Sempre trabalhei fora e para dar conta de todas as tarefas, também contei com pessoas maravilhosas no trabalho de retaguarda com os filhos, a casa, as roupas. Costumo dizer que se não pudesse contar com elas não teria criado e educado quatro filhos, trabalhado como professora, diretora, supervisora, aposentando-me como orientadora educacional, tocado a fábrica de sorvetes e a sorveteria, administrado tudo isso e, de lambuja nos intervalos, pintar e escrever, minhas reais e verdadeiras aptidíµes. Há muito estou aposentada da profissão e nesse tempo todo recusei voltar a trabalhar com horário estabelecido previamente, pois sei o quanto é duro na hora de sair de casa ter um filho chorando porque está com febre, outro procurando o material escolar esquecido em algum lugar, um deles fazendo birra com a irmã e a hora passando e a gente com a obrigação de chegar pontualmente. Nossas ajudantes sempre ficaram muito tempo conosco, tanto nos serviços da casa quanto na fábrica ou na sorveteria, tempo contado em anos, na fábrica temos funcionárias com mais de vinte anos de trabalho, na loja muitas ultrapassaram dez anos de permanência, em casa desde uma que ficou conosco catorze anos, outra doze e outra entre cinco e seis anos, provocando a cada saída havia um verdadeiro luto familiar.
No último ano e meio uma funcionária esteve conosco em casa e agora entrou em licença maternidade, pois teve seu primeiro bebê. Preparei-me antecipadamente contratando uma substituta que por outros motivos não pode assumir e passei a semana numa verdadeira crise. Além de ficar sozinha para fazer todo o serviço da casa, desde cozinhar, que eu não sei e não faço questão alguma de aprender, lavar, passar e manter a casa razoavelmente em ordem, contraí uma gripe horrível juntamente com nossa neta mais nova e estamos desde o domingo ilhadas em casa. O mal estar é tão grande que não se tem vontade de fazer nada, absolutamente nada e estou naquele espaço vazio de quem ficou perdido em meio ao nevoeiro, meio sem rumo, esbarrando nas minhas próprias incompetências. Olho para trás e vejo que tive muita, muita sorte por ter encontrado pessoas com as quais pude sempre contar em nossa rotina diária e que me oportunizaram tempo para as outras atividades que realizei.
Hoje a vida familiar está mudada. A vida nas empresas também. Já não se pode contratar mensalistas, em casa as famílias são felizes se contam com diaristas uma a duas vezes por semana. Nos negócios, os funcionários buscam, com toda razão, empregos permanentes e a sazonalidade impede que boas pessoas trabalhem apenas durante as temporadas de verão, ficando difícil formar quadros mais duradouros. Além disso, as chamadas leis sociais apertam as famílias e as empresas de tal forma que, ou se paga um bom salário ou se recolhem as obrigaçíµes fiscais í custa de salários tabelados sempre para baixo. Isto com pouquíssimo retorno para a sociedade. E a gripe que segundo os órgãos oficiais da saúde já foi banida, volta com formas e sintomas diferentes, mas difíceis de enfrentar.
Nesse final de primeira semana sem ajudante, nesse final de crí´nica sem inspiração, nesse final de gripe sem vontade, considero-me uma verdadeira sobrevivente. Parabenizo as mulheres trabalhadoras e donas de casa pelo seu sucesso no cumprimento da empreitada de dupla, í s vezes tripla jornada diária de trabalho, muitas vezes sem ajuda de ninguém da casa. Parabéns, queria ser uma de vocês, mas acho que não vou resistir por muito tempo. Bandeira branca, eu quero paz!


