A CULTURA RESPIRA:TORRES X PASSO

A semana que passou celebrou uma vitória da cultura, seus protagonistas e seus agentes com a sanção do Presidente da República à Lei Aldir Blanc. Trata ela do apoio financeiro, no valor de R$3,5 bilhões.

9 de julho de 2020

A semana que passou celebrou uma vitória da cultura, seus protagonistas e seus agentes com a sanção do Presidente da República à Lei Aldir Blanc. Trata ela do apoio financeiro, no valor de R$3,5 bilhões, como compensação à paralisação de sessões e espetáculos, em razão do corona vírus. Foi uma conquista de muitas mãos que teceram um movimento que uniu não só artistas mas o país inteiro, conseguindo o apoio do Congresso Nacional. Agora, é cuidar para que os recursos cheguem, realmente, sem falhas nem fraudes, aos que dele necessitam, diminuindo os hiatos da cadeia produtiva do setor cultural. Há uma preocupação, que exigirá grande vigília: Bolsonaro entregou a Estados e Municípios a responsabilidade por providenciar os recursos, caso faltem no Orçamento da União. Um risco, pois só esta tem os meios para “inventá-los” vez que a única entre os entes federados que detém o poder de emitir e se endividar no mercado de títulos.

A questão da cultura ainda sofre de grandes incompreensões junto aos meios governamentais. Não por acaso, foi o último segmento a receber a devida atenção neste momento dramático de crise nacional. Confunde-se muito cultura com mero diletantismo sem que se percebam suas funções econômicas, de formação de valores e identidades simbólicas, além esteio da nacionalidade no curso do projeto de construção da autonomia humana. “Minha pátria é minha língua”, clama o Vinho da Poesia.

Na verdade, em todas as economias desenvolvidas contemporâneas a economia criativa tem mais peso no PIB e no emprego do que a indústria automobilística. No Brasil, a Federação das Indústrias do R.J. calculou que ele gera 2,64% do PIB e mais de 1 milhão de empregos formais diretos, com salário médio de R$ 5,4 mil. A cultura, porém, não se encerra em si mesmo. Além de gerar uma infinidade de empregos conexos, conformando-se crescentemente como um produto coletivo, como a indústria cinematográfica, não por acaso denominada sétima arte, ela potencia outros “trades” estratégicos como o turismo, junto ao qual sustenta várias economias do mundo. Se associarmos, então, cultura, educação e tecnologia, aí localizaremos o núcleo duro das atuais Sociedades do Conhecimento. Cidades como Barcelona, na Espanha, vão se identificando, destarte, como capitais do Século 21.

Eis aí a grande lacuna da atual gestão na Prefeitura de Torres: Sumiram as preocupações com a cultura e ela sequer tem qualquer lugar no Plano de Turismo recentemente lançado, peça insuficiente para interligar nossa cidade a uma das maiores manchas turísticas da América do Sul, que, abrindo-se no epicentro serrano de Gramado, desce pelos Cânions, atravessa uma prodigiosa ‘interlândia’ com inúmeras cidades no curso do Mampituba, para culminar na foz deste Rio no litoral. Misto de timidez e soberba, cuja natureza aprende-se no livro “Torres em Transe”, de Fernanda Carlos Borges, um romance sociológico. Em vez de pensar global, aí situando o agir local, limita-se apenas no ponto, não no processo. Lei de Murphy: Um projeto que tem tudo pra dar errado, vai dar errado.

Já o Passo de Torres, com humildade, tem pescado em águas mais promissoras: Além do valoroso trabalho de sucessivos Conselhos de Política Cultural, potenciado por um Gestor de Cultura do porte de Jaime Batista, tem havido iniciativas concretas da Prefeitura. Nesta semana, seguindo a tradição de valorizar a cultura açoriana, que deitou raízes na nossa costa desde o século XVIII, inaugurou, junto a Ponte Pênsil, um belo Monumento ao Açorita, escultura em ferro de Elza Menezes, de elevado valor estético, baixo orçamento e grande significado histórico, exatamente como preconizava Ruy R. Ruschel na sua crônica “Torres Cultural” de 01.09.1993: O turista não só quer ver o mar e passear no calçadão. Registro este momento, parabenizando o Prefeito Jonas Souza e o Poeta Joaquim Moncks, autor da mensagem na placa de inauguração:

“Por este Passo, em águas rasas, transitaram bichos e homens, todos andejos, sem marca e sinal. Eram índios, negros, brancos, todos fazedores de pátria. O que permaneceu como raiz foi o pescado, que fez família e matou a sua fome com o que vem das águas.”

 




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