Os Desafios da Cultura em Torres

8 de agosto de 2011

 

 

Por Guilherme Rocha      

  Há uma estreita dependência entre sociedade e cultura, entre estrutura social e vida intelectual, de modo que qualquer modificação ou transformação sofrida pela primeira reflete-se nas esferas da segunda. Por isso, em tempos de uma sociedade baseada em interaçíµes cada vez mais rápidas, onde a internet faz com que um simples clique seja o suficiente para modificar muitas perspectivas, hoje temos um contexto onde a definição sobre o que é tendência cultural muda instantaneamente, tornara-se efêmero. A arte vem dividindo seu espaço com os avanços tecnológicos, e dentro dessa mudança de panorama são muitos os desafios para propagar a cultura. Não que essa mudança seja algo negativa, é simplesmente um sinal dos tempos que exige adequação, o que já vem acontecendo pela maior interação entre arte e tecnologia. Porém, ao mesmo tempo em que hoje vemos possí­vel uma democratização da cultura, também são muitos os desafios para conseguir apoio e incentivo pela a propagação da arte "tradicional", chamar atenção de um público cada vez mais exigente e variado. E aqui em Torres, o desafio não é diferente.

 

   

  Sonho interrompido

 

 

 

     

                                               Pátio das Artes: disponibilizar sonhos para a comunidade

 

   

  Zilka Jacques foi a criadora e proprietária do Espaço Cultural Pátio das Artes, uma iniciativa que buscava promover e envolver os artistas locais de Torres, além de possibilitar uma troca de conhecimentos entre pessoas interessadas em desenvolver suas capacidades artí­sticas e culturais, a partir de oficinas, aulas práticas e grupos de convivência "A cultura é a identidade de um paí­s. A manifestação de um povo, de um grupo social. Investir na construção de um projeto cultural é acreditar na cultura como uma das nossas maiores riquezas, um legado com o qual presenteamos o lugar em que vivemos. Foi o que eu busquei fazer dentro do Pátio das Artes", indica Zilka.  

  O espaço não tinha fins lucrativos, e envolvia projetos de variadas áreas: artes plásticas, literatura, poesia, música, teatro, cinema e gastronomia, buscando apoiar novos talentos e incentivar a continuidade do movimento artí­stico em um ambiente onde a cultura se difundia. Infelizmente, por não conseguir cobrir as necessidades financeiras que um lugar deste porte requer (como pagamento de funcionários, impostos e manutenção do espaço fí­sico) e por não estar voltada diretamente para o lucro (o que é algo quase imperdoável nesse selvagem mundo onde o dinheiro manda cada vez mais) Zilka se viu obrigada a fechar o Pátio das Artes pouco tempo atrás. "Foi muito triste ter que fechar o espaço, mas ainda assim continuarei me envolvendo em atividades e projetos culturais, pois temos de mostrar que a cultura persiste aqui em Torres, e continuar mostrando a bela arte e os artistas de nossa cidade para os visitantes".

   

  Um empurrão pela arte

 

 

 

 

 

 

                              Espaço Arte Vida trabalha de forma obstinada pela cultura

 

 

 

   

  O espaço Arte e Vida é um bonito projeto de interação artí­stico-cultural aqui em Torres, criado pela artista plástica Celina Ten Caten. Trata-se de um ateliê aberto para o público de todas as idades, que proporciona uma descontraí­da interação social e motiva a criatividade pela formação de oficinas de artesanato, desenho, pintura, papel-machê e poesia, além de desenvolver aulas de inglês, exibição de filmes conceituais, grupos holí­sticos. "Fico feliz, pois o espaço vem sendo muito produtivo, e além disso a convivência com todo pessoal é algo muito prazeroso".Todas as obras que são produzidas no ateliê são postas a venda, e o lucro é adquirido é revertido para obras de caridade. Celina ainda impulsiona a divulgação de novos talentos da arte, mostrando sua paixão e dedicação pela cultura aqui em Torres.  

  Segundo Celina, aos poucos a cultura vem sendo mais incorporada í  sociedade torrense, mas isso se dá muito em função da boa vontade daquelas pessoas que acreditam na arte como uma ferramenta de crescimento social, sem buscar o lucro como prioridade. "Ainda é muito difí­cil lucrar com atividades culturais, um artista tem que batalhar muito para conseguir sobreviver a partir de sua criação. Além do mais os meios virtuais vem ficando cada vez mais fortes, e de certa forma acabam suplantando, ou rivalizando, com o espaço e o interesse pelas manifestaçíµes artí­sticas". A criadora do espaço Arte e Vida também destaca o crescimento dos recursos multimí­dia como suporte as atividades culturais, ao mesmo tempo em que tornam as artes interativas. "Hoje em dia, para chamar a atenção, as manifestaçíµes artí­sticas tem que ser muito impactantes, pois aquilo que é tendência em um dia pode ser ultrapassado no outro. A cada momento surge alguém com uma idéia nova, e o público também muda frequentemente para atender as suas novas exigências que vão mudando, principalmente os mais jovens".  

  Celina aponta para outro quadro moderno, onde se multiplicam as manifestaçíµes de pessoas fazendo aquilo que consideram sua própria arte, sendo por isso difí­cil estabelecer valores sobre o quanto uma obra tem valor artí­stico ou não. "Respeito todas as manifestaçíµes artí­sticas, mas atualmente tudo vira arte, ficou um tanto bagunçado. Por isso, aqui no espaço Arte e Vida, defendo que o importante é a pessoa extravasar de alguma maneira sua criatividade, e usar isso como uma forma de terapia para si mesmo". Em relação ao panorama cultural torrense, a artista plástica indica que sente um incremento no interesse em relação í  cultura, bem como uma quase natural vocação a arte em nosso municí­pio. "Acredito que o clima, o mar e nossas belezas naturais servem de inspiração para nossa arte, e por isso tem muita gente com uma forte veia artí­stica em Torres. A criação tem interferência dos sentimentos, porém sempre é necessário ter persistência para crescer em tudo na vida, inclusive artisticamente". Ela cita o projeto Torres em Cena, que vem incentivando o teatro na cidade, e finaliza indicando outras demandas que consideraria interessantes para o desenvolvimento cultural por aqui. "No passado tí­nhamos a Semana da Arte, que abria espaço para novos talentos e era um impulso para a interação de diferentes movimentos culturais. Também penso que falta um museu dedicado í s artes em Torres, buscando dar um impulso para a valorização da cultura e exposição de nossas obras de arte para os cidadãos locais e turistas".

   

  Novas perspectivas

 

 

 

   

 Sérgio Melo assumiu a gestão pública da Cultura

 

 

     

  Conversei também com Sérgio Melo, novo dirigente do Departamento de Cultura em Torres, órgão ligado í  Secretaria de Turismo, Indústria e Comércio. Sérgio tem 28 anos de carreira municipal, e assume a pasta buscando enfrentar com motivação os desafios para implementar em Torres uma polí­tica de maior integração e visibilidade í  cultura. "Torres tem uma população muito exigente, aqui as manifestaçíµes culturais tem que chamar muita atenção de maneira quase imediata para serem consideradas exitosas. Deve haver o entendimento que a incorporação de movimentos ligados í  arte e a cultura na sociedade é um processo gradativo, í s vezes leva tempo para ser aceito e, portanto exige paciência".  

  O dirigente também destaca que a cultura deve fazer parte do contexto do municí­pio, buscando uma integralização que entenda o quão ecléticas e diversificadas as manifestaçíµes artí­sticas se tornaram na atualidade. "A cultura deve falar todas as lí­nguas, do surfista ao tradicionalista, dos pintores aos poetas. Torres tem um imenso potencial artí­stico que é um patrimí´nio da cidade e deve ser aproveitado". Sergio Melo indica também que é entusiasta de projetos como o da Semana da Arte, que dariam uma visibilidade importante para o segmento no municí­pio, alem de trabalhar com a convergência de variados estilos artí­sticos. "Faremos um levantamento de projetos que já foram implementados em Torres e que, por alguma razão, acabaram sendo abandonados por outras administraçíµes públicas. A Semana da Arte, por exemplo, poderia ser reaproveitada e possibilitaria uma integralização cultural para nossa comunidade além de eventuais turistas".  

    O novo dirigente assume o setor as vésperas da Feira do Livro e da Semana Farroupilha, eventos que ocorrerão em setembro e são importantes manifestos culturais fora da temporada de verão. "Temos projetos bem estruturados para ambos os eventos, e a programação da Semana Farroupilha já está praticamente definida". Além disso, Sergio Melo já trabalha na programação para o veraneio, buscando captar maiores investimentos para elaborar projetos que chamem a atenção do turista, que frequentemente reclama da falta de opçíµes no verão torrense. "Ainda estamos em fase de diagnóstico na diretoria, mas buscaremos firmar parcerias público-privadas e destacar a Lei de Incentivo a Cultura, que deduz impostos daquelas empresas que se envolvem com projetos culturais, sempre em. A idéia é firmar shows populares e, ao mesmo tempo, outros espetáculos com algum envolvimento artí­stico maior, para um público mais seleto, sempre em acordo com a vontade da prefeitura", finaliza o dirigente.            


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