O amor a si mesmo éegoí­smo?

18 de dezembro de 2010

Crescemos ouvindo de todos, pais, mestres, religiosos, que não devemos ser egoí­stas, querendo com isto passar a idéia de que gostar muito de nós mesmos é prejudicial e indesejável. As religiíµes, algumas, têm como máxima a orientação de amor ao próximo. O Cristianismo, repetindo com outras palavras o que já nos ensinara Buda, nos manda amar ao próximo tanto quanto a nós mesmos.  

 Há, nas colocaçíµes acima, o equí­voco de confundir o amor a si mesmo como o egoí­smo.   Algum grau de egoí­smo é inevitável em todos nós, visto que, como salientou Freud, é parte essencial do instinto de autopreservação de todas as espécies, a humana entre elas. Ou seja, ter cuidados consigo próprio, defender seus limites, necessidades legí­timos, é normal e desejável. A questão é quando se extrapola os limites dessa normalidade e se passa a ter comportamentos egoí­stas no sentido doentio, de atender interesses próprios a qualquer preço.  

 Não é fácil estabelecer esse limite com precisão. O que caracterizaria o egoí­smo doentio e nocivo seria seu componente arbitrário, isto é, o indiví­duo se apropriaria de mais direitos que os outros e, por conseguinte, não os respeitaria, acreditando ser natural que o mundo girasse em torno de si e para si, lhe servindo. O comportamento egoí­sta tem muito mais a ver com uma torturante sensação de insegurança e fragilidade interior. Somente aqueles interiormente bem estruturados, como uma riqueza de afetos conseguem, de fato, serem gentis e desprendidos.    

O egoí­smo relaciona-se diretamente com a imaturidade emocional, assemelha-se ao comportamento da criancinha, que vê e sente que a vida e os outros devem existir em função dela, mas este comportamento é normal nesta fase egocêntrica da criança, é esperado   que assim seja, e entende-se como   uma conduta própria desta etapa da vida e que é transitória, até pelo fato da criança ser dependente dos adultos. A sensação de que nossa sobrevivência depende do meio externo nos confere uma insegurança e medo, que exigirá para nosso equilí­brio e bem estar, um constante reasseguramento de que os outros e o mundo estão a nossa disposição e que sobre eles podemos ter controle. Por isso vemos comportamento de birra, teimosia, choro, contrariedade nas crianças em geral. Ou seja, o comportamento egoí­sta que todos apresentamos enquanto criança pequena faz parte do processo normal de crescimento e amadurecimento do ser humano.  

 í€ medida que vamos crescendo,   nos fortalecendo   e criando uma boa imagem de nós mesmos, menos importante será para nós o reforço exterior e, por conseguinte, maior será nossa independência da opinião e da influência das outras pessoas. Estaremos nos aproximando, assim, do espí­rito livre de que nos falava o filósofo Nietzsche. Quando se está em paz consigo mesmo, quando nos gostamos de fato como somos, sem necessidade de máscaras e representaçíµes, somos tomados de um espontâneo e natural impulso de doação e amor pelas pessoas e pela vida, mas de um jeito gratuito, sem intenção de fazer isto para parecer bonito na foto, para agradar ou esperando recompensa e reconhecimento. í‰ o contrário: o extravasamento para os outros do amor que tenho por mim mesmo, em que sinto prazer em me doar.   í‰ esse processo de libertação que constitui, de fato,  nosso crescimento como ser humano e configura o sentido da trajetória de nossa existência.


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