SAMBAQUIANOS: Os primeiros habitantes do sítio das Torres

Comecemos pelo princípio da povoação da região de Torres: por aqueles que estavam aqui muito antes de nós — os sambaquianos, ocupação nativa pré-histórica

21 de junho de 2025

Seguindo a proposta da coluna anterior, de mostrar a parceria entre a História e o Turismo, a partir desta semana revisitarei antigas colunas em que essa temática é especialmente marcante. Por meio delas, pretendo destacar a importância da história local na formação do tipo de turismo que hoje se pratica e, quem sabe, sugerir caminhos para integrar ainda mais a História ao Turismo em nossa cidade.

Comecemos pelo princípio: por aqueles que estavam aqui muito antes de nós — os sambaquianos.

Esse tema é um dos mais importantes quando se pensa em contar a história de Torres. Embora a maioria desconheça, ou até não se interesse, as terras que compõem o sítio das Torres não foram “descobertas” por ninguém. Já havia, aqui, indícios claros de ocupação nativa pré-histórica. Os sambaquianos habitaram o litoral brasileiro — incluindo o litoral norte do Rio Grande do Sul — entre 8 mil e 2 mil anos antes do presente. O nome “sambaqui” vem do tupi e significa “monte de conchas”, que são justamente os principais vestígios arqueológicos deixados por esses povos.

Os sambaquis são elevações ou colinas formadas pelo acúmulo de conchas de moluscos (ostras, berbigões, mexilhões), restos de peixes, mamíferos, aves, répteis, esqueletos humanos, artefatos e vestígios de fogueiras. Esses “montes” variam em tamanho, alguns atingindo grandes dimensões, como o Sambaqui da Lagoa, em Santa Catarina, com 26 metros de altura.

Os artefatos encontrados nos sambaquis diferem bastante daqueles dos povos caçadores do interior. Nos cerritos, por exemplo, os arqueólogos encontram pontas de flecha usadas na caça. Já no litoral, são mais comuns objetos relacionados à pesca: anzóis feitos de osso, pesos de rede de pedra polida, entre outras ferramentas típicas do cotidiano dos antigos habitantes da planície costeira.

O historiador Ruschel destacou a existência de vários sambaquis no atual município de Torres. Ele lembra que, em 1906, o cientista Roquette Pinto registrou 16 sambaquis em Arroio do Sal (então pertencente a Torres) e outros 4 na própria vila: “Em Torres existem quatro grandes sambaquis, um logo ao chegar na vila, e os outros três depois dela, próximo ao Mampituba.”

Segundo a descrição de Roquette Pinto, tratavam-se de verdadeiras montanhas de conchas e pedras. O primeiro ficava entre as últimas casas ao sul — onde hoje se cruzam a rua Alfiero Zanardi e a rua Cruzeiro do Sul — e era conhecido como “Paradeiro”. Foi desse sambaqui que Balbino de Freitas retirou mais de mil peças, compondo uma coleção que, mais tarde, foi vendida ao Museu Nacional do Rio de Janeiro — o mesmo que foi tragicamente destruído pelo incêndio.

Na época, essas casas ficavam antes das grandes dunas que existiam naquela região, próximo a escola Sagrado (antigo São Domingos).

O segundo sambaqui localizava-se nas proximidades da Praia Grande, descendo pela rua Júlio de Castilhos, entre as ruas Desembargador Vieira Pires e Borges de Medeiros. Em 1937, o etnógrafo argentino Antônio Serrano descreveu esse sambaqui, originalmente com 80×30 metros de extensão e 4 a 5 metros de altura, mas que já se encontrava bastante degradado devido à exploração de conchas para produção de cal — usada na caieira ao pé da Torre do Meio.

O terceiro ficava nas imediações da Lagoa do Violão, e o quarto, perto do rio Mampituba. Ruschel ainda menciona dois outros sambaquis “fora de mão”, na região da Guarita e do Curtume — locais que não chegaram a ser visitados por Roquette Pinto. Segundo Frizzo, o Sambaqui da Guarita provavelmente tenha sido descoberto há muito tempo, mas com outro nome, na década de 1930 o sítio era conhecido por “Sambaqui da Caeira”, assim referenciado por Serrano, pois à jazida ficava cerca de 500 metros da caieira da Praia da Cal, qual o explorou por indeterminadas décadas. Na década 1970 à Companhia Riograndense de Turismo (CRTur), sobre o sítio fez o asfaltamento do atual estacionamento do Parque Estadual e Ambiental da Guarita – em pleno vigor da Lei Federal 3.924 e, principalmente, da Lei Municipal 717, qual deveriam proibir e punir legalmente tal ato de destruição. Frizzo destaca que sobre o Sambaqui do Curtume a única referência sobre esta jazida foi feita por Serrano (1937), mencionando colares de origem europeia pertencentes à coleção Balbino Freitas, apenas isso.

Apesar de toda essa documentação e das claras evidências da existência desses diversos sambaquis, hoje não é mais possível mostrá-los fisicamente a turistas, veranistas ou mesmo aos próprios torrenses. No entanto, para incluí-los no roteiro turístico, uma excelente alternativa seria a instalação de placas ilustrativas nos locais onde eles existiram. Essas placas poderiam indicar a presença do sambaqui e ressaltar sua importância histórica e turística para a cidade e região. Seria uma singela homenagem aos primeiros habitantes de Torres e uma provocação à reflexão de quem passa “turistando” ou simplesmente caminhando pelas ruas da cidade.

O que mais podemos fazer para resgatar e valorizar a história desses primeiros moradores de Torres? Compartilhe suas ideias e vamos juntos construir um turismo mais consciente e rico em história!

 

Fonte: Torres tem História. Ruy Ruben Ruschel. Rafael Frizzo, monografia, “Mina Preciosa Para As Obras Da Povoação”: Os Sítios Arqueológicos Do Antigo Litoral De Torres, Rio Grande Do Sul




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