Maria Helena Tomé Gonçalves
Inicio transcrevendo trecho do Fabrício Carpinejar, jovem e talentoso escritor gaúcho, que disse: O que me faz gostar de uma cidade são as pessoas. A amizade é o ponto turístico que resiste ao tempo. Minha vontade de conhecer mais as praças, os bares e restaurantes depende de alguém emocionado com sua rotina. Lugarejos ficam atraentes com o entusiasmo de seus moradores. Nem requer grandes monumentos, nem façanhas arquitetí´nicas … mas o cuidado com as singelezas maravilhosas de seu bairro. … quando o morador valoriza as quadras de seu mundo e tem interesse em mostrar onde é o minimercado em que compra suas urgências, a cafeteria que cura sua ressaca, a floricultura que devolve sua esperança no amor. A generosidade torna qualquer local agradável e repíµe a gana de voltar. Carisma de garçons salva restaurantes. Simpatia de manicures salva salíµes. Paciência de atendentes salva lojas. Não há maior educação do que a alegria.
Grande aula do Fabrício. O entusiasmo dos moradores pelo lugar onde moram, seja por natividade, seja por opção, é a grande chave para o sucesso do local. Falar bem das coisas boas da nossa cidade contribui para torná-la atraente para quem nos escuta. Gosto de descrever a Guarita, as falésias, as furnas. Adoro falar do Morro do Farol e das cores fantásticas do mar em dias de sol forte e de amanheceres suaves. Quando busco nossa neta no CIESC paro para apreciar uma vista incrível da Lagoa do Violão sob a luz dourada do entardecer quando o sol vai se escondendo mansinho atrás da cortinas lilases das montanhas do último resquício da Serra do Mar. Há um caminho encantado entre a Prainha e a Cal, onde uma santa é venerada em sua pequena gruta escavada na rocha (agora ameaçado de interdição pelo risco da queda de pedras), mas que certamente vai continuar sendo feito, pés descalços na areia fina da praia a sentir a gostosura do frescor da água batendo na canela quando a onda vem mansa e sorrateira lamber nossos pés. Amo percorrer o contorno da Lagoa, andar toda a extensão da Praia Grande, sentar sobre uma rocha í beira dos molhes do Mampituba e espiar com olho comprido os botos que vem brincar com os tarrafeiros dos dois lados da fronteira. Há no centro da cidade uma praça encantada, o coração de Torres, feita í moda antiga para corresponder ao seu nome: XV de Novembro (de 1889), em cujo centro há um coreto onde antigamente um grupo de senhores tocava serestas de amor em cavaquinhos, bandolins e pandeiros. Ainda não desisti de ver ali um piano de cauda e um(a) apaixonado(a) pianista dedilhar seu teclado, olhos fechados para mais intensamente viver todos os sons exalados do instrumento antigo.
Gosto também dos espaços criados pelos homens. Impossível falar da Praça XV sem o café da Zenair, sem o sorvete da Gela Goela, sem as ropitchas especialíssimas para as gordinhas trazidas pela Trama, sem o perfume gostoso do Boticário, sem as maravilhas para decorar a casa da Atualittá, sem a classe dos vestidos de festa da Status Arte, sem as novas e incrementadas lojinhas do entorno, que graças a arquitetos e decoradores estão sendo criadas com bom gosto e modernidade. Mas nem por isso, sou cega para as feiúras e grosserias que agridem e machucam a beleza natural da nossa cidade. Essas também precisam sim ser faladas, anotadas, apontadas, denunciadas. A falta de consciência cívica, empresarial e administrativa precisa, por força da palavra, ser extirpada em toda a sua cruel dimensão.


