Reminiscências

16 de julho de 2012

 

Maria Helena Tomé Gonçalves

                      O interessante é que se diz que recordar é viver, é reviver, é sentir de novo. Quando nossa neta fala em questíµes de ílgebra que está aprendendo no Ensino Fundamental e fala-me das suas dúvidas deparo-me diante da mesma estupefação que sentia lá no meu Curso Ginasial, mais precisamente na terceira série do mesmo. Para quem não lembra mais ou nem chegou a conhecer a divisão escolar antiga esclareço que a gente fazia o Curso Primário durante cinco anos, o Curso Ginasial durante quatro anos, que juntos formavam o Primeiro Ciclo, depois estudava mais três séries que formavam o Segundo Ciclo com cursos teóricos como o Cientí­fico e o Clássico, os quais direcionavam o aluno para um Curso Superior na área de Ciências Exatas ou na área de Ciências Humanas, ou cursos técnicos como Contabilidade, Secretariado, Mecânica, Eletricidade e outros, ou cursava a Escola Normal, hoje Magistério e em extinção, dedicada a formar professores para atuarem no Curso Primário, hoje séries iniciais.

                      Voltando aos meus sentimentos de estupefação, nunca consegui entender a tal de ílgebra. Algumas noçíµes iniciais eu ainda consegui racionalizar e assimilar, mas equaçíµes de diferentes graus, inequaçíµes e outros conteúdos eu jamais consegui aprender ou entender a sua utilidade na minha vida prática. O mesmo com os tais de Logarí­timos e a Raiz Cúbica. Um gênio inventou o Pi e dele eu jamais esqueci o sí­mbolo e o valor (3,14….) mas o seu emprego na minha vida …   nunca usei, não sei em que empregar, não sei para que serve e não me faz nem me fez falta saber. E olha que eu fui uma aluna nota dez, de inteligência superior e muito, muito estudiosa. Passei no primeiro vestibular que fiz, tirando o primeiro lugar geral na PUC nos cursos de humanidades e o trigésimo segundo na UFRGS, onde fiz meu Curso de Pedagogia por ser uma universidade pública e gratuita. Dava aulas pela manhã no Curso Primário especializando-me em Alfabetização e í  noite lecionava Português no Curso Ginasial. Mais tarde quando começaram os Cursos de Especializaçíµes cursei Administração Escolar e depois Orientação Educacional. Fiz uma carreira de sucesso, fui Diretora de Escola, fui Orientadora Educacional, Professora de Didática, Supervisora de Estágios e Coordenadora de Curso Normal, Supervisora Escolar da 11 ª Região. E eu até hoje não sei nada de ílgebra. Sou uma avó analfabeta em ílgebra. Nem me importo muito em ainda saber pouco de Informática e detestar o Internetês, essa linguagem escrita capenga e reduzida que inventaram, deturpando totalmente o Português correto, mas ser uma avó analfabeta em ílgebra e outras coisas mais que certamente eu devo ter aprendido para prestar provas e passar de ano, mas que não deixou marcas para utilização na minha vida prática é demais. Fico estupefata e me pergunto por que ainda são ensinadas tais coisas para os alunos comuns mortais que não serão cientistas, professores nem pesquisadores na área de Ciências Exatas.

                      Sempre quis acreditar que é preciso educar para a vida. Mas a vida passa tão depressa e as mudanças são tão radicais que fica difí­cil decidir o quê e como ensinar. Acredito que é preciso trabalhar muito com Humanidades, com Filosofia e Psicologia, com valores, com formação pessoal individual e coletiva, com Relaçíµes Humanas, com Relaçíµes Ambientais, com posturas diante da vida, do planeta, do universo. E a gente gasta uma energia enorme fazendo com que todos os alunos, todos indistintamente aprendam ílgebra e um monte de conteúdos que jamais, jamais serão empregados na vida diária de cada um, jamais terão uma conotação especial, jamais mudarão condutas ou influenciarão comportamentos diante do mundo. Contribuirão, talvez, para desenvolvimento do raciocí­nio lógico e da capacidade de abstração, essenciais em alguns setores profissionais, mas para a grande maioria que cursará com dificuldades o Ensino Fundamental até o nono ano, muito pouco significado terão tais conteúdos programáticos. Servirão, talvez, de conteúdo para reminiscências quando se tornarem avós e se derem conta de que ainda são analfabetos em ílgebra, mas são especialistas em relaçíµes afetivas.  


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