Viva a Copa na TV (e deixem o futebol em paz!)*

26 de junho de 2014

*Por Guile Rocha, editor de A FOLHA

 

 

 

A Copa do Mundo é o combustí­vel mais presente na alma dos brasileiros nesses dias. Impossí­vel (para quase todos nós) não ficar extasiado com este momento, pois mesmo que não se goste de Copa do Mundo, fica difí­cil não falar dela, direta ou indiretamente. Sou um apaixonado por futebol, em particular um apaixonado por assistir ao futebol televisionado. Nunca fui um jogador de futebol brilhante, na verdade sempre fui um péssimo mas esforçado jogador. Mas desde que eu me lembre, e principalmente desde a conquista da Copa de 1994,  tenho os olhos vidrados no futebol quando ele passa na TV.

As sutilezas que aparecem nos lances de câmera lenta, nos dribles certeiros, os vários ângulos das câmeras nos gols bonitos e feios, nas defesa milagrosa. Momentos irrelevantes, polêmicos, burocráticos e lendários do futebol que se misturam, são vistos e revistos. O frenesi contí­nuo dos comentários e observaçíµes nas vozes dos narradores e comentaristas, estatí­sticas banais ou decisivas que sempre mudam. A adrenalina da competição, os bastidores dos jogos nos programas esportivos. Todos essas nuances da TV são um ví­cio, uma razão para se divertir, criar expectativa e passar o tempo. São o tempo do futebol. Um tempo que,  seja relevante ou não, no mí­nimo faz com que minha vida se torne menos tediosa. Principalmente em época de Copa do Mundo.

Não sou só nesta minha obstinação com o futebol, com os jogos na TV. Longe disso, divido este prazer midiático como tantos milhíµes de brasileiros, argentinos, ingleses, italianos, nigerianos, japoneses.  E agora então, no mundo todo há um mar de pessoas com seus televisores ligados no futebol,  assistindo aos jogos de suas seleçíµes, pondo seus coraçíµes na mão com a sua torcida ou simplesmente fascinados, dividindo um sentimento globalizado e irresistí­vel demais para ser ignorado.

A importância desta competição, na verdade, simboliza para o mundo mais do que podemos ponderar. No Lí­bano, por exemplo, cuja seleção nunca sequer se classificou para o mundial, o Ministério da Informação nacional quebrou monopólio de emissora de tevê a cabo para transmitir a competição para toda a população, que reivindicava este direito.

Mesmo quem não se interesse pelo nosso esporte nacional se empolga na Copa do Mundo. Uma reação em cadeia, os mais apossados pela competição vão infectando os que não estão nem ai. E estes vão ficar com raiva quando percebem que, de um jeito ou de outro, quase toda conversação envolve a Copa, que o Facebook e quase todo site informativo terá a Copa na prioridade da pauta. Para as pessoas brasileiras contextualizadas na sociedade, seres que falam, assistem e leem, o assunto é praticamente inevitável. Portanto, a maioria dos brasileiros pouco interessados em futebol acaba por resignar-se, e decide se envolver, de uma forma ou de outra, no assunto Copa do Mundo. E mais uma vez a televisão volta a ser centro primordial das atençíµes, reivindicando uma posição de destaque que vêm, gradativamente, perdendo para a infinidade de possibilidades do mundo virtual. Mas na Copa do Mundo é diferente.

Assistir ao jogo do Brasil, então, parece ser quase um dever cí­vico. E ainda que um 0 a 0 contra o México possa ser decepcionante para muitos, há a certeza da expectativa, pois um novo jogo virá contra Camaríµes, e mais uma vez a massa de brasileiros estará atenta a cada lance, dividindo na frente da TV as emoçíµes ou o tédio que isso representa. Mas a maioria estará torcendo mesmo, deixando de lado (mesmo que momentaneamente) qualquer mágoa com o paí­s e os problemas,   tudo em nome da magia da bola.

Admito que assistir a jogos de futebol pode nem sempre ser um deleite, as vezes pode ser até bem entediante, para falar a verdade. Com o perdão da franqueza – e ainda que tenha um profundo respeito por todos os times de futebol (pequenos ou grandes) – a verdade é que assistir um jogo de Gauchão, com o colorado pouco inspirado contra um retrancado Lajeadense, numa transmissão televisiva morna e com a narração frustrantemente folclórica do Paulo Brito – acompanhada das observação muitas vezes infelizes do Diogo Oliver – pode ser mais tortura do que prazer.  Só que numa transmissão da Copa do Mundo em 2014, com as imagens em HD e a atenção estrondosa que o bilionário mundo do futebol desperta, com os grandes nomes do esporte defendendo a honra de sua pátria, sendo narrados, comentados, esmiuçados por verdadeiros profissionais do jornalismo futebolí­stico, marcados de perto por dezenas de fantásticas câmeras… tudo faz parte de um contexto, uma super-realidade que torna até o maçante em interessante numa Copa do Mundo. í‰ um show da tecnologia e dos jogadores, isso é fato.

Que fique claro que defendo a emoção de assistir o futebol ao vivo, a pureza das sensaçíµes que ir ao estádio representa. Assistir in loco um jogo de Copa do Mundo, sentir as energias internacionais, as imagens e sons de um momento esportivo singular capturados diretamente pela retina e ouvidos. Deve ser uma emoção memorável. Gostaria de viver este momento, mas os pecados capitais da preguiça e avareza me impediram. No entanto, o comodismo inato que carrego mostra-se bastante satisfeito por eu ter uma televisão (ainda que daquelas velhas 29 polegadas analógicas, guerreira comprada para a Copa de 2002) que me permite ver o espetáculo da bola por um sem número de ângulos, velocidades, opiniíµes.

  E para aqueles que têm um interesse na Copa do Mundo que vai além da mera atenção na seleção brasileira, a disputa pelo troféu de campeão torna-se o ápice dos eventos futebolí­sticos, um verdadeiro banquete. Mais saboroso ainda torna-se o cardápio daqueles lances marcantes, surpreendentes   – como foi a patrolada da Holanda e do Chile sobre a poderosa Espanha, ou a surpreendente vitória da Costa Rica sobre a seleção mais gaudéria do mundo, o Uruguai. E mesmo o insosso 0 a 0 entre Nigéria e Irã tem seu charme no certame. Porque na copa do Mundo, todo lance é importante, tem um valor especial

 Os que estão mais ligados nos jogos, são atingidos por uma série de diferentes sensaçíµes após cada jogo. Cito 4 casos dentre vários possí­veis: 1) O triunfo pessoal após dar o palpite correto; 2) Sentimentos de surpresa e desconcertamento pela zebra; 3) o encanto com a plasticidade dos belos lances, a agilidade e técnica dos astros da bola; 4) a desilusão e até raiva pela derrota das seleçíµes preferidas, pelo resultado errado no bolão.

 Há amantes do futebol em todo o mundo: os que praticam, os que assistem e os que fazem os dois. í‰ majoritariamente para eles, para nós que a Copa do Mundo existe há mais de 80 anos. E para os justos que reivindicam por melhorias sociais, os que acham que é hora certa de protestar contra as mazelas do paí­s, contra a corrupção e o salário astroní´mico dos jogadores, aos que decidem mostrar o lado negro do Brasil que cada um vê eu digo: estou do lado de vocês, quero um paí­s ainda melhor do que o que temos hoje. Mas por favor, deixem o futebol em paz. Por mais que ele não seja perfeito, é o ópio mais viciante que temos, e uma crise de abstinência não está nos meus planos por enquanto.

 

 

"Mesmo quem não se interesse pelo nosso esporte nacional se empolga na Copa do Mundo. Uma reação em cadeia, os mais apossados pela competição vão infectando os que não estão nem ai. A Copa é a notí­cia do momento, e não há como fugir dela"


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