Por Guile Rocha*
No último domingo (01), um jogo de futebol simbolizou tempos de trégua e festa em uma Espanha que, nos últimos meses, não tem tido muito a que comemorar. A conquista da Eurocopa pela segunda vez consecutiva, no último domingo (01) deu novo ânimo ao orgulho espanhol, gravemente ferido pela crise que assola a Europa.
A Fúria Espanhola: imbatível no futebol
A seleção espanhola goleou a Itália por 4 x 0 no último domingo, em Kiev, tornando-se a primeira seleção europeia a conquistar dois títulos continentais consecutivos. Além disso, em 2010 o time venceu também a Copa do Mundo da ífrica do Sul. O caminho espanhol para a Copa no Brasil começa em setembro, mas independentemente disso, os espanhóis já têm lugar assegurado em um a Copa das Confederaçíµes, em 2013.
David Silva e Jordi Alba, com gols no primeiro tempo, e Fernando Torres e Juan Mata, que saíram do banco e balançaram a rede na etapa final, foram os responsáveis por construir o placar. Apesar de não estar em sua melhor fase, Fernando Torres foi um dos seis artilheiros da competição, com três gols.
Pela terceira vez seguida, um brasileiro naturalizado disputou a final da Euro. Depois de Deco por Portugal em 2004 e Marcos Senna pela Espanha em 2008, a Itália teve Thiago Motta neste domingo, mas por apenas três minutos (Motta saiu lesionado). E sua Itália, campeã da Euro-1968, não teve chances contra a força da Fúria, como é conhecida a seleção espanhola.
Em entrevista coletiva após o título da Eurocopa, o técnico espanhol Vicente sp Bosque prestou homenagem ao seu antecessor, Luis Aragonés, que montou o time campeão europeu de 2008. Seguimos o caminho estabelecido por Aragonés, e agora temos novos objetivos nas eliminatórias da Copa, e depois na Copa das Confederaçíµes. Queremos fazer uma boa exibição lá. Del Bosque, de 61 anos, é apenas o segundo técnico a conseguir vencer a Copa do Mundo e a Eurocopa. Além dele, Helmut Schoen obteve a proeza com a Alemanha Ocidental, na década de 1970.
Um dos principais nomes no consagrado esquema espanhol é Xavi, e o meia do Barcelona mostrou seu valor na final contra a Itália, dando os passes para dois gols, depois de atuaçíµes apagadas em jogos anteriores. O jogador, que terá 34 anos na Copa de 2014, afirmou que estaria disponível para continuar jogando pela sua seleção, caso esteja em boas condiçíµes físicas. Estou me sentindo bem por estar aqui, afirmou a jornalistas. Vou conversar com o treinador, mas basicamente, sim, vamos ver.
Qualquer equipe que deseja desafiar a hegemonia espanhola terá de descobrir como furar sua sólida defesa, e ao mesmo tempo resistir aos seus impetuosos ataques. A Espanha, 1 ª colocada no ranking de seleçíµes da FIFA, segue invicta nos seus dez últimos jogos eliminatórios pela Eurocopa e a Copa do Mundo, e o goleiro Iker Casillas não levou nenhum gol nos últimos 12 jogos pela seleção.
Tempos de festa (e trégua na crise)
Com a goleada por 4 a 0 sobre a Itália, a Espanha parece ter esquecido, pelo menos por ora, o índice de desemprego alarmante e outros efeitos devastadores da turbulência dos mercados. No domingo (01) pela noite, as principais avenidas da capital, Madri, foram invadidas por multidíµes vestidas de vermelho e amarelo, as cores da bandeira espanhola. O público não só bloqueou o tráfego de veículos, como promoveu um buzinaço que durou horas. As comemoraçíµes vararam a madrugada e, ainda pela manhã, ouvia-se o barulho das buzinas dos que continuavam festejando a vitória.
Na segunda-feira (02), os principais jornais da capital espanhola trouxeram matérias ou artigos falando exatamente do poder dessa vitória sobre o estado de espírito da população. O El Mundo publicou um artigo dizendo que a seleção espanhola era o espelho para o qual olhava toda a nação, que quer se parecer com ela.
O diário esportivo Marca foi além, com a manchete A Espanha e ninguém mais, referindo-se ao fato de que nenhuma outra seleção ganhou por duas vezes consecutivas a Eurocopa junto com uma Copa do Mundo (2010). Já o jornal ABC, teve como manchete Espanha invencível.
Economia vacilante e grande desemprego na Espanha
Mas apesar do êxtase contagiante, a vida na Espanha continua difícil para muitos. O país ocupa o primeiro lugar na União Europeia entre os países com maior taxa de desemprego (24.6%), segundo dados da agência de estatística Eurostat. Isto é o equivalente a mais de 5,5 milhíµes de spanhóis.
Em maio passado, os endividados bancos do país receberam um socorro da ordem de 100 bilhíµes de euros (R$ 250 bilhíµes). Todo esse dinheiro foi emprestado pela União Europeia na busca por reerguer o sistema financeiro espanhol.
A Espanha é, definitivamente, a bola da vez na zona do Euro. Há mais de um ano que o país figura entre o baixo clero das potências europeias, os chamados PIGS, grupo de países em dificuldades financeiras (formado por Portugal, Irlanda, Grécia e, mais recentemente, Espanha).A turbulência econí´mica que a Espanha enfrenta provocou o fechamento de várias empresas, especialmente aquelas ligadas í construção civil.
A crise no sistema bancário espanhol ocorreu devido í expansão desenfreada do crédito, logo após a criação do euro. Resumindo: as caixas econí´micas do país emprestavam dinheiro a juros baixíssimos, para clientes com contratos de hipotecas na aquisição de imóveis. Mas com o desemprego e a desaceleração econí´mica, ocasionados (em parte) pela crise financeira de 2008, os contratos de hipotecas deixaram de ser honrados pelos clientes. A inadimplência fez com que as caixas econí´micas tivessem de reaver os imóveis, que se desvalorizavam rapidamente e deixaram as instituiçíµes em alerta. E o mundo inteiro.E a cada dia que passa, 350 famílias espanholas perdem sua casa por falta de pagamento.
*Com informaçíµes de BBC Brasil, Terra, Estadão, UOL e Exame


