RELATOS DA BEIRA DE PRAIA (PARTE 2): O que acontece nas areias de Torres

4 de fevereiro de 2014

 

 

Por Guilherme Rocha

 

A orla torrense é uma bela mistura de cores e estilos no verão: O casal porto-alegrense bebendo chimarrão na sombra do guarda-sol, o senegalês se aventurando nas vendas í  beira-mar, o quiosqueiro torrense fazendo caipirinhas. Alguns exemplos da vida que se espalha por nossas areias lotadas.

 

Mor Ndiaye: um senegalês nas areias de Torres.

 

O belo tom negro da pele dos senegaleses não deixa dúvidas sobre a presença destes peculiares atores do atual verão torrense. E quando estou com minha namorada, sentado na beira do mar num destes dias de sol escaldante, e vejo um destes senegaleses passando – com sua maleta recheada de brilhantes bijuterias, correntes e relógios “ chamo-lhe a atenção dizendo que quero conversar.

 Trata-se de Mor Ndiaye, que pela primeira vez vem até Torres para trabalhar durante o veraneio. Falando um português carregado de sotaque, percebia-se que ele escolhia com cuidado as palavras. Mas ainda que timidamente, ele mostra a fluência necessária para falar nossa lí­ngua, e o entendimento de um ouvinte bem treinado. Em Senegal a lí­ngua oficial é o francês, mas aprendemos o português, o inglês e o espanhol na escola. E cada paí­s, tanto no Senegal como em todo oeste da ífrica, tem vários dialetos, falado pelas tribos locais.

Há um preconceito estabelecido por muita gente, quanto se pensa no estilo de vida dos paí­ses da ífrica negra: pensa-se que a miséria, as doenças e a violência são o que vigora. Um preconceito baseado muito na ignorância, já que até hoje tem muita gente que, infelizmente, ainda se pergunta. Qual a capital da ífrica? (como se o continente de 54 paí­ses fosse uma coisa só). Mas Mor Ndiaye diz que sua vida em Dakar “ capital do Senegal   – era boa. Trabalhava com costura por lá, fazendo roupas. Ganhava menos que aqui no Brasil, mas a diferença no salário não é tão grande. Problemas tem aqui, assim como tem lá. O vendedor diz ainda que é fã (e bom jogador) de futebol “ e que as ondas tem qualidade no litoral senegalês, onde surfistas já são assí­duos frequentadores do mar.

Na casa de Mor no Senegal, moravam 10 pessoas da sua famí­lia. Ele conta que deixou sua esposa em Dakar para vir se aventurar no Brasil, primeiro em Caxias do Sul (onde trabalhou por 6 meses em uma metalúrgica) e agora em Torres. A saudade é muito grande, mas as vendas estão boas, tá valendo a pena. Perguntamos o preço dos relógios, que custam 20, 30, 40 reais cada. Numa ótica, os originais destes produtos custariam até dez vezes mais. Mas Mor Ndiaye veste uma camisa de Vendedor Legal, mostrando que senegalês está em dia com a secretaria municipal da Fazenda. Além disso, ele diz que os seus produtos possuem nota fiscal, estão de acordo com a lei. Faço tudo certo, não quero me complicar finaliza Moa.

 

Mor Ndye veio da ífrica trabalhar como vendedor na orla torrense

 

 

Hotéis, consumo e bodyboard

 

Caminhando pelos Molhes, vejo um casal jovem e tranquilo, ele com o chimarrão em mãos e ela lendo um livro, e decido incomodá-los um pouco. Receptivo, o porto-alegrense Diego Berzagui conta que, apesar de não ter casa aqui em Torres, há um bom tempo ele tem passado suas férias nos hotéis da cidade. Venho há vários anos para cá e fico sempre no mesmo lugar “ o hotel do SESC “ e não tenho do que reclamar, pois o serviço é de qualidade por lá, e o preço é muito bom. Mas Berzagui, que é supervisor comercial da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de POA, conta que o tempo de estadia no hotel do SESC é limitado, e por isso ele estava em busca de um novo hotel para prolongar as férias na nossa cidade. As diárias no geral estão altas, de R$ 200 para cima. Os preços vêm aumentando, mas encontramos um hotel mais em conta para ficarmos conta o porto-alegrense, que veio para Torres com a esposa Paola Copetti.

No tempo que curte com a esposa na beira da praia, Berzagui confessa que não é a mais consumista das pessoas. Trazemos biscoitos e chimarrão quando estamos na praia, somos econí´micos. Não gastamos muita coisa com os vendedores ambulantes. Antes da praia fazemos um lanche reforçado, ou almoçamos em algum buffet. Preferimos aproveitar os dias de sol na beira do mar, não nos preocupamos muito com a comida.

Junto ao guarda-sol do casal, estava o bodyboard de Diego Berzagui. Pergunto sobre as ondas de Torres, e ele não tem dúvidas em afirmar que trata-se do melhor lugar para o surf no litoral gaúcho. Torres está muito mais para Santa Catarina quando o assunto são as ondas, diz   Berzagui, que complementa dizendo ter realizado seu trabalho de conclusão de curso (TCC) em Educação Fí­sica exatamente sobre o bodyboard. Concluí­ que os bodyboarders praticam este esporte pelo contato com a natureza que ele proporciona, além de contribuir com saúde do desportista, finaliza o supervisor comercial da CDL.

 

 

O casal porto-alegrense Paola e Diego na Praia dos Molhes

 

 

Sobre os quiosques na beira da praia

 

˜Edevaldo no Chapéu™ é o nome de um dos quiosques instalados na Areia da Praia Grande, localizado na altura do Hotel De Rose. O estabelecimento de beira de praia é gerido por Valdir e pelo próprio Edevaldo “ que está sempre com o seu chapéu (como sugere o nome do quiosque). Os sócios se dividem nas funçíµes: enquanto o primeiro cuida das vendas na tenda, o segundo é responsável pelo aluguel de cadeiras e guarda-sóis, um serviço que vêm se expandindo cada vez mais na orla torrense. Além disso, os operadores do quiosque ainda prestam o serviço de montagem dos gazebos (tendas) para os veranistas na beira da praia. Por 10 reais deixamos o gazebo montado para o pessoal, que chega a praia já com sua sombra garantida, indica Edevaldo

São dezenas os quiosques instalados nas areias das praias de Torres De 30 em 30 metros tem uma barraquinha. A concorrência é grande, não se pode negar. E o fluxo é diferente de um ponto para o outro, afirma Edevaldo. Ele reclama do preço cobrado para garantir a licença de venda aos quisques na beira-mar. A prefeitura cobrava R$2.000 no verão passado, e este ano o custo subiu para R$ 2.200. E isto que a prefeita Ní­lvia tinha prometido que ia ajudar, tentar baixar o preço. Mas isso não aconteceu, né?.  

Segundo Valdir, o movimento no seu quiosque está um pouco mais fraco do que no mesmo perí­odo do ano passado. Depende do dia, mas o lucro bruto fica entre os R$300 e R$ 500 nos dias de semana. No final de semana aumenta. Mas temos os nossos custos com a manutenção, que abatem   parte do lucro. Os produtos que mais saem variam com o clima do dia, mas Valdir conta que o carro chefe acaba ficando por conta das caipirinhas e batidas alcoólicas, além do milho cozido, água de coco, cerveja e outras bebidas. No final das contas, o sol é o fator que mais pesa para definir se o movimento será bom ou ruim.

Outro problema apontado é a proibição da venda de alimentos fritos nos quiosques, o que reduz as possibilidades de lucro. O pessoal chega pedindo pastel e peixe frito,mas não temos autorização para vender frituras. Só podemos vender milho cozido e estes salgadinhos industrializados, aponta Claudete, a esposa de Valdir (e que também trabalha eventualmente no quiosque). Particularmente, acho paradoxal a proibição da venda de alimentos fritos quando é permitido comprar os populares salgadinhos de isopor, que são cheios de calorias vazias – ou seja, engordam e trazem poucos nutrientes.

 

 

Claudete e Valdir, do quiosque Edevaldo no Chapéu

 

 


Publicado em:







Veja Também





Links Patrocinados