PARA QUEM í‰ PAI OU MíE E PARA AQUELES QUE O SERíO

11 de junho de 2010

UM TEXTO DE AFONSO ROMANO DE SANT™ANNA

 

Maria Helena Tomé Gonçalves ( mhtgoncalves@hotmail.com.br)

 

   

                                              Há um perí­odo em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. í‰ que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença í  vida. Crescem com uma estridência alegre, e, í s vezes, com uma alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente. Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do maternal? A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil…  

                                              E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos pais ao volante esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos, soltos. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incí´modas mochilas da moda em seus ombros. Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notí­cias e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.  

                                              Há um perí­odo em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judí´. Saí­ram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Deverí­amos ter idos mais í  cama deles ao anoitecer para ouvir suas almas respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pí´steres, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos suficientemente ao playcenter, ao shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostarí­amos de ter comprado… Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.  

                                              No princí­pio subiam a serra ou iam í  casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossí­vel deixar a turma e os primeiros namorados. Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas de repente morriam de saudades daqueles pestes. Chega o momento em que só nos resta ficar de longe e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca da felicidade. E que a conquistem do modo mais completo possí­vel. O jeito é esperar, qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de re-editar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.

                                        Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser pais depois que somos avós…    

 


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