EDITORIAL – Moral hipócrita
15 de outubro de 2010
í‰ de se lamentar que a questão da descriminalização do aborto tenha virado um dos temas mais importantes dos bastidores desta campanha para presidente. A hipocrisia tomou conta dos horários eleitorais e de espaços na imprensa de colunistas que defendem, por um lado, a candidatura de Dilma Rousseff (PT), e por outro a candidatura de José Serra (PSDB). Além das mensagens aní´nimas recebidas em e-mails por nós, simples viventes, que chegam a fazer com que nos questionemos sobre o verdadeiro conceito que temos em nossas redes de contato, tal o exagero dos conteúdos, criticando ambos os lados do pleito com estórias mal contadas sobre estórias muito mais mal contadas ainda. E agora a questão das privatizaçíµes também entra no cenário político e começa a dominar as perguntas, respostas e justificativas de ambos os lados, e os e-mails de campanha de bastidor também, é claro. Privatizar virou crime no Brasil como o aborto é colocado como a possibilidade das mulheres brasileiras realizá-los após a legalização com a freqí¼ência que as mesmas vão ao salão de beleza cortar suas unhas.
As duas coisas polêmicas (Legalização do aborto e privatização) não podem ser feitas sem antes passarem pelo congresso e sofrerem consequentemente críticas e elogios após serem colocadas publicamente pela imprensa. Portanto, a candidata Dilma, se for presidente, não poderá como alguns adversários propíµem abrir uma rede de clínicas de aborto, sequer o candidato Serra poderá vender o país aos EUA com a população e tudo como sugerem correntes contra o PSDB somente com um canetaço.
O aborto permitido nunca será feito como se pudesse ser um procedimento ambulatorial e onde a mulher possa escolher quantos abortos irá fazer antes de iniciar a tomar pílula ou utilizar camisinha. Certamente, se a intervenção médica for discutida e aprovada um dia, será restrita í s questíµes pontuais e certamente diminuirá os riscos que correm as mulheres (principalmente as pobres) quando fazem abortos clandestinos e com pessoas de ética questionável.
As privatizaçíµes também não são bichos de sete cabeças. Se forem discutidas e aprovadas lá na frente outras, como já houve no Brasil nas telecomunicaçíµes, em setores da extração mineral, dentre outros, o país não perderá nunca o patrimí´nio que é seu. Perderá somente a gestão da extração ou investimentos do setor. E em troca receberá (como sempre recebeu) quantias polpudas de bilhíµes de dólares que podem ser investidas em Educação, Saúde e Infraestrutura, por exemplo, setores carentes em alto grau no Brasil. Privatizar a Petrobrás não é abrir mão dos recursos do pré- sal como provoca a candidata Dilma e o PT irresponsavelmente. O país continuará recebendo cotas altas sobre a retirada de petróleo de nossa área e ainda, se vender a Estatal, receberá dinheiro do exterior para investir, por exemplo, em energias alternativas ou na infraestrutura de esgoto sanitário, que atualmente serve somente metade das casas brasileiras urbanas.
Mas a hipocrisia domina a campanha para presidente. Aborto legalizado não é um bicho de sete cabeças, mas a petista insiste que é contra falar no assunto como se fosse, sim, um bicho de sete cabeças e vai í missa cantar oraçíµes católicas apostólicas romanas. Privatização também não é um filme de terror como é colocado pelos arautos do aumento da estatização das empresas no país alegando soberania (como se para ser boa a agricultura também tivesse de ser estatizada). Mas Serra fala de privatização como se fosse um monstro que passa longe de qualquer plano em seus horizontes para o Brasil, o que se sabe que é exagero.
A sociedade é a que mais sofre com isto. Pelo nível das campanhas, irá definir seu presidente para os próximos quatro anos como o candidato que for menos parecido com o Diabo. E as propostas sérias e de Estado, onde a legalização do aborto e a estatização de empresas públicas poderiam fazer parte de soluçíµes para problemas maiores, não entram em debate. A única coisa certa que o brasileiro pode contar para o próximo governo é a continuidade da alta carga tributária atual e a continuidade do aumento das despesas públicas acima da possibilidade. Estes assuntos não são sequer citados, numa triste constatação do baixo nível de debates que as duas agremiaçíµes que concorrem ao pleito que definirá quem gerenciará nossa nação nos próximos quatro anos levam í tona para serem vistas pela sociedade.


