O dilema das galerias vazias

1 de novembro de 2011

 

 Por Guilherme Rocha

   

Há 10 anos, o comerciante torrense sabia que, com a chegada do veraneio, viriam os argentinos com seus bolsos recheados de pesos para gastar e os veranistas com poder aquisitivo altos, que permaneciam por meses consumindo em nossa cidade. Em meio a esta situação, as lojas localizadas dentro das galerias do Shopping Dunas e Top Torres Shopping entravam no embalo e lucravam durante a temporada de maior movimento. Alguns anos depois um novo empreendimento, o Itália Shopping, surgia na Julio de Castilhos para fortalecer o conceito de galerias na nossa cidade. Porém, um panorama diferente se desenhou para estas galerias.

 

Os argentinos nunca mais gastaram como antes, após a crise que assolou o paí­s em 2001-2002, e muitos veranistas debandaram de Torres para a praia da moda, Atlântida, ou também para Santa Catarina. Já o torrense passou a valorizar mais sua cidade, achou novas alternativas para quebrar a dependência pelos veranistas e argentinos, e viu o centro se fortalecer com um comércio que já caminha com as próprias pernas, estimulado pelo próprio torrense. Mas a mesma autonomia, infelizmente, não se reflete nas galerias da Rua Julio de Castilhos.

   

Dez anos passados e muitas diferenças

 

 

 

 

 

Classico’s Bar, no Top Torres Shopping

     

No Top Torres Shopping, na Rua Julio de Castilhos, vê-se pouca gente passando, o que faz sentido já que a grande maioria dos espaços comerciais está fechado. Dentre os estabelecimentos resistentes, que permanecem durante o inverno, destaca-se o Clássico™s Bar, gerenciado por Fernanda Vedoy. O movimento durante o inverno diminui bastante, mas não dá para reclamar do verão, quando os clientes enchem o estabelecimento. Nossa filosofia é vender bastante por um preço acessí­vel, preservamos a idéia do long food, uma comida caseira e prática ao mesmo tempo. O importante para manter um bom fluxo de clientes é inovar sempre, apresentar novos pratos e cafés que sejam atrativos, tanto pelo preço quanto pela qualidade, e acreditar que o boca a boca traga mais gente ao nosso bar.

 

Há 10 anos, o perfil do Top Torres Shopping era diferente, com um comércio que vendia bem para argentinos e veranistas durante o verão, e mantinha o embalo com as lojas abertas no inverno. A proprietária do Clássico™s Bar acredita que, hoje em dia, diferentemente do passado, as pessoas que mais freqí¼entam a galeria são turistas eventuais, que vêm do interior do Rio Grande do Sul buscando conhecer Torres no verão, mas não compram muito. Neste ponto, enquanto o comércio se sente desprestigiado, os bares e restaurantes aumentam seu movimento. Pois o turista pode até não comprar, mas precisa comer.  No último verão houve grande presença de turistas do interior do estado, e os argentinos também vieram, mas não em grande quantidade. Acho que a economia mudou nos últimos anos, as pessoas que antes eram pobres entraram na classe média e estão consumindo mais, viajando mais. Mas com a inflação tão alta os preços disparam, daí­ quem vender mais barato consegue se destacar, ter uma maior rotatividade. í‰ o que buscamos fazer aqui, analisa Fernanda.

 

                      Durante o verão o panorama do Top Torres Shopping provavelmente será diferente, a maioria das lojas (senão todas) estará alugada. Mas a história conta que grande parte destes estabelecimentos é formada por aventureiros, esperançosos pelo dinheiro extra decorrente do verão, e que vão embora sem deixar vestí­gios no final da temporada (ou até antes disso).  Tudo bem que esta é uma realidade natural em uma cidade sazonal como Torres, mas a verdade é que este comércio cigano das galerias vem enfrentando cada vez mais dificuldades para captar a clientela.  A infra-estrutura de Torres tem que crescer para atrair mais turistas para cá, fazer com que eles se sintam a vontade. E não dá mais para ficar sonhando que os argentinos vão vir e consumir um monte, o pessoal do comércio tem que entender que as coisas mudam finaliza a proprietária do Clássico™s Bar.

 

                 

Falta uma loja âncora para atrair o público

   

                      No Itália Shopping, o sentimento de desolação se repete. Por mais que se trate de um local agradável e desenvolvido, uma versão em miniatura dos shoppings de grandes cidades, apenas seis das quase 30 lojas estão ocupadas. í‰ uma tristeza ver essas ruas de cima tão abandonadas, parece que não há interesse das pessoas de passar por aqui, o comércio se concentra muito no centro. O Itália Shopping, por exemplo, é um espaço bonito, confortável, moderno, mas pouquí­ssimas lojas estão instaladas aqui durante o inverno. O bar era quem atraia mais gente, mas agora fechou também, tá para vender lamenta a auxiliar de limpeza e faz-tudo da galeria, Joseane Santos, uma das poucas pessoa que encontrei quando visitei o local.

 

                      Joseane afirma que, na temporada de veraneio, são os caxienses que mais tem circulado (e consumido) no Itália Shopping. Ela também revela uma queixa feita por muitos proprietários de lojas na galeria durante o último verão.  O pessoal tem dito que, ainda que o fluxo de visitantes ao shopping seja grande, esses visitantes aparecem mais para ver as vitrines das lojas do que para comprar. Lá embaixo o movimento é maior, o pessoal daqui da cidade parece mais a vontade comprando no centro, e as lojas são importantes também. Eu acho que é isso que falta para que as galerias da Julio de Castilhos tenham destaque, uma loja âncora de peso, como a Renner ou o Mcdonalds, que traga o público para cá e faça com que as galerias tenham um atrativo diferenciado, analisa a faz-tudo do Itália Shopping.

   

                Infraestrutura para fortalecer o municí­pio      

     

                      Secretário de Turismo, Comércio e Indústria de Torres, Roniel Lummertz tem em seu currí­culo a experiência de muitas temporadas de veraneio, e destaca que o perfil do turista torrense vem mudando.   O turista da nossa cidade está se tornando um público com maior poder aquisitivo, como podemos inferir pela grande quantidade de empreendimentos imobiliários de classe que estão sendo desenvolvidos e vendidos. Estamos deixando de ser uma cidade voltada para o turismo de massas e nos direcionando para um público mais seleto, que consuma mais e traga bons negócios para Torres. Ele ressalta ainda que, para que o movimento nas lojas das ruas José Picoral e Julio de Castilhos seja maior, é necessário que os próprios empreendedores criem diferenciais e busquem compreendam o seu público. Deve haver um maior envolvimento dos moradores e donos de estabelecimentos comerciais para que haja uma revitalização do centro histórico, pois a partir da inovação é possí­vel criar-se novos nichos comerciais que atraiam o turista.

                        Roniel também compartilha a idéia de que uma loja âncora de renome seria um importante chamariz para as galerias comerciais de Torres, e indica a importância de investimentos públicos para que isso aconteça.   Torres já vêm atraindo franquias de grandes redes como as lojas Herval, Pompéia e a livraria Nobel, mas o interesse de se estabelecer aqui deve partir da própria empresa. A prefeitura também vem fazendo sua parte, a partir de obras de infra-estrutura como a revitalização das praças, calçamento de vias públicas e a nova orla da Beira Mar, investimentos que tornarão nossa cidade um local mais agradável e bonito tanto para o turista quanto para o investidor.      

                O torrense mais orgulhoso de sua cidade

       

                      Com um movimento bem maior que o visto nas galerias da Rua Júlio de Castilhos, o centro da cidade é o local que vêm ganhando destaque comercial e se valorizando ano a ano em Torres. í‰ o que revela Juarez Espí­ndola, proprietário da Espí­ndola Imóveis. Os imóveis comerciais localizados entre a Avenida Barão do Rio Branco e a Rua José Bonifácio possuem uma procura muito grande, estão quase todos locados, e os poucos espaços disponí­veis são raros e valorizados. Trata-se de uma estatí­stica que prova um maior orgulho do morador com a própria cidade, está se entendendo que Torres não deve ser boa apenas para o turista, mas principalmente para os torrenses.

 

                        Juarez também ressalta que, mesmo com as dificuldades das lojas em permanecerem abertas durante o ano, os imóveis comerciais das ruas José Picoral e Julio de Castilhos devem estar em sua grande maioria alugados para a temporada de veraneio. Torres está se desenvolvendo e os turistas irão encher a cidade mais uma vez durante o verão, portanto as expectativas são de que a grande maioria das lojas seja alugada, tanto no centro quanto aqui em cima. Quanto í  questão das galerias, acredito que elas ainda dependam muito do turista, mas deveriam tentar criar atrativos também para a população torrense, que está comprando bastante, finaliza o proprietário da Espí­ndola Imóveis.                                          


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