O nosso Jogo do Sí‰CULO

11 de julho de 2014

 

 Golaço de Schurrle para a Alemanha, o sétimo sofrido na nossa antológica derrota

 

 

Por Márcio Telles

Jornalista e pesquisador (mestre em comunicação pela UFRGS)

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                      Em 1953, a Inglaterra recebeu em Wembley a seleção húngara de Puskas e Kocsis, naquele que era conhecido por "Jogo do Século" antes mesmo da bola rolar. Os ingleses tinham a certeza de que colocariam abaixo a atual campeã olí­mpica que acumulava 22 jogos de invencibilidade (19 vitórias). Para os britânicos, o futebol jogado nas ilhas estava acima de qualquer modinha de verão vinda do continente, pois eram os senhorios da bola, os inventores do jogo. Mesmo que a primeira participação deles em Copas – em 1950 – houvesse sido um fiasco, incluindo uma derrota para sua ex-colí´nia Estados Unidos, a certeza era de que o futebol jogado nas terras da Rainha era muito superior. A partida contra a Hungria seria a oportunidade para mostrar a qualquer desafiante de que os ingleses ainda reinavam soberanos.

                      A Hungria venceu por 6 a 3. A imagem criada a mais de três quartos de século de que a Inglaterra era a primordial pátria das chuteiras ruiu em 90 minutos. O futebol inglês entrou em declí­nio, que sequer um tí­tulo mundial (sob eternas suspeitas) e a liga mais badalada da atualidade parecem capazes de curar.

                      Tal qual a outonal tarde inglesa, o "Jogo do Século" (o do atual século), ocorreu em uma agradável tarde mineira. Assim como os ingleses em 1953, os brasileiros acreditavam-se os senhores por direito do futebol, o paí­s onde a bola rola mais redonda e onde os gramados são mais verdes. Essa certeza que habita as cabeças de treinadores, jogadores, jornalistas e torcedores, é sustentada em mais de cem jogos em Copas do Mundo e cinco tí­tulos mundiais. A certeza de superioridade é tanta que se criou no Brasil a crença de que basta esperar que os craques irão brotar aos borbotíµes; que bastará selecionar os melhores e colocá-los dentro de um campo que o futebol-arte irá acontecer sem esforço e, assim, as vitórias e os tí­tulos virão. Como os ingleses há mais de meio-século, o Brasil inebriou-se de sua superioridade que mostrava sinais de que estava ruindo. Precisou de uma tarde no Mineirão e sete gols alemães para se perceber isso.

                      Os paralelos com a seleção inglesa que perdeu para a húngara são assustadores. Na véspera do jogo em Wembley, Gustav Sebes, técnico da Hungria, pediu í  federação inglesa bolas britânicas para treinar sua equipe, já que eram mais pesadas do que as húngaras. Calculou a posição do sol no gramado de Wembley e como ele poderia posicionar sua equipe para tirar proveito da luz natural que atingiria Londres na tarde seguinte. Observou os britânicos jogando contra a seleção mundial (4×4). Fez anotaçíµes. Entrou em campo sabendo o time que enfrentaria de trás pra frente. A Ingletarra não treinou mais do que o habitual. Do Brasil de Felipão sobram relatos da falta de treinamento: o primeiro treino tático foi antes da semi-final. Na véspera do jogo, testou três esquemas diferentes, nenhum com Bernard. Na coletiva após o jogo, Scolari reconheceu que os esquemas foram testados com o intuito de despistar os repórteres. Felipão preocupou-se mais com o julgamento que a imprensa faria de suas açíµes do que com o adversário.

 

O que morreu no Mineirão?

 

                      O que morreu na grama do Mineirão foi uma ideia de futebol, a brasileira, tal qual morreu a ideia de futebol inglesa em Wembley, 61 anos antes. Apesar de todos os prognósticos que avisam a necessidade de uma escalação conservadora com três volantes no meio-de-campo a fim de parar o excelente meio alemão, Felipão foi incapaz de escalar um time para esperar o adversário, já que nossa suposta cultura futebolí­stica prega-se que sempre proponhamos o jogo. Não foi assim dessa vez, não havia como.

                      Inglaterra e Brasil entraram em campo contra Hungria e Alemanha acreditando apenas na sua superioridade técnica e coletiva. Não encontraram nenhuma das duas. Contra o futebol moderno da Alemanha, em que os habilidosos centrocampistas trocam de posição como quem troca de camisa, o Brasil insistiu no esquema que dera certo na Copa das Confederaçíµes, mas que vinha demonstrado sinais de esgotamento desde o iní­cio da Copa do Mundo: um centroavante estático, três caras na linha atrás deste, com dois abertos nas pontas e praticamente ninguém marcando no meio (basicamente um 4-2-3-1, esquema que é copiado por vários times brasileiros). Do outro lado, Joachim Lí¶w corrigiu a bizarrice de ter Lahm na volância e recolocou um centroavante, dando mais liberdade para Muller retornar e ajudar Toni Kroos frente aos invisí­veis marcadores brasileiros. Sem sua referência defensiva, suspensa, com o meio de campo mal posicionado e o time mal escalado, o Brasil entrou em parafuso. Do outro lado, uma Alemanha bem treinada sabia exatamente o que fazer com a bola.

                      í‰ um momento triste para o futebol brasileiro. Ainda assim, apesar da goleada, a Copa das Copas continua viva, divertida e estragando bolão. Espero que a derrota aponte a urgência que o paí­s tem de repensar seu futebol: não foi por acaso que nenhum time brasileiro sobreviveu na Libertadores desse ano, nem que dois já caí­ram frente a inexpressivas equipes africanas no mundial interclubes. Espero, também, que a derrota não sirva de pretexto para se jogar fora os nossos avanços das últimas décadas: haverá quem colocará a culpa no Bom Senso, nos estádios padrão FIFA (que são ótimos, apesar de caros), nos pontos corridos, no grande número de estrangeiros que cá jogam. Não se deixem enganar. Passaremos o resto do século tentando entender o que aconteceu em Belo Horizonte. Como passaram os ingleses.

 

íšltimos pitacos da Copa do Mundo

 

·                 Num mundo em que estranhamente existem dois papas, serão suas seleçíµes que irão decidir o tí­tulo mundial. Aguarda-se a investigação sobre qualquer possí­vel interferência divina nos resultados até aqui da Copa.

·                 A geração alemã chega no seu ápice em um jogo simbólico não apenas pelo placar. Foi na derrota por 2 a 0 para o Brasil na final da ísia, em 2002, que os alemães passaram a repensar seu futebol: investiram em estádios, em categorias de base e em cursos de aperfeiçoamento de treinadores. E mantêm a mesma filosofia de jogo desde lá, primeiro com Klinsmann, depois com Lí¶w, seu ex-assistente.

·                 A final colocará frente a frente a melhor torcida europeia contra a melhor torcida sulamericana. A Alemanha tem mais time e joga melhor futebol; a Argentina tem raça e Messi. O resultado é imprevisí­vel.

·                 Holanda e Argentina traçaram caminhos inversos no mundial: os europeus começaram o torneio comendo a bola, mas o futebol sumiu durante o mata-mata (não marcam gol a mais de 240 minutos). Já os argentinos começaram no sufoco, com diversos erros defensivos e com um goleiro contestado que acabou consagrado na semifinal. E Mascherano é, para mim, um dos melhores da Copa.

·                 Com o jogo de domingo, Argentina e Alemanha se tornarão a final que mais se repetiu em Copas: três vezes (1986, 1990 e 2014) contra duas de Brasil e Itália (1970 e 1994).

 


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