EDITORIAL – Vamos ao jogo” da hipocrisia

4 de junho de 2012

 

O senador Demóstenes Torres confessou nesta semana que tem, sim, envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Ao utilizar o direito constitucional de ficar calado, mostrou que está se preocupando com seu futuro civil, não com seu futuro polí­tico. O Brasil assiste uma das maiores demonstraçíµes de cinismo de sua história. Um parlamentar, senador, que utilizava a tribuna da casa mais alta do legislativo do paí­s para discursar sobre moral, sobre verdade; que acusou muito de seus pares para que fossem para o paredão da mí­dia para serem denegridos em sua imagem, foi flagrado sendo extremamente promí­scuo com a coisa pública. Escolheu, conforme seu gosto pessoal, um empresário esperto para o ajudar em sua empreitada na polí­tica, institucional e financeiramente, inclusive.  Pela evidência dos fatos, para o Senador Demóstenes, o bicheiro Cachoeira não era um criminoso. Suas empreitadas empresariais e no submundo, provavelmente representavam para Demóstenes Torres um empreendimento legal, embora ilegal perante as leis do Brasil.

 E daí­ o senador foi mordido pelo bicho da prepotência.   Provavelmente, Iniciou uma empreitada na busca de ideais que acreditava , retirando de sua consciência qualquer culpa que a defesa de um contraventor poderia levar í  sua alma. Justiça pelas próprias mãos, para Demóstenes, significou estar acima do bem e do mal.

O erro do inteligente e bem preparado senador, pode ter sido o de não ter assumido a verdadeira história, desde o iní­cio das apariçíµes de suas conversas gravadas. Se fosse um ideologista incondicional, assumiria a culpa de estar apoiando um contraventor por acreditar que, na prática, o jogo no Brasil não deveria de ser considerado ilegal.   Se mantivesse sua provável busca por um ideal libertário, lógico e bastante coerente de ser defendido na nação, poderia passar de réu moral í  posição de estar sendo crucificado injustamente por leis hipócritas e incoerentes que existem no paí­s, que proí­bem jogos de azar, mas que defendem e incentivam uma empresa que se especializa a cada dia em lançar jogos de azar para o povo, as loterias da Caixa Federal.

O advogado de Demóstenes Torres, Marcos Thomas Bastos, ex- Ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil do governo Lula, mostrou e convenceu seu cliente, que na vida o negócio é ser prático, enxergar a vida como um teatro, onde somos até determinado momento um personagem, mas que após fechar as cortinas do palco, as pessoas devem (conforme entendimento de Bastos) mensurar as consequencias de nossos atos de uma forma matemática, dinheirista, egoí­sta. O ex-ministro de Lula deve ter sugerido í  Demóstenes, que contabilizasse o quanto perderia de dinheiro se optasse pelo idealismo, e o quanto ganharia ou economizaria ficando calado na CPI e afirmando publicamente que é contra a legalização do jogo perante seus pares de senado da Comissão de í‰tica. E Bastos mostrou para ele, provavelmente, que o dinheiro compra tudo ao apresentar a conta de seus trabalhos para com o senador acuado, uma conta que deve ter sido bastante salgada, pois um ex-ministro, que deveria defender a verdade em nome de uma nação por ter tido a honra de ocupar o cargo de Ministro da corte maior da justiça brasileira, não exporia seu nome por alguns trocados.

O Brasil assiste de camarote o cúmulo da hipocrisia de nossa polí­tica.   O DEM, partido que deveria militar pela liberação do jogo no paí­s, não tem coragem de assim o fazer. Prefere disputar com a esquerda romântica e radical, o tí­tulo de distribuição de bolsas de auxí­lio com transferência direta de dinheiro aos pobres brasileiros, muitos desempregados justamente pelo paí­s ter banido de suas atividades os jogos de azar, sucesso que qualquer paí­s que o opera. O mesmo DEM demoniza uma pessoa que estava provavelmente sendo arrecadadora de recursos de campanha para a maioria dos parlamentares do partido com mandato que estão, hoje, usufruindo de seus cargos lá em Brasí­lia, outra hipocrisia.

 O Senado deve cassar o mandato de Demóstenes acusando de falta de decoro, tão somente por ter utilizado gratuitamente um rádio telefone fornecido para ele por um de seus apoiadores polí­ticos. Tudo porque Cachoeira é considerado um criminoso, pois opera jogos de azar. A mí­dia insiste em chamar Cachoeira de quadrilheiro dos jogos, mas recebe recursos milionários vindos do Carnaval do Rio de Janeiro, financiado ao que parece por Bicheiros, pois todos que são flagrados são diretores de no mí­nimo uma Escola de Samba. Mais uma hipocrisia.

A sociedade, aqui, aí­ no sofá da sala, alguns no mochinho da cozinha, lendo o jornal ou assistindo a TV, torce para que Cachoeira seja preso, que Demóstenes seja cassado, que os discursos hipócritas contra o senador estampados na TV Globo sejam realizados, embora muitos destes discursos venham de pessoas que se beneficiaram e até se beneficiam do mesmo esquema.

A mesma sociedade, após ler o jornal, após assistir a TV, corre para a lotérica mais próxima na busca de ganhar na megasena acumulada. Afinal a megasena e as outras várias modalidades de jogos vendidas na lotérica se tratam de jogos legais.  E tudo isto caba sendo uma propaganda subliminar de fomento í s apostas.

 

 


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