

   

                      Surf glacial

 

 

 

 

 

 

   

                      Outra coisa que parece loucura nesses tempos de frio quase polar em Torres é a prática do surf. Fica mesmo muito difí­cil criar coragem para encarar o mar gelado, quando se sabe que a sensação térmica será tão baixa que os ossos vão dar a impressão de estarem congelados. Mesmo assim, na manha da última quarta-feira, quando os termí´metros marcavam 08 °C e previsíµes de que a água do mar iria estar por volta dos 11 °C, fomos loucos o suficientes para enfrentar os extremos do inverno gaúcho em nome do surf. Fomos eu, Gustavo, Viní­cius e Juliano (todos bodyboarders) para o meio do Rio Mampituba, único lugar onde percebemos quebrar uma onda um pouco melhor no dia. O frio era tão intenso que parecia queimar as mãos e os pés, o primeiro mergulho foi algo como afundar a cabeça numa caixa de isopor cheio de gelo. Alguns pequenos tubos suicidas e uma formação boa faziam a sessão valer í  pena. Mas depois de algum tempo tinha a impressão que o sangue já não circulava pelas minhas mãos, meu rosto estava meio que paralisado. Minha velha roupa de borracha, com mais furos que uma peneira, não ajudava muito na função de aquecer o corpo, e passada cerca de uma hora desde que haví­amos entrado no mar, decidimos que passar frio tem um limite e remamos para a terra firme.

                        A manhã de surf foi realmente um congelante exercí­cio de resistência. Assim como eu, Juliano usava um long antigo, e diz que entrar no mar com tanto frio é um desafio para poucos. "Tem que ter muito gostar muito do surf, ser muito guerreiro para encarar uma água dessas. Mas ainda assim cair no mar sempre vale í  pena. Vinicius usava uma roupa de borracha vedada, desenvolvida para manter o corpo aquecido ao máximo, mas mesmo assim explica que é impossí­vel não sentir muito frio. "No final das contas a água sempre encontra algum jeito de passar pelo long, mesmo ele sendo vedado. O jeito para não congelar é não parar de remar, manter o corpo em movimento". Gustavo concorda que o tempo gelado torna do surf um desafio, mas finaliza com uma mensagem "Eu amo o bodyboard, não interessa se está quente ou frio. O importante é aproveitar ao máximo as ondas, não parar de surfar nunca".  

 


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