O Brasil estampa para qualquer vivente atento a verdadeira pirâmide invertida que aplica na questão das divisíµes de tributos entre Nação, Estados Federativos e Municípios. Embora a população e a teórica democracia, os cidadãos e contribuintes, vivam nas cidades, as municipalidades recebem menos de 10% do bolo tributário. O país, em Brasília e seus tentáculos de Estado inchado e burocratizado, recebe, ao contrário, 70% do bolo. Uma inversão absurda.
E na questão das leis e políticas internas dos partidos políticos do Brasil notamos uma verdadeira repetição freudiana do processo. Os partidos, mesmo í queles que se dizem novos, oposicionistas, desenvolvimentistas, humanistas, etc., acabam repetindo o que o Brasil faz com seu povo. Nos diretórios municipais não chega recurso. A militância municipalista, aquela que é, na prática, a nascente de todos os caminhos políticos nacionais, onde cidadãos são mobilizados saudavelmente a entrarem nos debates institucionais por pura ideologia, entrando ou não nas estruturas partidárias, muitas vezes militando em organizaçíµes civis ou ONGs (as saudáveis), não recebe das agremiaçíµes de todas as bandeiras partidárias um centavo sequer para que exerça sua força política nas cidades. í€s vezes, conseguem algum material impresso, feitos em massa na Capital pelos diretórios estaduais, que também não recebem o suficiente das centrais partidárias nacionais para suprirem as demandas institucionais do partido em seus estados federativos.
O dinheiro, que não é pouco, pago pela população através de impostos, que sustentam o Fundo Nacional Partidário, acaba sendo usado pelos presidentes de partidos em gastos na maioria das vezes supérfluos. São jatinhos alugados para que um diretor partidário vá í Brasília negociar com um senador ou um deputado, quando na maioria das vezes esta negociação poderia ser feita por e-mail , por skype, por reuniíµes virtuais computadorizadas, etc. São recursos gastos em almoços de R$ 200 em restaurantes sob a justificativa de ser alimentação, gastos de representação, enfim: dinheiro bom colocado fora por líderes que na verdade repetem a realidade da Ilha da Fantasia que é Brasília. São poucos, ou quase nenhum, os partidos que poupam recursos para que possam sustentar as campanhas eleitorais nas cidades. Mas aqui onde vivemos, nas cidades, aqui onde as coisas acontecem, aqui onde homens e mulheres resolvem brigar por ideais que acreditam, sendo eles ou não utópicos, mas com a legitimidade que a democracia permite, assistimos campanhas í vereador e í prefeitos terem de ser sustentadas na íntegra por esmolas pedidas nas esquinas. í€s vezes, com melhor sorte, sustentadas por empresas que apóiam alguns nomes, que ainda são atrapalhadas nesta empreitada por não quererem assumir um lado só da política e prejudicarem seus negócios, um medo totalmente fundamentado pela realidade em cidades pequenas e até grandes.
As campanhas nas cidades acabam contratando pessoas por bicos, se obrigando a prometerem cargos para militantes que buscam na política um emprego que não conseguiram até então, em futuro êxito de seu candidato nas eleiçíµes. Os diretórios municipais de chapas de concorrentes í prefeitos se obrigam a pedir emprestado para um militante, na maioria das vezes também aní´nimo, pelos mesmos motivos anteriores, uma sala para terem um lugar estabelecido para centralizar a saudável luta pelo poder, pelo poder de tocarem a cidade onde vivem, com todas as responsabilidades que o cargo coloca nos ombros dos corajosos candidatos. Os partidos, nos Estados, í s vezes não têm dinheiro nem para colaborarem com materiais impressos (santinhos) para os candidatos nas cidades. Ao contrário, cobram dos diretórios municipais mensalidades para sustentar a central do Estado, que por sua vez não recebe nada da central do país, que também cobra colaboração das centrais estaduais.
Este imperialismo, modelo usado no Brasil pela maioria as instituiçíµes públicas, pela maioria das religiíµes, pela maioria dos sindicatos patronais, dentre outros, estampa a ânsia dos políticos de chegarem ao poder central, de subirem em suas carreiras para usufruírem das mordomias da Ilha da Fantasia chamada Brasília.
Enquanto os partidos políticos, entes legítimos e legais das propostas de mudanças sociais da nação, não inverterem esta pirâmide, que na verdade nasceu e se criou invertida, em uma repetição freudiana dos poderes constituídos no Brasil, teremos pífias e humildes campanhas para as eleiçíµes municipais e estaduais, de fáceis e í s vezes quase obrigatórias corrupçíµes, ativas e passivas. Somente os caciques, bancados sabe-se lá por quem, conseguirão, como é hoje, subir na hierarquia do poder. E corre-se o risco de criarem, como é hoje, desde a campanha municipal pobre e de fácil corrupção, vontade e ganâncias futuras, repetindo o processo em um ciclo vicioso e triste.


