Torres sempre foi inspiração para artistas de diversas áreas, mas foram os artistas plásticos que, com singularidade, eternizaram nossas belas paisagens. Nomes como Jean Baptiste Debret (embora haja controvérsias sobre algumas aquarelas a ele atribuídas), Herrmann Rudolf Wendroth, Vicente Cervásio e Francis Pelichek, cada um a seu tempo, souberam capturar a essência pitoresca desta cidade, que outrora foi uma vila.
Uma cena interessante do cotidiano torrense foi eternizada por um desses grandes artistas: Francis Pelichek. Nela, o artista mostra Torres por volta da metade da década de 1920, uma vila pobre, com poucas e modestas casas. Atravessando a paisagem, um morador com seu cachorro — aparentemente um pescador — caminha levando alguns peixes, certamente o sustento da família. A terra, ou talvez a areia da praia, divide o espaço com o azul do céu e da serra ao fundo. À direita, uma imponente cruz de madeira simboliza a fé do lugar. Assim era a rua de Cima — simplesmente assim chamada — capturada por Pelichek.

Essa não foi a única vez que Pelichek retratou Torres. De acordo com o professor Círio Simon, existem outras pinturas. Das três a que tive acesso, a já mencionada é, sem dúvida, a mais conhecida entre os torrenses.
A segunda aquarela nos leva à Prainha, com o Morro do Farol e a torre do meio ao fundo. Um detalhe crucial, no canto superior da pintura, é a presença, de soslaio, do segundo farol da vila, instalado na torre norte em 1928 — o que confirma a provável data da obra.

Já a terceira aquarela oferece uma vista da Praia da Cal a partir do Morro do Farol. Nela, a Cal surge como uma área intocada, dominada por vastas dunas. Ao fundo, a Guarita, a torre sul e parte da Praia de Fora completam a cena.
Pelichek veio a Torres mais de uma vez. Em uma dessas visitas, foi fotografado em ação. Esta fotografia, em especial, mostra o artista em algum ponto da cidade, sentado em frente ao seu tripé de pintura, rodeado por uma pequena plateia que observa atentamente sua performance. Quem sabe estivesse pintando um dos quadros aqui mencionados?
“O notável pintor e pastelista Francis Pelichek — Pelí, para os íntimos — era uma figura que lembrava, guardadas as devidas proporções, o pintor Toulouse-Lautrec, seja por sua deficiência física, seja por sua admirável arte de expressão. Era também boêmio, como seu ‘sósia’ francês. Nasceu em Kutná Hora, Tchecoslováquia, em 11 de setembro de 1896, recebendo o nome de František Josef Pelichek.”
Sabe-se que Pelichek chegou a Porto Alegre no início da década de 1920, já naturalizado brasileiro, após passagens pelo Rio de Janeiro e Curitiba. Na capital gaúcha, foi professor e diretor interino do Instituto de Belas Artes, onde ocupou a cadeira de desenho e pintura de 1922 até sua morte. Ele dedicou seu talento à cultura gaúcha, retratando paisagens, costumes e tradições. Além disso, foi ilustrador de capas da Revista do Globo e de outros periódicos. Pelichek faleceu em Porto Alegre, em 1º de agosto de 1937, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em decorrência de uma cirurgia no estômago. Foi sepultado no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia, na cidade que escolheu para viver.
Felizmente, em sua breve existência, Pelichek deixou para nós, torrenses, mais do que belas pinturas — deixou um olhar. Um olhar estrangeiro que soube enxergar, com sensibilidade rara, a alma simples e verdadeira de nossa terra. Que suas aquarelas continuem a nos inspirar a valorizar o que temos de mais nosso: a beleza que resiste no tempo, nas cores da memória. Obrigado, Pelichek.
Fontes:gauchazh.clicrbs.com.br;http://www.ufrgs.br/acervoartes;profciriosimon.blogspot.com. Fotos: Círio Simon.
