MATí‰RIA ESPECIAL – O crescimento na venda de livros e reflexões sobre o hábito de ler em Torres

13 de setembro de 2011

 

Darcia: Melhoras nas vendas

 

 

Por Guilherme Rocha                      

 

                      Um levantamento divulgado pela CBL (Câmara Brasileira do Livro), feito em 455 livrarias de todo paí­s, mostra que as vendas do setor cresceram 9,6% em 2010 em relação ao ano anterior, refletindo a expansão da economia nacional. Destaque para a área infanto-juvenil, que lidera o ranking em termos de crescimento de vendas no ano passado. Do total de 12 mil tí­tulos novos lançados no paí­s em 2010, cerca de 2,5 mil foram direcionados a crianças e adolescentes.   Entretanto, em uma prova do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Brasil obteve apenas o 53 º lugar, dentre 65 paí­ses, na lista que avaliou a capacidade de leitura de estudantes com até 15 anos. No ranking, que é liderado pela China, nosso paí­s fica atrás de Chile (44 º), Uruguai (47 º), Trinidad e Tobago (51 º) e Colí´mbia (52 º). Cerca de 39% dos estudantes brasileiros declararam possuir, no máximo, dez obras literárias: somos o paí­s onde as crianças têm menos livros em casa. Mas, dentre informaçíµes tão contrastantes, o que será que vêm realmente acontecendo tanto com o livro quanto com o leitor em Torres?

   

                Um lado de expectativas…

   

                      De acordo com a proprietária da Super Livros,  aqui em Torres, Dárcia Laurette dos Santos, o movimento em sua livraria nunca esteve tão grande. "Já venho vendendo livros há algum tempo aqui em Torres, e percebo que o movimento tem aumentado significativamente nos últimos tempos, sempre crescendo. A população da cidade parece estar lendo mais, principalmente os jovens, e isso se deve em parte ao incentivo í  leitura que as escolas vêm prestando aos alunos. Venho participando da divulgação da Feira do Livro e, quando visito os colégios, tanto público quanto privados, sou informada de vários projetos criativos de interação entre livros, músicas e ví­deos, que são organizados pelos próprios alunos . E misturando diversão com conhecimento pelas obras, vai começando a se criar o gosto pela leitura". Dárcia ressalta a importância que livros de séries como Harry Potter e Crepúsculo vêm tendo no estí­mulo ao hábito de ler para os mais jovens. "Se a pessoa quer começar a tomar gosto pela leitura, é mais fácil que isso ocorra quando ela lê algo que seja do seu gosto, que seja um prazer ao invés de uma obrigação. E estas sagas adolescentes vêm cumprindo um papel de iniciação ao mundo dos livros para muitos jovens, com mundos mágicos e situaçíµes envolventes que atraem adolescentes e abrem as portas para leituras mais complexas".  

                      Na Super Livros, destacam-se, entre os livros mais vendidos, aqueles voltados para o público infantil ou assuntos relacionados ao espiritismo e reflexão. "Muitas pessoas hoje em dia vem procurando respostas nos livros, uma forma de se entenderem melhor e resolverem seus problemas internos. Por isso, a procura por estas leituras que trabalham com um lado mais espiritual vêm crescendo bastante. Já o aumento na seçíµo infantil demonstra que os pais vêm dando maior atenção ao desenvolvimento do hábito de ler de seus filhos, ao mesmo tempo que percebe-se uma maior curiosidade da criança. Como os livros infantis tornaram-se mais atrativos, misturando aprendizado com diversão, as crianças relacionam a leitura com o lazer, ao invés de pensar se tratar de uma tarefa". indica Dárcia. Porém, a livreira entende que as pessoas com menor poder aquisitivo ainda estão bem mais distantes da leitura. "As classes com mais renda são os maiores compradores de livros, em decorrência tanto da falta de um maior incentivo da famí­lia pela leitura quanto aos altos preços das obras mais vendidas. Mas eventualmente são lançadas ediçíµes de livros de sucesso com preços mais acessí­veis, as vezes até pela metade do preço, e isto incentiva as classes populares a adquirirem aqueles que muitas vezes são seus primeiros livros".  

                      Dárcia também falou sobre a importância do gosto das pessoas por  mais leituras.  "A literatura em geral deve ser algo que inspire o leitor a crescer intelectualmente, a perceber o mundo por diferentes pontos de vista. Ao mesmo tempo, deve ser encarada como uma forma de lazer, uma atividade prazerosa,  que simultaneamente promove uma evolução do indiví­duo". Finalizando, a livreira expressou sua esperança quanto a idéia de Torres se tornar uma referência regional em literatura.   "Quando visitei a Feira do Livro de Passo Fundo, vi uma cidade que respira literatura, em um evento que foi responsável por mobilizar quase 300 mil pessoas. Torres poderia seguir um caminho semelhante, somos uma cidade que tem um grande gosto pela leitura, talvez em função da tranquilidade de cidade pequena e inspiração pela proximidade com o mar que é oferecida. Assim fica mais fácil as pessoas encontrarem no livro também uma forma para relaxar".

 

   

                … e outro de contrastes

 

 

 

   

Servidoras da biblioteca apontam diminuição da leitura

     

                      Apesar do quadro positivo na venda de livros, conversar com alguns jovens do ensino público sobre literatura pode ser uma tarefa um tanto complicada. Falei com três garotos da Escola Jorge Lacerda sobre seu envolvimento com os livros. O primeiro deles, Gilvan, 13 anos, diz que o nunca comprou um livro, e que seu maior contato com a leitura se dá a partir da escola. "Acho importante ler, só que não tenho paciência, prefiro jogar video-game ou   futebol. Livro mesmo só abro na aula ou em casa quando tenho que fazer algum trabalho". Já Kauã, 12 anos, explica que nunca teve incentivo dos pais para ler. "Meus pais nunca foram muito de ler, na verdade, só compravam jornal de vez em quando. Talvez por isso eu não seja muito chegado em ler também, só gosto mesmo de  revista em quadrinhos". O último dos meninos, Tales, também 12 anos,  tem uma visão mais profunda da questão. "Acho que a internet vem tirando a atenção dos livros, pois no computador posso achar exatamente as coisas que quero aprender. Mas também gosto de ler livros de vez em quando, gostei bastante daquele Crepúsculo".  

                      As bibliotecas no passado eram o berço da cultura das cidades, amparadas pelo seu acervo de livros para pesquisas, lazer e estudos. Mas na era digital, muito deste antigo romantismo vem rapidamente se esvaindo, de acordo com a funcionária da Biblioteca Municipal de Torres, Margarete Quadros. "O movimento da biblioteca reduziu sensivelmente nos últimos anos. Acho que isso provavelmente acontece por conta da internet, que com todo o seu conteúdo tirou a atenção das pessoas para os livros, principalmente os mais jovens". Segundo Margarete, o público principal da biblioteca se configura, atualmente, em pessoas com mais de 30 anos e aposentados.   "As pessoas não têm muito tempo para ler também por causa da rotina atribulada do dia-a-dia, a paciência reduz. Já os aposentados têm mais tempo ocioso para aproveitar, e para eles a biblioteca é um lugar interessante. O legal é que os avós trazem os netos para cá, e assim incentivam a leitura dos mais jovens".

                         Já í‚ngela Maria, também funcionária da biblioteca, indica que falta uma vivência maior dos jovens com os livros, o que ocorre muito em função do pouco incentivo dos pais. "Se a criança nunca viu os pais com um livro aberto, não irá criar da mesma forma a mentalidade de que a leitura é um hábito importante. Ler é uma forma de ampliar os conhecimentos sobre o mundo, adquirir cultura. Trabalhei por anos em colégios públicos e privados, sei que a escola tem papel importante neste processo, mas os alunos têm que ter o prazer pela leitura, ao invés de considerar uma tarefa. E esse prazer se desenvolve com a famí­lia". í‚ngela ainda sinaliza a importância da internet para a educação nos dias de hoje, e lamenta a falta de computadores ligados í  rede na biblioteca. "A verdade é que, em meio a todas mudanças culturais que temos visto, a internet democratiza o acesso a informação. Por isso é importante que hajam computadores com acesso í  rede aqui na biblioteca. Muitos dos usuários já vem pedindo por essa facilidade, principalmente para os mais pobres, que ainda não tem internet disponí­vel", finaliza.

 


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