Um Mestre da música em Torres

5 de maio de 2014

ENTREVISTA com o pianista Luí­s Fernando Rayo  

 

Luí­s Fernando Rayo é, literalmente, um mestre da música. Recém graduado de seu mestrado, realizado nos Estados Unidos, ele é uma daquelas figuras que, quando está sentado em frente a um piano,   nos mostra o quanto a música pode ser grandiosa e bela. Além disso, pode ser considerado um dos melhores escaletistas do Brasil. Filho de Torres, Luí­s Fernando se destaca no domí­nio das teclas desde os 7 anos, e de lá até seus atuais 26 anos, ele vêm colecionando vitórias em prestigiados festivais e concursos de música.

 

 

 

Por Guile Rocha

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A FOLHA – Quando você começou a tocar piano? E qual foi sua motivação?

Luí­s Fernando – Por influência de um amigo (Glauco) cuja mãe (Guacira) dava aula de teclado, comecei e, após um ano de aula, passei para o piano – com as professoras Laví­nia e Terezinha. Tudo isso aqui em Torres. Mas o piano sempre foi algo muito natural para mim. Não tive um momento de decisão, a música foi simplesmente se tornando algo sério para mim, eu logo sentia que não queria parar de tocar, era um prazer também. Lembro que só uma vez, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, pensei em desistir, pois estava com um pouco de dificuldade no colégio, um pessoal fazia chacota porque eu tocava piano. Mas nesse momento, como em todos os outros, minha famí­lia foi sempre muito importante, me incentivando a continuar e ficar melhor, não parar. E eu nunca parei, até hoje.

 

Quais as suas maiores influências musicais?

Desde pequeno as influências foram principalmente na música clássica: Bethoven, Chopin, Rachmaninoff. Até minha adolescência eu tinha um pouco de preconceito com a música popular, achava que só a música clássica era boa. Mas aos poucos eu fui conhecendo outros estilos, e até alguns músicos que eu fui conhecendo pela vida foram me influenciando. Um deles foi o Hermeto Pascoal que eu conheci por coincidência. Estava em um restaurante em Olinda (PE),   e perguntei para este senhor se ele gostava de música clássica. Ele me falou que ele gostava de tudo. Foi um encontro por acaso, ainda não conhecia o Hermeto naquela época, só sabia que existia um cara que era conhecido por tocar qualquer instrumento. Mas quando vi aquele barbudo parecido com Papai Noel, nem imaginava que estava conversando com um dos grandes multi-instrumentistas do mundo.

 

Ao final do seu curso na UFRGS você foi laureado. Como foi a sensação?

Foi uma grande surpresa, pois eu não tinha solicitado a láurea oficialmente, e quando vejo chamam meu nome. Mas mesmo assim o pessoal da UFRGS decidiu me laurear, apesar de algumas das minhas notas (em cadeiras eletivas) não terem sido as melhores. Sei que além das notas contam também para a láurea os resultados em concursos e festivais, a atuação como professor, os recitais. Acho que fui laureado pelo conjunto disso, mas fiquei bem feliz pelo reconhecimento.

 

Você fez mestrado nos Estados Unidos. Nos fale um pouco da sua experiência.

Lembro que quando fui aceito no mestrado, tinha escrito num caderno aqueles que seriam meus dois objetivos: Crescimento pessoal e profissional. Quando fui para os Estados Unidos não queria ir para uma cidade grade, mas sim alguma cidade que pudesse ser um retiro para me aprimorar na música. Fui para Lubbock (Texas), onde convivi com grandes professores, talentos do piano e de outros instrumentos foram meus colegas, tive a oportunidade de tocar com frequência num Faziolli (piano de 200 mil dólares, de altí­ssima qualidade). Passava mais tempo na escola de música do que em casa, chegava a dormir nos pianos. Foi um perí­odo de crescimento acima do esperado, uma oportunidade de estudar bastante, conhecer pessoas legais de várias partes do mundo. E fechou com chave de ouro, quando no final do meu curso eu venci uma competição – entre pianistas, percussionistas e harpistas – do mestrado.

 

Fale um pouco da tua rotina de estudos.

Sinto que na minha vida toquei mais no piano do que estudei, sempre me senti fazendo um pouco menos do que deveria. Durante a graduação, estudava em média duas horas por dia, um pouco mais no final de semana. Quando se aproximava de algum recital ou concurso, chegava a estudar 7 ou 8 horas por dia. A disciplina não é tanto meu forte, mas creio que depende do dia também: as vezes dispenso muita energia em concentração e estudo,as vezes menos. Poderia ter estudado mais, mas acho que me esforcei no geral. O grande desafio é tocar sempre, nunca parai de tocar e buscar me aprimorar.

 

Qual a dificuldade em tocar os grandes clássicos do piano?

Para tocar os clássico do piano o maior desafio é o equilí­brio. Por exemplo, é muito difí­cil tocar Bach, tem que ter um equilí­brio entre o tempo, a articulação, a relação entre as vozes e/ou instrumentos, a direção da melodia. São muitos fatores que tem que estar balanceados, e além da busca pela qualidade técnica eu penso que é importante uma preocupação com a interpretação, que seja verdadeira para o músico. Eu não posso tocar como os outros compositores, eu posso tentar copiar e pode até ficar bom. Mas com uma interpretação que seja natural, que venha de mim, acho que há maior autenticidade.

 

Pretende continuar a carreira acadêmica no futuro, com um doutorado?

Por enquanto penso em ficar por aqui (Torres), mas pretendo fazer doutorado, só não sei quando nem onde ainda. Acho que o caminho vai ser possivelmente a Europa, gostaria de ir para a Alemanha ou Rússia, que são os paí­ses com as escolas musicais que mais gosto.

 

Quais as possibilidades e dificuldades de trabalho para um músico clássico no Brasil?

As possibilidades são muitas: dar aulas (área pedagógica), acompanhamento para outros instrumentistas, tocar com orquestras, até tocar com grupos da música popular, formar uma banda. Enfim, mas se temos muitas possibilidades, as dificuldades são ainda maiores, pois a cada ano que se passa formam-se novos músicos com bagagem acadêmica, e o campo de trabalho acaba sendo muito competitivo, é preciso muito esforço para se sobressair. Já a demanda, o consumo da música erudita, não é muito grande no Brasil, e por isso tantos talentos acabam indo para a Europa ou Estados Unidos, onde a música clássica tem um prestigio maior. Mas os que ficam no Brasil e querem fazer do piano uma profissão acabam tendo uma carreira tanto de performance como na área pedagógica, dando aulas.

 

O que você pensa da fusão da música clássica com a música popular?

A mistura entre música popular e erudita não é novidade na história da música. Os norte-americanos, por exemplo, fizeram fusão entre o jazz e a música clássica há muito tempo. No Brasil gosto de citar o Radamés Gnattali, um compositor gaúcho que é um expoente nessa mistura ente o clássico e o popular, que fez muitos arranjos de músicas populares para grandes orquestras. Há o Hermeto Pascoal, que foi um músico autodidata que criava arranjos misturando vários instrumentos e ritmos brasileiros, do frevo ao forro, do choro ao samba.

 

Quais os nomes brasileiro de mais destaque na nossa música erudita nacional, na sua opinião?

O maior nome sem dúvida é o Villa-Lobos (modernista), mas tem muitos outros bons compositores que marcaram época como Camargo Guarnieri, o Ernesto Nazareth (considerado um dos grandes nomes do tango brasileiro). Alguns que ainda estão vivos hoje em dia como Almeida Prado, Nelson Freire (que toca com as maiores orquestras do mundo). A história do piano brasileiro é muito rica de nomes de destaque internacional.

 

Nos fale um pouco sobre a sua relação com a escaleta (instrumento que é como um teclado de sopro).

 

A escaleta tem um lugar muito importante na minha vida, é meio que um ideal que eu acredito. Comecei a tocar há alguns anos e nunca parei. Penso que a escaleta pode fazer a diferença, até mudar o mundo da música. Isso porque trata-se de um instrumento recente (surgiu nos anos 50),   que possui um preço acessí­vel, é fácil de se carregar e não muito complicado de se aprender. No Japão, este já é um item didático, os alunos devem comprar uma escaleta para tocar nas aulas de música da escola.   E a sonoridade da escaleta também é singular, com semelhanças com a gaita de boca e o acordeom. Acredito que a escaleta vai se difundir como instrumento tanto na música clássica como popular (já está bem incorporada no reggae, por exemplo), e pretendo ser um ator ativo nesta difusão.


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