Os desafios da agricultura familiar (Parte 2): Os jovens no campo

16 de julho de 2012

 

Por Guile Rocha

 

 

A sucessão na agricultura familiar é uma questão que merece grande atenção por parte da sociedade. Afinal, se não tivermos braços jovens preparados para cuidar das lavouras brasileiras, de onde virão nossos alimentos no futuro?

 

 

Montado no carro de boi, seu Ambrósio conta com o filho í‰dson para seguir o trabalho no campo e a produção de cachaça

 

O alambique do Seu Ambrósio e o filho pródigo

 

O alambique de Ambrósio Justo localiza-se no Canto dos Hilários, pedacinho de campo abençoado lá para dentro de Dom Pedro de Alcântara. Ele trabalha na produção de cachaça na região desde piá. í‰ uma vida simples de trabalho duro, í s vezes acordamos pelas duas da manhã para cortar a cana. No corte trabalhamos somente eu, meu filho e um ajudante.   O alambique é pequeno e familiar, como a grande maioria por esses lados da colí´nia, mas o seu Ambrósio indica que houve uma redução no número de produtores. Antes havia 15 produtores de cachaça aqui no Canto dos Hilários, hoje tem só uns três ou quatro. Era muita burocracia com a Secretaria do Meio Ambiente (SEMA) e o preço do litro estava muito ruim, daí­ muita gente desistiu da cachaça, foi fazer outra coisa ou se aposentou.

O local é um dos resistentes no Canto dos Hilários, e hoje Ambrósio comemora o bom momento da branquinha na região. Hoje em dia tem bastante comprador aqui, eles vêm e compram o que nós tivermos, para depois engarrafar e vender no mercado Entretanto, o produtor explica que, no passado, quando o preço era baixo, ele produzia até 35 pipas (cada pipa equivale a 500 litros) de cachaça por ano. Hoje, com a saúde debilitada e a falta de pessoal para ajudar, ele produz apenas 15 pipas num ano. Continuo trabalhando firme até hoje, mas no passado tinha mais disposição. Estou ficando velho e tenho problemas no coração. Também não reclamo, tenho meu filho para ajudar e o jogo de bocha que é meu lazer. E modéstia a parte, jogo muito bem (risos).

E é o filho de seu Ambrósio quem irá continuar a linhagem na produção de cachaça no Canto dos Hilários. Edson da Silva é um jovem que vai contra a corrente que empurra os jovens para longe do trabalho rural. O campo vai matando a gente devagar, mas a cidade mata rapidamente. Ele pretende dar seguimento ao alambique do pai, pois acredita poder tratar-se de um bom negócio. Agora o preço da pipa tá valendo í  pena, se trabalhar direito dá pra tirar um bom dinheiro. E vamos comprar um trator para modernizar, facilitar o trabalho.   Edson e o pai ainda usam carros de boi para buscar a cana dos canaviais.

 

 

Emater/RS e a sucessão na agricultura familiar

 

O presidente da Emater/RS, Lino De David, defende a sucessão na agricultura familiar. Segundo ele, como o Paí­s está em pleno desenvolvimento, os jovens do meio rural acabam sendo atraí­dos para os grandes centros urbanos em busca de emprego. "Esse é um dos principais problemas que precisamos enfrentar, pois as famí­lias têm que ser instrumentalizadas para a tomada de decisão A sucessão é tratada ainda de forma tardia junto í s famí­lias, que não preparam os jovens para permanecerem na roça. O campo, por sua vez,   ainda não oferece as mesmas opçíµes de educação, lazer, cultura e acesso í  informação que se encontram nos grandes centros", lamentou Lino de David.

A Emater/RS   indica que 31,3% dos 442 mil estabelecimentos de agricultura familiar no RS não contam com jovens interessados na sucessão das terras. São filhos e filhas de agricultores que, em sua maioria, se veem tentados com a possibilidade de melhorar suas condiçíµes de vida na cidade grande.

Buscando tornar a roça um local de trabalho com mais atrativos e possibilidades para os agricultores, a Emater/RS tem direcionado seu trabalho ao desenvolvimento de polí­ticas públicas para inclusão social e produtiva das famí­lias, em busca de condiçíµes mais dignas e perspectivas de melhoria da qualidade de vida no campo. "A agricultura familiar vai passar por profundas transformaçíµes, sendo reforçada a mecanização dos pequenos produtores, além de incentivos í  ˜agroindustrialização™ e ao coméricio, fazendo com que o agricultor familiar participe de toda a cadeia produtiva, indica Lino De David

 

 

              Profissionalização e subsí­dios contra o êxodo rural

 

José Carlos de Matos, popularmente conhecido como Zé do Sindicato, é o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Torres. Para ele, a debandada dos jovens do campo para a cidade é uma questão urgente, e que deve ser debatidas pela sociedade e pelo poder público.   O êxodo rural infelizmente tem crescido a cada ano que passa, os jovens não se sentem tão motivados a continuar no campo em função da dificuldade na geração de renda. í‰ bem verdade que o agricultor conseguiu importantes conquistas pela valorização de seu trabalho, como garantias em relação a previdência e aposentadoria, liberação facilitada de crédito. Porém, não adianta liberar o crédito para compra de maquinário agrí­cola se não há formas de garantir lucro no campo, isso só irá multiplicar as dí­vidas do pequeno produtor analisa José Carlos.

Com poucas garantias de lucro, os agricultores sofrem com a instabilidade nos preços dos produtos agrí­colas, sujeitos a variaçíµes em decorrência de questíµes como o clima, o custo do frete e o disperdí­cio, como indica Zé do Sindicato. Os custos para plantar são por vezes maiores que o lucro gerado pela produção final no campo. Em lavouras de arroz aqui da região, tivemos sacas de arroz sendo recentemente vendidas por R$ 20,00, enquanto os custos de produção da mesma saca foi de R$ 29,00. Isto significou um prejuí­zo de quase 30% para o produtor, e casos como estes não são exceçíµes. Por isso fica claro a necessidade de lutar por preços mais justos para a produção agropecuária e garantias de renda. Os custo com logí­stica são muito caros também, os fretes cobrados pelos caminhoneiros vêm tornando-se mais altos e isto pesa para o produtor. Faltam de subsí­dios agrí­colas que tornem o campo um local de trabalho mais atrativo,

Outro passo necessário na questão da sucessão no campo é a educação especializada dos jovens agricultores, pois o trabalho no campo é hoje algo tão burocrático e profissionalizado como qualquer emprego. í‰ importante que o poder público promova e incentive a realização de cursos técnicos agrí­colas nas comunidades rurais, visando profissionalizar os agricultores, principalmente os mais jovens. Além disso, é necessário proporcionar a educação para que estes jovens conheçam os processos administrativos e legais que envolvem o trabalho no campo, ressalta o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Torres.

Em busca da consolidação de uma juventude rural forte em nossa região, José Carlos de Matos destaca uma importante marcha que acontecerá na próxima semana. Foi criada uma comissão intermunicipal de jovens, que reuniu-se na última quinta-feira (12) para definir os parâmetros, delegados e demandas da nossa região para a III Marcha da Juventude Rural, que acontece na próximo dia 19 de julho em Porto Alegre. Esperamos através desta marcha proporcionar um maior contato entre os jovens que trabalham com agropecuária em Torres e em diversas áreas do estado, esclarecer os diferentes problemas e soluçíµes que envolvem a classe, finaliza o sindicalista.

 

 

              A união da juventude rural

 

 A Comissão Estadual de Jovens Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (CEJTTR) é uma instância de organização da FETAG-RS, representada por jovens das 23 Regionais Sindicais, e que articula a III Marcha Estadual da Juventude Rural, que neste ano tem como tema principal a sustentabilidade. O grupo se organiza buscando estabelecer açíµes estratégicas de consolidação do trabalho da juventude trabalhadora rural no movimento sindical.  

A sucessão rural foi o lema principal da II Marcha Estadual da Juventude Rural, que aconteceu no ano passado. Temos muitas conquistas, mas queremos muito mais e, principalmente, queremos fortalecer a agricultura familiar através do processo de sucessão da atividade rural, oferecendo oportunidade para a permanência do jovem no meio rural com perspectivas e sonhos reais, explica a assessoria do grupo. Na II Marcha, a juventude rural gaúcha discutiu a sucessão focando-se na construção de polí­ticas públicas baseado em cinco eixos:

 

 

 

OS 5 EIXOS DA JUVENTUDE RURAL POR UMA PROCESSO AGRíCULA MELHOR

 

1.       Geração de renda: Esta temática é uma das prioridades enquanto ferramenta estratégica para viabilização e sobrevivência da agricultura familiar e elevação da auto-estima das famí­lias. Para isso é necessário criar mecanismos voltados para uma produção mais organizada, ligada com a industrialização agrária, a comercialização, a criação de novos nichos de mercados e a implantação de novas matrizes produtivas, sejam locais ou regionais, como forma de agregar valor a produção.

 

2.       Formação Profissional: í‰ necessário maior investimento na área de formação, principalmente para qualificação e gerenciamento da propriedade, e também nas áreas profissionalizantes como produção de alimentos, agroindústrias e outros. Trata-se de uma forma de oportunizar alternativas de geração de renda por meio da valorização da técnica agrária.

 

3.       Assistência Técnica: Enquanto forma de geração de renda, se faz necessário uma assistência técnica presente, qualificada e que interaja com o conhecimento dos agricultores, preservando a realidade local e regional. Neste ponto aparece a importância do poder público em incentivar projetos ligados a questão agrária e a participação de órgãos como a Embrapa e a Emater

 

4.       Educação Rural: Temos a necessidade de um novo modelo de educação, de uma nova pedagogia, capaz de valorizar a realidade e a auto-estima do nosso jovem, no campo e na cidade. Com isso podemos manter o contato com a propriedade e desenvolver, com o jovem agricultor, um projeto de vida digna no meio rural.

 

5.       Meio Ambiente:   A preservação ambiental e a correta utilização dos recursos naturais devem estar associadas í  produção sustentável de alimentos pelos agricultores familiares. Nesse sentido, temos o compromisso de propor alternativas de conscientização da sociedade, incentivar a agricultura orgânica e lutar por alteraçíµes na legislação ambiental, como forma de viabilização das famí­lias em continuar com suas propriedades rurais.

 

FONTE: cejttrtche.blogspot.com.br

 

 


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